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Publicado em 29 de setembro de 2026 às 15:34
O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre saúde mental, mas essa conversa precisa ir além: é preciso falar também sobre renda, dignidade e os direitos de quem adoece e já não consegue trabalhar. Nos meus atendimentos, costumo dizer que o preconceito contra o tratamento psicológico e psiquiátrico está “fora de moda”. >
Faço terapia há cerca de dez anos e também precisei de acompanhamento psiquiátrico para lidar com ansiedade e estresse pós-traumático após uma situação de violência. Essa experiência me tornou mais sensível à realidade de quem chega ao escritório. >
Quando um transtorno mental compromete a capacidade de trabalho, pode haver direito ao benefício por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença. Nos casos graves e duradouros, sem perspectiva de reabilitação, pode ser cabível a aposentadoria por incapacidade permanente. Se houver necessidade de assistência permanente de outra pessoa, pode existir acréscimo de 25%. O trabalhador rural também tem direito a essa proteção, mediante comprovação da atividade rural. >
Quem está desempregado ou não contribui para o INSS pode ter outro caminho: o BPC/LOAS, no valor de um salário mínimo mensal, atualmente R$ 1.621,00. Ele não exige contribuição prévia, mas depende da vulnerabilidade social e da avaliação da deficiência. São consideradas limitações para estudar, trabalhar, cuidar de si, organizar a rotina e participar da vida social, além de barreiras como falta de apoio, dificuldade de acesso ao tratamento e preconceito. >
Depressão, bipolaridade, esquizofrenia, ansiedade, pânico, alcoolismo, dependência química e outros transtornos não podem ser avaliados apenas pelo diagnóstico. Importa o impacto real da doença sobre a autonomia e a participação social. >
A documentação faz diferença: guarde relatórios, prontuários, receitas e exames desde o início da doença, mantenha acompanhamento psiquiátrico e psicológico e peça que os profissionais descrevam nos relatórios não somente o CID, como também as limitações causadas pela doença. E se o INSS negar? A negativa não significa necessariamente ausência de direito. >
É possível recorrer ao Judiciário para reverter a situação, passando por uma perícia independente. O CNJ aponta o INSS como o maior litigante no polo passivo do Judiciário. A instituição que mais responde a processos na justiça brasileira, e a maioria delas termina com o reconhecimento do direito do cidadão. Isso revela que as decisões administrativas do INSS estão longe de ser infalíveis e que muitos benefícios são negados ou cessados de forma indevida. >
Por trás de cada processo, existe alguém tentando responder a uma pergunta muito mais angustiante do que qualquer número de benefício: “Se eu não consigo trabalhar agora, como vou viver enquanto tento melhorar? Como vou sustentar os meus filhos se eu simplesmente não tenho forças?”>
Conscientização sobre saúde mental não pode terminar em setembro. Benefício previdenciário não é favor: é direito. As doenças mentais são tão relevantes quanto as físicas e seus direitos também precisam ser protegidos. >
O Direito Previdenciário não cura a doença, mas pode garantir tempo, proteção financeira e dignidade durante o tratamento. >
Sobre a autora: Ana Victória Gomes é advogada, professora e palestrante. >