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Miro Palma
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 05:00
Falta um mês para o Brasil voltar às urnas. No dia 4 de outubro, o eleitor terá seis escolhas pela frente: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente. A ordem aparece na tela da urna, mas a importância de cada voto, nem sempre. >
A eleição presidencial concentra as atenções, naturalmente. É o cargo mais conhecido, aquele que costuma virar disputa entre grandes grupos políticos. Só que o presidente não governa sozinho. Boa parte das decisões que vão definir os rumos do país passa pelas mãos de gente escolhida nos outros cinco votos.>
Na Bahia, mais de 11 milhões de eleitores estão aptos a votar. Vão escolher 39 deputados federais para a Câmara e 63 deputados estaduais para a Assembleia Legislativa. Também elegem dois dos três senadores que representam o estado em Brasília.>
Seis votos, seis escolhas>
A diferença entre os cargos ajuda a entender por que isso não é simplesmente preencher números na urna. Deputados federais e estaduais cumprem mandato de quatro anos, eleitos pelo sistema proporcional — no qual a votação do partido ou federação também pesa na distribuição das cadeiras. Já o senador, como presidente e governador, é eleito pelo sistema majoritário e tem mandato de oito anos.>
Em 2026, estão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado, sendo duas por estado e duas pelo Distrito Federal. É a vez da renovação de dois terços da Casa. Em 2022, só um terço das vagas havia sido renovado.>
Pode parecer detalhe distante do dia a dia, mas é justamente esse tipo de coisa que revela o tamanho do poder em jogo. Deputados votam leis, fiscalizam o Executivo, mexem no Orçamento. Senadores legislam e fiscalizam também, e ainda têm atribuições próprias, como participar da aprovação de certas autoridades e de decisões relacionadas a estados e municípios.>
Em segundo plano>
Talvez a dificuldade esteja exatamente aí. Para presidente, o eleitor costuma ter poucos nomes na cabeça. Para o Legislativo, precisa enfrentar uma lista bem maior de candidatos e entender uma lógica que não é nada intuitiva para a maior parte da população.>
Uma pesquisa Quaest divulgada em agosto mostrou isso com clareza na disputa baiana pelo Senado. Quando os nomes eram apresentados, 26% dos entrevistados ainda estavam indecisos. Na pergunta espontânea, sem citar nenhum candidato, a indecisão saltava para 85%. O levantamento também mostrou que 63% consideravam o voto definitivo, enquanto 37% ainda admitiam mudar de ideia.>
Não é difícil imaginar por que tanta gente empurra essa decisão com a barriga. São mais de 20 mil candidaturas registradas no país este ano — mesmo com queda de cerca de 30% em relação a 2022, ainda são 7,6 mil candidatos a deputado federal e 11,5 mil a deputado estadual ou distrital.>
Popularidade não é preparo>
Nesse cenário, a política ganhou também uma camada de entretenimento. As redes sociais premiam quem chama atenção, provoca, faz graça, transforma alguns segundos de vídeo em milhares de compartilhamentos. Um candidato pode ser um ótimo comunicador. Isso não diz nada, porém, sobre se vai ser um bom parlamentar.>
E é aí que mora a distinção que o eleitor precisa fazer: popularidade não é proposta. Engajamento não é sinônimo de preparo para exercer um mandato.>
Não é preciso conhecer a fundo o funcionamento do Congresso para votar. Mas é razoável saber, pelo menos, qual é a trajetória de quem está recebendo o voto, o que defende, o que pretende fazer se for eleito. Para quem já ocupa uma cadeira, cabe ainda uma pergunta simples: o que fez com o mandato que já tinha?>
Cada um no seu quadrado>
A escolha, aliás, não precisa seguir a mesma lógica da eleição presidencial. Dá para votar em um candidato a presidente e escolher, para deputado, governador ou senador, alguém de outro partido, com outra visão política. Essa independência faz parte do jogo democrático.>
O problema é quando a decisão acontece sem escolha de fato. Pelo número mais conhecido, pela indicação de alguém, pela celebridade do momento, ou simplesmente porque era preciso apertar alguma tecla antes de chegar ao voto para presidente.>
Além da urna...>
O Congresso vai ter papel decisivo no próximo governo. O presidente eleito vai precisar de deputados e senadores para aprovar projetos, negociar o Orçamento e construir condições de governar. E os parlamentares também vão poder fiscalizá-lo, fazer oposição. O tamanho dessas escolhas aparece nos números: o Orçamento de 2026 prevê cerca de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares, recursos cuja destinação passa pela atuação de deputados e senadores. É mais do que o orçamento anual previsto para 20 estados brasileiros. O resultado dessa composição vai ser tão concreto quanto o nome que vencer a Presidência.>
Por isso, talvez valha a pena olhar para essa eleição de um jeito um pouco menos presidencializado. Falta um mês. Ainda dá tempo de pesquisar, comparar trajetórias, entender o que está por trás de cada um dos seis votos.>
A democracia não pede que todo mundo chegue à mesma conclusão. Pede que cada um consiga chegar à sua. No dia 4 de outubro, poucos segundos bastarão para registrar as escolhas na urna. Os mandatos, porém, vão durar quatro ou oito anos. É tempo demais para deixar essa decisão por conta do acaso.>