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Salvador: do Barroco ao barraco

O problema é que Arte, em seu conceito mais amplo, tem sido posta de escanteio em prol de um pragmatismo e uma mediocridade que a oprimem

  • Foto do(a) author(a) Gil Vicente Tavares
  • Gil Vicente Tavares

Publicado em 4 de agosto de 2026 às 20:05

Vez por outra, vejo circular pelas redes sociais uma comparação entre prédios e elementos arquitetônicos antigos e novos, para comprovar que abrimos mão da beleza. Na sequência de uma calha dourada cheia de arabescos e com um dragão em sua boca de escoamento, vemos um mero tubo branco. Logo após um exuberante prédio barroco, aparece uma fachada lisa, dura, sem cores. E por aí vai.

Por um lado, sim, vivemos seguidas crises estéticas que vão desde o pragmatismo ao comodismo. E, sim, há doses generosas de mau gosto e desastre urbanístico. Basta ver que em qualquer cidade do interior, por costume, a parte bonita da cidade é sempre a parte histórica. E que nas grandes cidades, os edifícios estão mais preocupados em arranhar o céu do que contribuir para algo esteticamente válido como arquitetura. E o centro histórico vira quase sempre a salvação… Como já escrevi certa vez, com todos os problemas passados que a igreja católica tem, a referência primeira de uma cidade é geralmente a catedral, a igreja matriz, e sua praça histórica. E a arquitetura colonial, com todos os problemas coloniais.

No entanto, se me perguntassem qual a igreja brasileira eu recomendaria a um amante da arquitetura, dentre todas que conheço, eu diria: a Igreja da Ascensão do Senhor, projeto de João Filgueiras Lima, nosso Lelé. Inclusive, um grande amigo do Rio estava vindo com sua esposa para Salvador e me pediu um roteiro de dois dias e meio, e essa foi uma das minhas recomendações mais enfáticas.

A primeira capital do Brasil tem prédios históricos belíssimos. Hoje, passava pela Avenida Sete, Rua Chile e arredores, e sentia um misto de alegria com os edifícios recém restaurados, e tristeza com todo o desperdício de outros tantos abandonados. Não só abandonados. Além de uma reforma geral dos prédios e do projeto urbanístico, uma decisão simples poderia mudar tudo: exigir a retirada daquelas placas horríveis de prédios históricos, obrigando os proprietários dos imóveis a cuidar das fachadas, deixando apenas pequenas placas indicando os endereços comerciais. A avenida Sete, mesmo, tem diversos prédios lindos, e com tudo reformado e as fachadas históricas expostas, seria uma avenida de apelo visual das mais interessantes. E, óbvio, fiação subterrânea e calçadas dignas. Lixeiras e local para descartar o lixo no final do dia (não no chão, nalgum poste qualquer). E iluminação boa. O pacote básico que parece que prefeitura nenhuma nos dará como qualidade de vida à cidade.

Eu poderia listar aqui dezenas de lugares históricos degradados que deveriam ser cartões postais, muito bem ocupados por gente que cuidasse e potencializasse esses lugares. Mas eu queria falar do extremo oposto disso, voltando à igreja de Lelé.

Como conjunto arquitetônico moderno, depois de uma fase alvissareira com obras de Diógenes Rebouças e o Teatro Castro Alves, por exemplo, o Centro Administrativo da Bahia talvez seja o último grande gesto moderno de Salvador. Além da igreja, outros exemplos como o Centro de Exposições, a Assembleia Legislativa e seu mural de Carybé (há também o belo painel externo de Juarez Paraíso) são exceções que deveriam ser a regra.

Mário Kertész, em seu segundo mandato como prefeito (1986-1988), voltou a chamar Lelé, e ainda trouxe Lina Bo Bardi, que por aqui já tinha passado durante o período Edgar Santos na UFBA, tentando trazer nova marca arquitetônica para a capital baiana. No entanto, ficou tudo abandonado e com eternas promessas posteriores de restauração, que acabam por não inserir suas intervenções num significativo roteiro da cidade.

Excetuando, talvez, o prédio Casa do Comércio, na Avenida Tancredo Neves, inaugurado em 1988, o que de marcante podemos mostrar ao mundo como exemplos da Salvador moderna, que aponta para o futuro? O CAB, distante e mal aproveitado? Os projetos abandonados de Lelé e Lina pelo Centro Histórico? Resta o quê?

Eu poderia citar uma cidade como Bilbao, que só entrou de fato na rota turística mundial depois da criação do Museu Guggenheim, projeto de Frank Gehry, mas prefiro aqui fazer referência a Santiago de Compostela.

A cidade galega, belíssima, destino dos famosos caminhos místicos, tem uma das catedrais mais bonitas do mundo. Um centro histórico referência, além de outras igrejas, mosteiros, e um mercado antigo ainda em funcionamento com variedades de produtos frescos e artesanais.

Mas é também marcada por uma arquitetura contemporânea, com destaque para duas obras do renomado Álvaro Siza Vieira: o Centro Galego de Arte Contemporânea e a Faculdade de Ciências da Comunicação; além da arrojada Cidade da Cultura da Galiza, do arquiteto Peter Eisenman.

O Centro Galego de Arte Contemporânea, inclusive, é exemplar no que se refere ao diálogo entre o antigo e o novo. Ele surge em meio à bela arquitetura que remonta ao período medieval, estando ao mesmo tempo integrado em sua volumetria e cores, e, por outro lado, se destacando como algo moderno, num belo contraste; respeitoso, mas audacioso, também.

E Salvador?

Toda hora eu vejo inauguração de prédio público novo. Tivemos a rodoviária custando 250 milhões. A prefeitura anunciou a construção de uma Arena Multiuso no valor de 163 milhões, por enquanto. Aí, vemos uma estação de metrô nova aqui, uma praça importante restaurada ou reformada acolá e…

Com gastos milionários, estratosféricos, não há desculpas para não haver a abertura de editais públicos, ou mesmo o convite direto a grandes arquitetos e escritórios que, pelo seus nomes, poderiam entrar na categoria de inexigibilidade de licitação. Quando recentemente o Governo da Bahia fez isso, por exemplo, durante a gestão Paulo Souto (2003-2007), inaugurando o Museu Rodin, o projeto chegou a ser premiado com o 1º lugar na categoria Obra Construída na 7ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, realizada em 2007.

Tempos atrás, conversava com um político sobre a reforma da Praça Alexandre Fernandes, no Garcia, bairro sem parquinhos para crianças. Sugeri fazer uma praça criativamente projetada com brinquedos sonoros, em homenagem a Walter Smetak, que havia morado no prédio ao fundo da praça. Pela Europa, vemos cada vez mais parques infantis criativos, evocando mitologias, personagens de escritores, tirolesas, e claramente sem custos abusivos.

No entanto, seguimos uma padronização que iguala praças e calçadões que poderiam estar em qualquer cidade ou bairro da Bahia. A falta de inventividade, criatividade e ousadia das gestões públicas não só não fazem Salvador mirar para o futuro, dialogando com visões mais contemporâneas, como gastam milhões e mais milhões sem que um projeto sequer de cidade seja pensado e traga uma visão diferenciada sobre nosso tecido urbano. Largamos mão de monumentos e esculturas, também, sempre marcantes em cidades ao redor do mundo. E a iniciativa privada só quer saber de construir espigão com aquele padrão de beleza mediano vendido na planta, sem qualquer ambição além da financeira.

Não é que tenhamos aberto mão da beleza. Como a igreja de Lelé, há pelo mundo afora obras das mais sofisticadas, ousadas, conceituais, que vêm marcando o urbanismo das grandes cidades, e contribuindo visualmente, culturalmente e turisticamente para o desenvolvimento das cidades e seu bem estar. O problema não está no modernismo, no Brutalismo, na Bauhaus, na monocromia do concreto, nas formas extravagantes ou conceitos mais minimalistas, ou geométricos.

O problema é que Arte, em seu conceito mais amplo, tem sido posta de escanteio em prol de um pragmatismo e uma mediocridade que a oprimem. E é tudo uma questão de poder. Quando a política, a religião, o grande capital são guiados por gente desinteressada em Arte, tudo vira reflexo prático dessa inapetência.

E aí, tome construção envidraçada, prédios públicos e moradias com cara de clínica, obras monumentais como arremedo de grandes projetos, e nossa arquitetura e nosso urbanismo acabam por seguir a desgraça que se abateu sobre todas as artes:

Não há políticas, projetos, ambições e cuidados. Faz-se tudo pensando em tudo, menos na estética. E isso contamina e desgraça a vida pública, acreditem.

E aí tanto faz ser barroco ou ser barraco.