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Kátia Najara
Publicado em 17 de abril de 2026 às 22:11
Uma amiga foi me visitar na cozinha de produção que abri recentemente, e ao percorrermos a casa, ela disse o quanto estava feliz por ver o meu sonho realizado. >
Eu entendi, agradeci, mas aquilo não reverberou em mim, ao contrário, aquela percepção estava redondamente enganada, e eu, sagitariana sincerona que sou, senti urgente necessidade de pontuar isso.>
- Amiga, obrigada, mas isso aqui nunca foi sonho; é só mais um modelo de trabalho que crio para mim, um lugar para exercer a minha profissão dignamente e com autonomia.>
Ela me olhou com um certo desapontamento algo romântico, algo cristão. Eu sei, porque conheço esse olhar; é o olhar que pousam as ovelhas pastoreadas sobre a desgarrada. O olhar de loucos, circulando em bando num mesmo sentido, sobre aquele que, num átimo de razão, resolve circular no sentido contrário, como Brad Davis em O Expresso da Meia Noite - umas das cenas mais marcantes do cinema para mim, ainda em tenra idade.>
Mas voltando ao olhar da minha amiga, ele se deteve em mim, como quem espera a evolução do pensamento. Ela queria que eu explicasse então qual era o meu sonho, senão o projeto de uma pequena empresa aberta, que por si só não garante absolutamente nada. Comecei a falar, percebendo que o olhar de desapontamento da minha amiga começava a ganhar contornos epifânicos.>
Eu dizia que, se é que eu tenho um sonho, ele viria depois do trabalho. Perguntei-lhe quem, em sã consciência, elegeria como sonho de vida trabalhar todos os dias c'a barriga no fogão, sem folga, sem respiro, sem saúde, sem tempo de vida para mais nada.>
Ela não soube me responder. Estava claramente confusa, tonta talvez, com a epifania que sacudira os alicerces de sua própria realidade de microempreendedora de portinha aberta também.>
Eu queria trilhar a vereda profunda das marcas de dominação histórica, que fritou os nossos miolos e turvou a nossa visão, a ponto de transformar trabalho insano em sonho. Uma vereda minada, porque foi a Igreja que fez esse trabalho sujo, e sendo a minha amiga evangélica, preferi respeitar os limites estabelecidos entre nós, e ocultar o nome do réu, já que alguma luz certamente já haveria de ter sido acesa.>
Isso não quer dizer que eu não dedique toneladas de amor ao que faço, mas colocar a minha empresa, enquanto formato de trabalho, nesse patamar de "sonho" implica num lugar central e determinante demais na minha vida. Imagino que isso faça total sentido para médicos sem fronteiras, ativistas (que conseguem sobreviver de suas causas), e outras pessoas que, de fato, amem legitimamente o seu trabalho, acima de qualquer coisa - de preferência, subtraída a fé cristã. Mas para mim o trabalho não é fim, é meio. O meu é dry, sem romantização católica, por favor. Até para melhor amortecer uma queda eventual.>
Esse lugar e significado do trabalho, obviamente, tem peso e medida diferente na vida de cada um, mas penso que é importante enxergar e separar o que a gente não escolheu - mas se vê priorizando e reproduzindo automaticamente - do que a gente ainda pode escolher, enquanto há tempo, se é que há.>