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O menino da panela na cabeça e o autógrafo do 'primo'

Ziraldo batia na tecla de que “estudar é importante, mas ler é mais importante que estudar”

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 05:00

Quem me conhece sabe que minha admiração por Ziraldo, que vai muito além da admiração profissional. Sou aquele fã que guarda gibis antigos na prateleira, tem livros espalhadas e que, sem pudor algum, já colocou uma panela de verdade na cabeça para ir a uma dezena de festas a fantasia. Por isso, entrar no Museu de Arte da Bahia nestes dias finais da exposição Mundo Zira foi como levar um safanão afetuoso do tempo. Salvador se despede da mostra, muito em breve, mas saí de lá com a certeza de que o menino maluquinho que existe em nós se recusa a crescer.

Essa viagem nostálgica me empurrou para 2013 por aí. Eu estava no início da carreira aqui em Salvador na querida Rádio Excelsior da Bahia, tateando o gravador com a ansiedade de quem começa. Ziraldo veio a Salvador para uma ação no Shopping Barra, e lá fui eu com meu colega Léo Barsan, que cobria pela BandNews FM. No vaivém da praça principal, nos deparamos com aquele homem caricato, de uma generosidade que preenchia o espaço. Na hora de autografar meu exemplar de "O Menino Maluquinho”, que eu havia comprado na última Bienal do Livro do antigo Centro de Convenções da Bahia, ele olhou para o meu crachá, sorriu largo e escreveu uma dedicatória carinhosa para o "primo Victor”, piada rápida que compartilhávamos no sobrenome: Pinto. Guardo esse livro como um troféu.

Mas o que fazia de Ziraldo esse gigante não era só o carisma; era a sua cabeça lá na frente. Ele tinha implicância quase física com o sistema de ensino tradicional, focado em decoreba e avaliações que só servem para angustiar. Dizia, com aquela franqueza cortante, que o Brasil não tinha só 10% de analfabetos, mas sim 90% — apontando o dedo para o nosso imenso contingente de analfabetos funcionais. Gente que junta as letras, mas não consegue interpretar uma notícia de jornal.

Ziraldo batia na tecla de que "estudar é importante, mas ler é mais importante que estudar". E eu assino embaixo. Minha paixão pela escrita nasceu desse hábito de ler e decifrar o mundo, muito antes de qualquer cartilha escolar. Em "Uma Professora Muito Maluquinha", ele desenhou o avesso da escola tradicional: uma sala onde o erro não é punido, onde as férias são para curtir e onde o dever de casa bem que poderia ser escrever um diário para aprender a pensar sobre si mesmo.

A exposição no MAB vai embora, e Ziraldo também já fez sua passagem serena, feito o avô Hortêncio que dormiu para sempre no maravilhoso filme de 1995 que assistia na Sessão da Tarde com uma alegria imensa. Mas a sua pedagogia do afeto e do riso fica como um desafio para nós. Afinal, como cantava Moraes Moreira, em O Grande Final, na abertura da série da Turma do Pererê, "viver dá pé", e a maluquice do eterno menino da panela continua sendo, de longe, a nossa melhor lucidez. Será? A conferir.

*Victor Pinto é jornalista e advogado. Apresentador da Band Bahia e da Rádio Excelsior. É um pouco de menino maluquinho também.