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Paula Theotonio
Publicado em 5 de setembro de 2026 às 13:00
Provavelmente foi com a Cabernet Sauvignon que muita gente fez sua iniciação nos vinhos finos. Oriunda da região de Bordeaux, na França, é a casta da espécie Vitis vinifera mais plantada do mundo, com aproximadamente 340 mil hectares cultivados. Quase todas as regiões produtoras do mundo fora da Europa apostaram na variedade para mostrar serviço, que com sua pele grossa e muita concentração de cor, sabor e taninos, gera normalmente vinhos ricos, longevos e estruturados. >
E no Brasil não foi diferente. É a cepa com maior quantidade de vinhedos no Rio Grande do Sul, segundo a Embrapa Uva e Vinho, com concentração na Serra Gaúcha e na Campanha Gaúcha. No Vale do São Francisco não está no topo, mas foi uma das primeiras: seus vinhedos mais antigos datam de 1983, muito antes das variedades ibéricas e mediterrâneas que hoje fazem sucesso na região. Também está espalhada pelas demais regiões, sendo manejada nas três vitiviniculturas desenvolvidas no país: a tradicional, presente principalmente no Sul; a de inverno, concentrada no Sudeste, Chapada Diamantina e Centro-oeste, e a Tropical, no Sertão nordestino.>
Enquanto pelo mundo os diferentes estilos de Cabernet Sauvignon estão bem mapeados, no Brasil ainda não é possível traçar com precisão o perfil exato da casta por zona de produção. “Como não temos Cabernet Sauvignon há tanto tempo em todas regiões do Brasil, não temos tanta clareza sobre diferenças de safra, altitude, manejo e época de colheita em cada região”, destaca o educador, consultor e sommelier Júlio César Kunz, vice-presidente nacional da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS). Mas ele acredita que já existem tendências de expressão regional, que podem ajudar o consumidor a saber o que esperar da uva. >
A Cabernet Sauvignon no Nordeste do Brasil>
No Vale do São Francisco, por exemplo, é onde ele acredita que a uva tem a expressão mais distinta. “Estamos falando de uma viticultura tropical semiárida com um bom tempo de cultivo. A Cabernet tende a mostrar fruta mais madura, negra, às vezes em compota ou fruta seca, corpo relativamente cheio e sensação mais quente, com acidez geralmente menos incisiva. Taninos podem ser bastante redondos”, exemplifica o especialista.>
Na Chapada Diamantina, a altitude é quem define o estilo da casta. "Em torno de 1.000 a 1.200 metros, com boa amplitude térmica e colheitas em período mais seco, aparecem cabernets com mais frescor, frutas negras, notas de especiarias, mentoladas e eventualmente de pimentão vermelho. Mais acidez, taninos um pouco mais firmes. É uma região ainda jovem, e aqui vou confessar que estou extrapolando um pouco o que degustei”, ressalta Julio. >
A Cabernet Sauvignon no Sudeste do Brasil>
Kunz destaca que na Chapada Diamantina e no Sudeste/Centro-oeste, a viticultura é a mesma. Porém as condições de temperatura diurnas e solos são distintas, trazendo em regiões como Minas Gerais e São Paulo um Cabernet Sauvignon com boa concentração, fruta negra madura, bastante cor, acidez preservada e taninos maduros mas com uma textura relativamente adstringente. >
“Álcool com preservação de acidez, o que me parece a chave de equilíbrio”, aponta o educador, mas não sem ressalvas. “Penso que hoje a Syrah é muito mais claramente emblemática dos vinhos de inverno, ainda não temos tantos cabernets para ter uma conclusão mais definitiva”, complementa.>
A Cabernet Sauvignon no Sul do Brasil>
A Cabernet Sauvignon é uma casta de maturação tardia, precisando de mais tempo no vinhedo e calor suficiente para amadurecer completamente. Na região dos Vinhos de Altitude, em Santa Catarina, Júlio César Kunz explica que o ciclo da variedade fica muito longo e a maturação demasiadamente lenta, “gerando vinhos de acidez bem alta e taninos mais duros. Os aromas herbáceos ficam bastante marcados”, delineia.>
Ao Norte do Rio Grande do Sul, na também zona produtora em altitude de Campos de Cima da Serra, o profissional alega ter degustado exemplares com ótimo equilíbrio. “Vemos uma expressão muito interessante de concentração e de complexidade, com excelente acidez”, aponta.>
Nos anos mais quentes e secos da Serra Gaúcha, onde as altitudes variam 400 e 900 metros acima do nível do mar, os melhores exemplares de Cabernet Sauvignon exibem uma combinação de frutas vermelhas ou negras com notas herbáceas. “A acidez costuma ser boa e os vinhos tendem mais à elegância e estrutura com álcool mais moderado. Nas melhores exposições, com solos mais pedregosos, traz fruta mais madura e taninos muito bons. Normalmente compõe um bom corte com Merlot e Cabernet Franc, que tem expressões mais regulares ao longo das safras”, descreve Julio. >
Já no extremo sul do país, a Campanha Gaúcha traz um perfil bastante distinto. “Há mais insolação, clima mais seco e verões mais quentes que na Serra Gaúcha. Tende a ter fruta mais madura, especiarias, eventualmente ervas secas, com mais corpo, taninos maduros e boa concentração”, ilustra. Porém como a Indicação Geográfica tem uma grande área de extensão, com zonas mais próximas ao Oceano Atlântico que outras, Kunz ressalta que é preciso considerar diferenças de solo e microclima, que podem ser mais desafiadoras para maturação fenólica e aromática.>
Rótulos de Cabernet Sauvignon do Brasil para provar (indicações do Júlio César Kunz):>
Pernambuco - Garziera Reserva Cabernet Sauvignon — R$ 84,90 no site oficial da Verano Brasil>
Bahia - UVVA Microlote Cabernet Sauvignon — R$ 395 no site oficial da UVVA>
Brasília - Horus Entre Eixos Cabernet Sauvignon — R$ 269 no site oficial da Vinícola Brasília>
Santa Catarina - Villaggio Bassetti Primiero Cabernet Sauvignon — R$ 279 no site oficial da Villaggio Basseti>
Campos de Cima da Serra - RAR Collezione Cabernet Sauvignon — R$ 98 no site da Boccati>
Serra Gaúcha - Pizzato Fausto Cabernet Sauvignon — R$ 88,27 no site oficial da Pizzato>
Campanha Gaúcha - Guatambu Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon — R$ 139,80 na loja oficial da Guatambu>