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“A Bahia ainda não tem uma agenda de desenvolvimento”

Presidente da Associação Comercial da Bahia, Isabela Suarez, faz balanço sobre trabalho da entidade e desafios do setor produtivo baiano

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 15 de julho de 2026 às 05:00

Isabela Suarez, presidente da Associação Comercial da Bahia Crédito: Marina Silva/Arquivo CORREIO

Há 215 anos, a Associação Comercial da Bahia acompanha praticamente todos os ciclos de desenvolvimento do estado. Da economia baseada no comércio marítimo às discussões sobre inovação, infraestrutura e competitividade, a entidade atravessou impérios, repúblicas e sucessivas transformações econômicas mantendo a proposta de representar o setor produtivo e influenciar os rumos da Bahia. Em um momento em que temas como ambiente de negócios, segurança jurídica e atração de investimentos voltam ao centro do debate, a ACB busca reafirmar seu papel como articuladora entre empresários, poder público e sociedade. Nesta entrevista, a presidente da ACB, Isabela Suarez, faz um balanço da trajetória da instituição, avalia os principais desafios para quem empreende no estado e defende uma agenda de longo prazo para ampliar a competitividade baiana.

Quem é

Presidente da Associação Comercial da Bahia, Isabela Suarez é advogada e empresária do setor imobiliário, com forte atuação nas áreas de Sustentabilidade e Responsabilidade Socioambiental. Atuou como vice-presidente de Sustentabilidade Empresarial e coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade da Associação Comercial da Bahia, além de presidir a Fundação Baía Viva, organização voltada à preservação e valorização da Baía de Todos-os-Santos. Sua trajetória se destaca pela articulação entre setor produtivo, meio ambiente e desenvolvimento.

Qual é o principal legado da ACB para o desenvolvimento econômico da Bahia e qual deve ser sua missão nas próximas décadas?

A Associação Comercial da Bahia nasceu da compreensão de que ninguém constrói desenvolvimento sozinho. Esse talvez seja o seu maior legado. Ao longo de 215 anos, a ACB ajudou a conectar empresários, governos e a sociedade em torno de grandes transformações econômicas. Mais do que representar o setor produtivo, a entidade sempre foi um espaço de diálogo e construção de consensos. Nas próximas décadas, essa missão será ainda mais importante. Precisamos fortalecer a capacidade de articulação entre diferentes setores para construir uma Bahia mais competitiva e inovadora.

Em um ambiente marcado por elevada carga tributária, burocracia e insegurança jurídica, quais são hoje os maiores obstáculos para quem deseja empreender na Bahia?

Empreender no Brasil sempre exigiu coragem, mas hoje também exige muita capacidade de adaptação. A alta carga tributária, a burocracia e a insegurança jurídica dificultam o planejamento e aumentam os custos, especialmente para os micro e pequenos empresários. Quando as regras mudam constantemente e o ambiente é pouco previsível, quem quer investir acaba adiando decisões. Precisamos simplificar processos, dar mais segurança aos empreendedores e criar condições para que as empresas possam crescer, inovar e gerar empregos.

Paulo Cavalcanti (de pé), presidente do Conselho Superior da ACB por Marina Silva/CORREIO

A ACB costuma reunir empresários, governos e diferentes setores da sociedade em torno de temas estratégicos. Como a senhora avalia a capacidade de diálogo entre esses atores atualmente?

Eu acredito muito no diálogo. Nenhum dos grandes desafios da Bahia será resolvido por um único setor. O papel da ACB é justamente criar um ambiente de convergência, onde diferentes visões possam se encontrar em torno de objetivos comuns. É isso que temos buscado fazer ao reunir empresários, gestores públicos, universidades e representantes da sociedade civil para discutir infraestrutura, mobilidade, ambiente de negócios, desenvolvimento regional e competitividade.

A Bahia tem conseguido construir consensos em torno de uma agenda de desenvolvimento?

Temos alguns avanços, mas a Bahia ainda não conseguiu construir uma agenda de desenvolvimento que se mantenha ao longo do tempo, independentemente de governos e interesses específicos. Infraestrutura, educação, inovação, qualificação profissional, segurança jurídica e competitividade precisam ser prioridades permanentes, e não depender das prioridades de cada mandato. Enquanto isso não acontecer, continuaremos avançando menos do que a Bahia precisa e pode avançar.

A revitalização do Centro Antigo de Salvador é uma pauta histórica da Associação Comercial. O que avançou nos últimos anos e o que ainda impede que a região volte a exercer plenamente sua vocação econômica?

O Centro Antigo voltou a ocupar um espaço importante na agenda pública, e isso é um avanço. Mas revitalizar uma região histórica vai muito além da recuperação dos imóveis. Precisamos criar condições para que as pessoas voltem a morar, trabalhar, empreender e circular diariamente pelo Centro. Isso passa por mobilidade, segurança, ocupação dos imóveis, fortalecimento do comércio e integração com outras áreas da cidade. Foi justamente com esse olhar de longo prazo que a ACB criou, recentemente, a Câmara de Urbanismo, reunindo especialistas para contribuir com propostas sobre mobilidade, planejamento urbano e requalificação de áreas estratégicas de Salvador. Acreditamos que o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida caminham juntos. O Centro Antigo precisa voltar a ser um espaço vivo, conectado a projetos estruturantes, como o VLT integrado à Baía de Todos-os-Santos, aproveitando todo o potencial marítimo da nossa capital. Quando conseguimos articular esses diferentes elementos, criamos um ambiente mais atrativo para moradores, empreendedores, investidores e visitantes.

A Economia do Mar aparece cada vez mais como uma oportunidade para a Bahia. Quais segmentos oferecem maior potencial e o que falta para transformar a vocação em desenvolvimento?

A Bahia tem um enorme potencial na Economia do Mar, especialmente no turismo náutico, na logística, nas atividades portuárias, na pesca, na indústria náutica, na gastronomia, na pesquisa e na inovação. O problema é que ainda não conseguimos transformar essa vocação em uma estratégia integrada de desenvolvimento. A infraestrutura náutica da Baía de Todos-os-Santos é deficitária, e ainda falta integração entre os municípios da região, os modais de transporte e as diferentes atividades econômicas. Precisamos de planejamento, investimentos, segurança jurídica, regras claras e capacidade de execução. Também é importante que posições ideológicas mais radicais não comprometam o diálogo com o setor produtivo nem criem obstáculos para quem deseja investir. Quando o ambiente se torna hostil ou imprevisível, investimentos são adiados ou direcionados para outros estados. A Bahia precisa estabelecer uma relação madura com quem empreende, preservando o interesse público e criando condições para que bons projetos avancem.

Quais obras e projetos de infraestrutura a senhora considera prioritários para elevar a competitividade do estado nos próximos anos?

A infraestrutura é um dos principais gargalos da competitividade da Bahia. Precisamos melhorar as rodovias, fortalecer os portos, ampliar a oferta de energia nas regiões produtivas e, principalmente, recuperar a nossa malha ferroviária. A reativação e a modernização da Ferrovia Centro-Atlântica são fundamentais. Hoje, os portos da Baía de Todos-os-Santos perdem competitividade porque não contam com uma conexão ferroviária eficiente. É preciso enfrentar gargalos históricos, como os trechos de São Félix e Cachoeira, melhorar a ligação entre Camaçari e o complexo portuário e garantir que a ferrovia volte a cumprir seu papel no escoamento da produção. Essa conexão permitirá reduzir os custos de transporte, aliviar as rodovias e aproximar as regiões produtoras dos portos baianos. Não basta a ferrovia atravessar o estado; ela precisa estar em funcionamento e servir efetivamente ao desenvolvimento da Bahia. Esse problema faz parte de um conjunto maior de gargalos de infraestrutura. Durante minha visita à Bahia Farm Show e ao Vale do Rio São Francisco, ouvi de produtores e empresários que tanto as dificuldades logísticas quanto as limitações no fornecimento de energia ainda impedem a expansão dos negócios. São questões que precisam ser enfrentadas de forma integrada e com prioridade, para que a Bahia consiga transformar seu potencial em mais investimento, emprego e desenvolvimento.

Como a ACB enxerga a integração entre o agro, a indústria, o comércio e os serviços para ampliar o desenvolvimento do estado?

A Bahia é um estado de vocações econômicas complementares, e essa diversidade é uma das nossas maiores fortalezas. O agronegócio, a indústria, o comércio, os serviços e a logística fazem parte de uma mesma cadeia produtiva. Questões como infraestrutura, energia, logística, inovação e competitividade interessam a toda a Bahia. O papel da ACB é justamente construir essas pontes, promovendo o diálogo entre empresários, entidades e poder público para transformar demandas específicas em uma agenda comum de desenvolvimento. É dessa convergência que surgem as melhores soluções.

Nos últimos anos, muitas decisões de investimento passaram a considerar fatores como segurança jurídica, previsibilidade regulatória e ambiente de negócios. Como a Bahia se posiciona nessa disputa?

A competição por investimentos hoje acontece entre estados que conseguem oferecer um ambiente de negócios eficiente, previsível e menos burocrático. A Bahia tem vocações econômicas extraordinárias, mas precisa transformar esse potencial em competitividade. Um bom exemplo disso é a atualização dos limites do Simples Nacional, uma pauta que defendemos porque impacta diretamente o ambiente de negócios. A tabela está congelada há dez anos e já não acompanha a realidade das empresas. Corrigir essa distorção significa dar condições para que micro e pequenas empresas cresçam, invistam mais, gerem empregos e continuem movimentando a economia.

Numa época de redes sociais e comunicação direta, qual o diferencial de uma entidade empresarial com mais de dois séculos de existência?

A credibilidade é, sem dúvida, o nosso maior patrimônio. Ela foi construída ao longo de 215 anos de diálogo e compromisso com o desenvolvimento. As redes sociais aproximam pessoas, mas nenhuma plataforma substitui uma instituição capaz de reunir diferentes setores, construir consensos e representar interesses coletivos. Mais importante do que preservar uma história é fazer com que ela continue produzindo resultados para a Bahia.

Se a senhora pudesse elencar três prioridades para que a Bahia avance em competitividade e geração de emprego nos próximos dez anos, quais seriam e por quê?

A primeira, sem dúvida, é infraestrutura e logística. Precisamos melhorar rodovias, portos e ferrovias, ampliar a oferta de energia e garantir melhores condições para o escoamento da produção. Sem enfrentar esses gargalos, a Bahia continuará perdendo competitividade e oportunidades de investimento. A segunda é melhorar o ambiente de negócios, especialmente o licenciamento ambiental. O licenciamento precisa ser tratado como um vetor de expansão sustentável, com regras claras, análise técnica e prazos razoáveis. Para isso, é necessário fortalecer a capacidade do Estado de licenciar e capacitar os municípios para que possam assumir, com responsabilidade e estrutura técnica, os processos que são de sua competência. A terceira é investir em educação e qualificação profissional, preparando as pessoas para as oportunidades que surgem na indústria, no agronegócio, na tecnologia, na logística e na Economia do Mar. Não adianta atrair investimentos se não tivermos profissionais preparados para ocupar os empregos que serão gerados. ssas três prioridades precisam caminhar juntas. Infraestrutura, segurança para investir e mão de obra qualificada são condições básicas para que a Bahia cresça, gere empregos e transforme seu potencial em desenvolvimento.