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Maiara Baloni
Publicado em 18 de agosto de 2026 às 05:00
A proposta contraria quase todas as regras do mercado de alimentação moderno, não há garçons, o cardápio não oferece opções variadas e a estrutura original abriu as portas sem mesas ou cadeiras. Com apenas uma receita fixa de mussarela servida em fatias rápidas no balcão, uma lanchonete tradicional construiu uma operação que vende cerca de mil fatias por dia, mantém preço popular a R$ 5 e alcança faturamento mensal de R$ 280 mil apostando na repetição exata do mesmo produto há mais de seis décadas. >
Por dentro do balcão e da rotina na tradicional Dom Bosco
A trajetória do negócio se confunde com a própria idade de Brasília. Inaugurada em 1960, no mesmo ano da capital federal, a Pizzaria Dom Bosco tem mais de seis décadas de funcionamento e começou na quadra CLS 107 Sul. O fundador é o mineiro Enildo Veríssimo Gomes, natural de Bambuí, que aprendeu o ofício do preparo de massas na adolescência enquanto trabalhava em uma lanchonete de Araxá (MG) e migrou para o Centro-Oeste durante as obras da nova cidade. >
No início, o espaço vendia apenas salgados variados para atender os trabalhadores pioneiros e primeiros moradores. A inclusão da pizza veio após a sugestão de um cliente regular. As primeiras tentativas foram com presunto e calabresa, mas os ingredientes ressecavam com facilidade na estufa de vidro. A versão de mussarela pura acabou adotada em definitivo por manter a maciez e o sabor mesmo algum tempo após sair do forno.>
Com a consolidação do ponto, um detalhe visual na cozinha ajudou a criar a identidade da casa. O que muitos clientes chamam de "pizza invertida" é, na verdade, a ordem técnica de montagem das camadas antes de ir ao forno. Em vez da sequência tradicional com o molho por baixo, a massa recebe primeiro a camada de queijo mussarela e, por cima dela, o molho de tomate temperado com orégano. >
A escolha foi feita para resolver uma questão visual, o queijo assado por cima tendia a ficar com aspecto esbranquiçado, enquanto o molho espalhado no topo deixava a fatia com tom vermelho vivo e brilhante. Fora da cozinha, o termo ganhou outro sentido entre os clientes, no balcão, o hábito mais comum é juntar duas fatias com o recheio virado para dentro, criando um formato de sanduíche que impede o queijo quente de escorrer e dispensa pratos e talheres.>
Mesmo após décadas de funcionamento, a rotina de produção preserva os mesmos métodos dos primeiros anos. Seu Enildo mantém o hábito de chegar cedo para ajudar no preparo das massas. A fidelidade aos fornecedores e aos insumos originais é uma regra inegociável, segundo o próprio fundador, os ingredientes nunca mudam porque a clientela antiga perceberia qualquer mínima alteração no sabor. Acompanhada quase sempre por copos de mate gelado batido ou refrigerante, a fatia servida no papel virou parada diária. >
A movimentação da loja se apoia também no turismo de Brasília. A região da 107/108 Sul faz parte do roteiro turístico tradicional de quem visita a capital federal, já que é ali que fica a Igreja Nossa Senhora de Fátima, a famosa Igrejinha desenhada por Oscar Niemeyer. O fluxo contínuo gerado pelo monumento atrai fiéis e turistas que acabam estendendo a visita até o balcão da lanchonete, mantendo um costume repassado entre diferentes gerações.>
Com a gestão, a operação expandiu a presença para além do endereço pioneiro. Hoje, a marca reúne oito unidades espalhadas pelo Distrito Federal, em bairros como Asa Norte, Lago Norte, Sudoeste, Guará, Águas Claras e no Aeroporto Internacional de Brasília.>