Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Mariana Rios
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 18:52
Durante meses, Leopold Aschenbrenner foi tratado como um dos nomes mais brilhantes da inteligência artificial. Ex-pesquisador da OpenAI, autor do ensaio Situational Awareness e defensor de que a inteligência artificial geral (AGI) pode chegar antes do fim da década, o alemão de apenas 24 anos transformou sua fama no Vale do Silício em um dos fundos de investimento de alto risco mais comentados do mercado. Bastaram poucas semanas, porém, para que sua ascensão desse lugar a uma derrocada.>
Conhecidos no mercado como hedge funds, esses fundos têm liberdade para fazer investimentos mais arriscados, inclusive usando dinheiro emprestado para ampliar o valor aplicado. Essa estratégia pode multiplicar os lucros, mas também faz com que as perdas cresçam muito mais rápido quando o mercado se volta contra o investidor.>
AGI: a inteligência artificial que promete pensar como humanos e pode mudar o futuro da tecnologia
O fundo Situational Awareness, criado por Aschenbrenner em 2024 para investir exclusivamente no ecossistema de inteligência artificial, perdeu cerca de 67% de seu valor apenas em julho. A combinação de forte queda das ações ligadas à IA e do uso intenso de alavancagem obrigou o gestor a desmontar praticamente toda a carteira de ativos negociados em bolsa. A crise foi tão severa que o próprio Aschenbrenner admitiu, em carta aos investidores, que o fundo chegou perigosamente perto de sofrer perdas permanentes de capital.>
Embora o fundo ainda acumule retorno positivo em 2026 graças aos ganhos extraordinários registrados no primeiro semestre, o episódio virou símbolo dos riscos da corrida pela inteligência artificial. O patrimônio, que havia chegado à casa de dezenas de bilhões de dólares após uma valorização superior a 1.500% desde a criação do fundo, encolheu rapidamente quando as empresas de semicondutores, infraestrutura e computação para IA passaram por uma forte correção nas bolsas globais.>
A estratégia de Aschenbrenner era altamente concentrada em empresas consideradas pilares da revolução da IA, incluindo fabricantes de chips, infraestrutura para data centers e startups do setor. Enquanto os preços subiam, a alavancagem multiplicava os ganhos. Quando o mercado virou, o mesmo mecanismo acelerou as perdas, obrigando o fundo a liquidar posições em ritmo acelerado. >
No momento de maior pressão, quem apareceu para comprar parte dos ativos foi a Citadel, comandada pelo bilionário Kenneth Griffin. Considerado um dos maiores gestores de fundos do mundo, Griffin aproveitou a liquidação para adquirir posições que estavam sendo vendidas com forte desconto, repetindo uma estratégia que costuma adotar em momentos de estresse dos mercados.>
O episódio também ganhou repercussão porque Aschenbrenner era visto como um dos principais "evangelizadores" da inteligência artificial. Seu ensaio Situational Awareness ajudou a popularizar a tese de que a chegada da inteligência artificial geral poderia ocorrer até 2027, estimulando investidores a apostar fortemente nas empresas que forneceriam infraestrutura para essa transformação.>
Para analistas ouvidos pela imprensa internacional, a queda do fundo não significa necessariamente que a tese da IA esteja errada, mas mostra que boas narrativas não substituem gestão de risco. O colapso reacendeu o debate sobre o excesso de otimismo em torno das empresas ligadas ao setor e sobre os perigos de combinar expectativas elevadas com operações altamente alavancadas.>
A ironia da história ganhou ainda mais força porque Kenneth Griffin havia sido um dos críticos mais duros da febre da inteligência artificial nos mercados. Em diferentes ocasiões, o fundador da Citadel classificou parte da euforia em torno da IA como exagerada e chegou a chamar alguns investimentos do setor de "lixo". >
Com o avanço da tecnologia e os resultados das empresas, porém, acabou reconhecendo que havia subestimado o fenômeno, admitindo inclusive ter ficado "deprimido" por perceber que demorou a enxergar o potencial da revolução tecnológica — uma mudança de visão que torna sua participação na operação envolvendo o fundo de Aschenbrenner ainda mais simbólica.>