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Contas do governo Lula caminham para registrar maior rombo em mais de 20 anos

Estimativa, com base em dados do Banco Central, aponta que déficit nominal — indicador que inclui gastos com juros da dívida pública — deve superar os registrados nos governos Bolsonaro e Dilma Rousseff

  • Foto do(a) author(a) Mariana Rios
  • Mariana Rios

Publicado em 3 de agosto de 2026 às 14:17

Proposta que beneficia agentes de saúde enfrenta resistência no governo por impacto bilionário nas contas públicas
Proposta que beneficia agentes de saúde enfrenta resistência no governo por impacto bilionário nas contas públicas Crédito: Foto: FATIMA MEIRA/Agencia Enquadrar/Agencia O Globo

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode terminar com o maior déficit nominal das contas públicas em mais de duas décadas, segundo cálculos de economistas ouvidos pelo jornal O Globo. O indicador, que considera a diferença entre receitas e despesas do governo incluindo o pagamento de juros da dívida pública, deve alcançar 8,6% do Produto Interno Bruto (PIB) ao fim dos quatro anos de mandato.

De acordo com dados divulgados pelo Banco Central (BC), o déficit nominal acumulado em 12 meses até junho chegou a 9,99% do PIB. O resultado, segundo análise do economista-chefe da Tullett Prebon Brasil, Fernando Montero, supera os níveis registrados durante o governo Jair Bolsonaro e também os do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Lula I (2003–2006): primeiro mandato de Lula teve déficit nominal médio de 3,79% do PIB, impulsionado por crescimento econômico, aumento da arrecadação e redução gradual do endividamento por Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os números também mostram avanço da dívida bruta do setor público. Em maio, ela correspondia a R$ 10,6 trilhões, ou 81,1% do PIB. Em junho, subiu para R$ 10,8 trilhões, equivalente a 81,9% do PIB. A projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI) é de que a dívida encerre o ano em 82,5% do PIB.

Na avaliação de Montero, o principal problema não é o tamanho da dívida, mas o ritmo de crescimento das despesas públicas.

"O problema está mais no fluxo do que no estoque. É querer encaixar um gasto de 110% num PIB de 100%. É querer ter cinco quartos de uma pizza", afirmou ao O Globo.

Segundo o economista, os gastos públicos cresceram 12,3% acima da inflação no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

O diretor-presidente da IFI, Marcus Pestana, também atribui a deterioração fiscal à combinação entre baixo crescimento econômico, juros elevados e sucessivos déficits primários. Pelas projeções da instituição, a dívida pública poderá atingir 100% do PIB em 2032 e chegar a 115% em 2036 caso não haja mudanças na trajetória fiscal.

Já o economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, avalia que um déficit próximo de 10% do PIB é elevado até para os padrões históricos brasileiros. Ele ressalta, porém, que houve antecipação de pagamentos de precatórios neste ano, fator que contribuiu para inflar temporariamente o indicador.

Mesmo assim, Salto projeta que o déficit nominal deve fechar 2026 em torno de 9% do PIB, refletindo principalmente o elevado custo dos juros e a percepção de risco fiscal pelo mercado.

Especialistas defendem ajuste fiscal

Na avaliação dos economistas consultados pela reportagem, a trajetória das contas públicas exigirá medidas de ajuste fiscal nos próximos anos. Montero cita como exemplos iniciativas adotadas por governos anteriores, como o teto de gastos, o ajuste fiscal conduzido por Joaquim Levy e o aumento da arrecadação promovido pelo então ministro da Fazenda Fernando Haddad.

Para Solange Srour, diretora de Macroeconomia Brasil do UBS Global Wealth Management, o país ainda não produz superávits primários suficientes para estabilizar a dívida pública, o que compromete a confiança dos investidores.

Segundo ela, sem reformas que desacelerem o crescimento das despesas obrigatórias, a dívida continuará avançando em ritmo acelerado.

A economista alerta que a persistência desse cenário pode elevar ainda mais as expectativas de inflação, manter os juros em patamares elevados e dificultar o financiamento da dívida pública, aumentando o risco de uma crise fiscal nos próximos anos.

Tags:

Lula Pib Dívida Pública