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Disparada de licenças médicas por compulsão em jogos coloca empresas e trabalhadores em impasse sobre demissão por justa causa

Dados do INSS mostram alta de 2.300% na concessão de auxílio-doença por jogo patológico, saltando de um caso para 62 mensais em três anos. Jovens homens entre 18 e 39 anos lideram os afastamentos do trabalho

  • Foto do(a) author(a) Juliana Rodrigues
  • Juliana Rodrigues

Publicado em 5 de agosto de 2026 às 18:39

O vício em apostas online virou crise de saúde ocupacional no Brasil, com recorde de afastamentos do trabalho e disputas judiciais.
O vício em apostas online virou crise de saúde ocupacional no Brasil, com recorde de afastamentos do trabalho e disputas judiciais. Crédito: Crédito: Ilustração, IA/ Gemini

O vício em apostas online ultrapassou a dívida no orçamento e virou problema de saúde ocupacional no Brasil. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos do trabalho por causa da ludopatia bateram o maior patamar da história. Com o avanço do problema nas firmas, o debate sobre o que é justa causa ou doença já chegou à Justiça do Trabalho.

Veja quais são as 10 bets mais famosas do país por Reprodução

Disparada nos registros do governo

Os números do INSS deixam clara a velocidade da crise. Em junho de 2023, o sistema federal registrava apenas um afastamento no mês pelo código médico de jogo patológico (CID F63.0). Três anos depois, em junho de 2026, a Previdência passou a conceder 62 benefícios mensais pela mesma condição.

Um levantamento feito pelo portal Intercept Brasil com base nos dados federais aponta que, entre meados de 2023 e o início de 2025, o governo liberou 276 auxílios-doença para pessoas incapacitadas de trabalhar por conta do jogo. A alta é de 2.300% frente à média histórica do país.

As bets chegaram às relações de trabalho. O aumento dos benefícios concedidos pelo INSS mostra que a Justiça precisará responder a questões inéditas envolvendo incapacidade laboral, justa causa, discriminação e responsabilidade do empregador

Priscila Arraes Reino

Advogada trabalhista

O raio-x do trabalhador afetado

O levantamento com base em registros do Ministério da Previdência Social revela o perfil de quem precisa parar de trabalhar e mostra o tamanho do estrago na vida produtiva, em que 73% dos segurados do INSS afastados pelo vício são homens, e 80% têm entre 18 e 39 anos. As estatísticas do governo indicam ainda que 7% dos beneficiários sustentam dependentes diretos em casa.

O nó jurídico entre demissão e transtorno mental

A explosão de licenças abriu uma queda de braço nos departamentos de RH e nos tribunais. Por um lado, o artigo 482 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) autoriza a demissão por justa causa de quem pratica jogos de azar com frequência. Por outro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a compulsão como transtorno mental grave.

Demitir o funcionário por justa causa sem passar por perícia virou risco alto para os patrões. A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST) considera discriminatória a demissão de quem tem doenças estigmatizantes, o que permite ao trabalhador pedir a anulação do desligamento e indenização no Judiciário.

Como a Justiça exige que as empresas atuem

Para resguardar as duas partes e evitar anulações na Justiça, a orientação dos tribunais é que a empresa passe o funcionário por avaliação médica com perito antes de aplicar punições. Se a escolha for a justa causa, o empregador precisa provar que aplicou advertências e suspensões graduais, além de guardar a documentação para demonstrar se o caso era má conduta deliberada ou efeito do quadro psicológico.

A existência do diagnóstico não impede automaticamente a aplicação da justa causa, mas também não permite tratar todas as situações apenas como desvio disciplinar. Será necessário avaliar se a conduta decorreu de uma doença capaz de comprometer a autodeterminação do trabalhador

Priscila Arraes Reino

Advogada trabalhista

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