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Carmen Vasconcelos
Publicado em 20 de julho de 2026 às 06:00
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige das empresas o mapeamento e a gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho, entrou oficialmente em vigor em 26 de maio de 2026. A partir de agora, as organizações que não incluírem fatores ligados à saúde mental em seu Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) estarão sujeitas a penalidades. >
A mudança ocorre em um cenário alarmante. Segundo dados do INSS, o Brasil registrou 546 mil afastamentos relacionados à saúde mental em 2025 — uma alta de 15% em relação ao ano anterior e o terceiro crescimento consecutivo. Anteriormente, boatos de que a norma havia sido suspensa geraram ruído no mercado. Contudo, especialistas esclarecem que o período que antecedeu o prazo final serviu apenas como uma janela de adaptação para alinhar critérios técnicos e evitar insegurança jurídica, sem anular a obrigação legal de prevenção.>
"A NR-1 não foi suspensa. O que ocorreu foi a suspensão temporária da aplicação de penalidades relacionadas especificamente à fiscalização dos riscos psicossociais durante um período de adaptação. A obrigação das empresas de identificar, avaliar e gerenciar esses riscos permanece vigente", esclarece Paulo Sobreira, Engenheiro de Segurança do Trabalho e sócio do HubNexxo.>
Cerco fechado >
Agora, com a norma plenamente ativa, o cerco da fiscalização começou. Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude — referência nacional em programas de saúde mental corporativa —, explica como o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) deve agir na prática. >
“Nesses primeiros meses de vigência, o que tende a acontecer é uma fiscalização baseada em gatilhos, principalmente denúncias e acidentes graves. Se um colaborador denunciar assédio, sobrecarga ou condições de trabalho que afetem sua saúde mental, a empresa entra no radar. O mesmo vale para acidentes graves ou afastamentos que chamem atenção. E quando o auditor chega, ele não olha só o documento, mas conversa com os trabalhadores, cruza informações e verifica se o que está no papel corresponde à realidade”, explica.>
Setores exigem atenção redobrada por sua própria natureza de atuação, como telemarketing, educação, bancos, serviços de saúde e segmentos com alta exposição ao público ou à violência urbana. O desafio de medir o "invisível" e o papel da liderançaUm dos grandes obstáculos para as empresas tem sido transformar a subjetividade da saúde mental em dados auditáveis. No entanto, os especialistas defendem que o "invisível" pode e deve ser gerido através de métricas estruturadas.>
Leandro Rubio, CEO da Starbem, aponta que o RH deve cruzar três camadas de dados: a percepção dos colaboradores (via questionários), dados objetivos (absenteísmo, turnover, horas extras) e a escuta qualitativa."O grande erro é tratar saúde mental como algo impossível de medir. Ela é mais subjetiva, sim, mas isso não significa que seja impossível de gerenciar. O segredo é não olhar caso a caso de forma isolada, mas identificar padrões por área, liderança, função e momento organizacional. É assim que o invisível começa a virar gestão", afirma Rubio.>
Liderança afiada >
Nesse processo de gestão, a conduta dos gestores passou a ser enquadrada diretamente na conformidade legal. Ambientes de alta pressão e assédio moral configuram falhas graves de SST."A liderança é um dos principais fatores de prevenção ou de agravamento dos riscos psicossociais. Se a empresa identifica esse risco e não capacita suas lideranças, isso pode demonstrar falha na gestão preventiva prevista pela NR-1", alerta Paulo Sobreira.>
Leandro Rubio complementa a análise técnica sob a perspectiva cultural:"Mais que perguntar se uma liderança mal treinada pode virar um problema de conformidade, eu diria que ela pode virar um problema de saúde, jurídico, reputacional e de performance. Por isso, capacitar gestores deixou de ser apenas uma boa prática de cultura. É uma medida preventiva concreta para reduzir riscos psicossociais".>
Sobreira esclarece que o foco da legislação é estritamente coletivo e focado na estrutura de trabalho:"A NR-1 não pretende responsabilizar a empresa por toda condição de saúde mental do trabalhador. O foco é avaliar fatores existentes na organização do trabalho que possam causar ou agravar adoecimentos, como jornadas excessivas, metas inalcançáveis, falta de autonomia, comunicação inadequada, violência psicológica e conflitos organizacionais. O olhar é coletivo e preventivo, não individual", pontua o engenheiro.>
Rubio concorda e destaca que os padrões são a chave para o diagnóstico correto:"A diferença aparece quando olhamos padrões. Se vários colaboradores da mesma área relatam sobrecarga, medo da liderança, falta de reconhecimento, conflitos constantes ou pressão desproporcional, isso deixa de ser apenas uma questão individual. A empresa não precisa diagnosticar a vida íntima de ninguém. Mas precisa cuidar daquilo que o ambiente de trabalho produz ou agrava", afirma.>
Tatiana Pimenta adverte ainda sobre a privacidade dos colaboradores: “O mapeamento de riscos psicossociais envolve dados sensíveis de saúde e exige aderência rigorosa à LGPD, tornando indispensável que as empresas não negligenciem a proteção dessas informações”>
Custo da negligência >
Embora a fiscalização traga o fantasma das autuações financeiras, os especialistas são unânimes: o maior prejuízo de ignorar a saúde mental é silencioso e atinge o coração da operação.>
"O maior custo normalmente não é a multa. Empresas que negligenciam a saúde mental convivem com aumento de afastamentos, absenteísmo, presenteísmo, queda de produtividade, acidentes, processos trabalhistas, aumento dos custos previdenciários, perda de inovação e maior rotatividade. O impacto financeiro pode ser muito superior a qualquer penalidade administrativa", adverte Paulo Sobreira.>
Leandro Rubio conclui que a saúde mental corporativa consolidou-se como um pilar de sustentabilidade e competitividade no mercado moderno:"No futuro próximo, saúde mental será tão estratégica quanto segurança física, compliance, diversidade e experiência do colaborador. Não porque virou moda, mas porque empresas saudáveis performam melhor, retêm melhor e constroem marcas mais fortes", conclui.>