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Amanda Cristina de Souza
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 16:38
Apagão no transporte de ônibus isola 3,3 mil cidades e corta mais de 400 rotas no país. O encolhimento de 17% das linhas interestaduais deixa mais de 60% dos municípios sem serviços regulares, apontam dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT, analisados pela Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia, a Amobitec. A perda de conexões atinge passageiros que dependem do modal rodoviário, encarecendo bilhetes e limitando horários. >
Novo terminal já opera em Salvador
Os dados analisados são dos anos 2019-2026. O encolhimento da oferta acompanhou uma forte queda de demanda, que passou de 43,1 milhões de passageiros em 2023 para 36,7 milhões em 2025, reduzindo a receita das viações de R$ 6,7 bilhões para R$ 6,15 bilhões no mesmo período.>
Essa retração acelerou a concentração de mercado no setor rodoviário. Atualmente, apenas cinco grandes conglomerados econômicos, Gontijo, Guanabara, JCA, Suzano e Águia Branca, controlam 36,5% de todo o ecossistema nacional de transporte por ônibus.>
Na prática, para o passageiro, cerca de 80% das rotas interestaduais funcionam sob regime de monopólio ou duopólio, dominadas por apenas uma ou duas empresas que frequentemente pertencem ao mesmo grupo financeiro, limitando a concorrência e pressionando o valor das tarifas.>
Com essa concorrência limitada, mais de 3,3 mil municípios e mais de 60% das cidades do país estão desassistidas de serviços regulares.>
Para tentar resolver o represamento histórico e abrir o mercado à concorrência, a ANTT planejou lançar a chamada Janela Extraordinária para licitar 47.291 mercados no país. A medida visa atender 38.379 localidades atualmente desassistidas de transporte interestadual e abrir 8.912 rotas de ônibus que hoje operam sob domínio de uma única empresa.>
A tentativa de abertura de mercado, porém, sofreu uma reviravolta no Supremo Tribunal Federal (STF). O processo foi paralisado por determinação judicial após questionamentos apresentados pela Associação Nacional das Empresas de Transporte Intermunicipal e Interestadual de Passageiros (Anatrip) sobre supostas fragilidades no sistema tecnológico da agência reguladora.>
Com o impasse travado no STF, a concorrência segue congelada nas rodoviárias, deixando os passageiros reféns de tarifas elevadas e com pouca oferta de horários para viagens pelo interior e para outros estados do país.>
Por trás do afunilamento das opções nas rodoviárias, o Transporte Rodoviário Regular Interestadual de Passageiros (Trip) transformou-se em um prolongado campo de disputa judicial em Brasília.>
Dos 33 mil mercados cadastrados formalmente na agência reguladora, cerca de 25 mil dependem exclusivamente de liminares e decisões judiciais precárias para manter os ônibus circulando nas estradas brasileiras.>
Enquanto as viagens operam sob incerteza jurídica, novos concorrentes tentam ingressar na malha nacional para oferecer passagens mais acessíveis. A ANTT acumula aproximadamente 70 mil pedidos de autorização submetidos por novas empresas nos últimos dois anos.>
O avanço desses novos operadores, contudo, enfrenta forte resistência dos grandes grupos tradicionais, que alegam riscos à segurança das operações e desequilíbrio econômico para travar a entrada de novos ônibus nas linhas.>