Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Thais Borges
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 05:00
O professor João Carlos Salles esteve à frente da reitoria da Universidade Federal da Bahia (Ufba) durante um dos períodos de maiores restrições orçamentárias da história recente da instituição - de 2014 a 2022, inclusive durante o auge da pandemia da covid-19. Agora, após quatro anos, em maio, ele foi escolhido pela comunidade acadêmica para um terceiro mandato, em um pleito marcado pelo fim da lista tríplice. >
Na última sexta-feira (14), sua nomeação foi publicada no Diário Oficial da União (DOU). Em entrevista exclusiva ao CORREIO, na segunda-feira (17), o agora reitor falou sobre a construção coletiva do programa que o levou a concorrer novamente, sobre os novos projetos para a universidade e o papel da Ufba em questões da atualidade, que vão desde inteligência artificial até a defesa da soberania nacional e das terras raras. >
O professor João Carlos Salles assumiu o terceiro mandato como reitor da Ufba
“Nossa tarefa é dar continuidade a esse movimento de reinvenção permanente da universidade. Isso é mais do necessário, porque a universidade pública federal tem sofrido ataques diversos, ataques ao seu orçamento e ataques também à sua relevância. É como se a universidade não estivesse justificada plenamente perante à sociedade", pontuou. >
Na conversa, ele falou ainda sobre tópicos como a recomposição orçamentária; o sistema digital Sigaa, que tem sido alvo de críticas de estudantes, sobre cotas raciais para docentes e a gestão de prédios históricos da instituição. “Nós defenderemos o patrimônio da universidade. E para isso nós iremos atrás de todos os recursos", garantiu o reitor, que convidou a comunidade para a cerimônia de transmissão de posse, no dia 3 de setembro, às 17h, na sede da Reitoria, Canela. >
O senhor foi nomeado, na semana passada, para seu terceiro mandato como reitor. Ao final dos quatro anos, vai ter sido o reitor que mais passou tempo à frente da Ufba, com exceção de Edgar Santos - que, em outro contexto, esteve por 15 anos consecutivos. O que a comunidade acadêmica e a sociedade baiana podem esperar do seu terceiro mandato? >
Primeiro, é bom destacar que a Ufba é fundada pela liderança de Edgar Santos e essa liderança é incomparável. O lugar de Edgar Santos é único e definidor desse projeto de universidade, que é um projeto que associa, naquele momento, em 1946, cursos que já existiam. Eram unidades prévias, como a Politécnica, Medicina, Filosofia, Direito e ele faz esse projeto de unir esse tecido de uma forma muito extraordinária. >
Eu acho que a nossa tarefa é dar continuidade a esse movimento de reinvenção permanente da universidade. Isso agora é mais do necessário, porque a universidade pública federal tem sofrido ataques diversos, ataques ao seu orçamento e ataques também à sua relevância, digamos assim. É como se a universidade não estivesse justificada plenamente perante à sociedade. >
Então, o que é que as pessoas podem esperar de nossa nova gestão? É uma gestão mais experimentada, ou seja, eu passei, como reitor, por oito anos que não foram fáceis. Retorno agora no momento em que ainda há restrições orçamentárias e no momento em que a educação superior não é prioridade nacional. Ela precisa ser prioridade nacional. Porque a educação superior organiza todo o projeto da educação.>
Uma coisa simples é que a educação básica não se distingue da educação superior, porque os profissionais da educação básica são formados na educação superior. Não se pode esperar que um investimento na educação básica seja feito de uma forma separada desse investimento também prioritário na educação superior. Essa é a primeira questão. >
E quais seriam as outras?>
Nossa luta é recuperar o orçamento da universidade, mas também fazer com que a universidade esteja presente na sociedade de forma mais decidida enfrentando algumas questões novas, por exemplo, questões relativas à inteligência artificial, questões relativas à inovação, ao desenvolvimento, à defesa da soberania nacional, em diversas dimensões. >
Porque essa defesa se tornou mais urgente, como, por exemplo, a defesa das nossas terras raras, ou seja, da nossa propriedade sobre as terras raras, a defesa da nossa condição de uma nação independente de qualquer ameaça externa, ou seja, a afirmação da nossa soberania nacional e, enfim, como horizonte aquilo que associa a universidade ao Estado brasileiro.>
O que é que há de comum na universidade com o Estado brasileiro? É ser um projeto de longa duração, de defesa do conhecimento, de combate ao obscurantismo, uma defesa portanto, que tem como horizonte uma sociedade radicalmente democrática. >
Queria voltar nesse ponto sobre a educação superior não ser uma prioridade. A gente tem a questão dos cortes orçamentários, mas que outras mensagens ou sinais que têm sido enviados por quem está à frente do país que a educação superior não é prioridade?>
Nós temos que separar o que é o Executivo, diretamente, e essa composição do Parlamento, porque esse Parlamento tem sido hostil à recomposição orçamentária das universidades. Existe um caminho que tem sido seguido, que é o recurso das emendas parlamentares. O problema das emendas parlamentares é que são seletivas e não fazem frente às despesas discricionárias necessárias à manutenção, segurança, limpeza e um investimento estratégico em infraestrutura.>
A universidade cresce em tamanho e acolhe uma comunidade maior, o que, para nosso benefício, é muito bom. Nossa universidade é mais diversa, reflete mais a cor do nosso povo, o talento da nossa gente, mas isso tem um preço. Você precisa corresponder às exigências de inclusão efetiva, porque parte da nossa comunidade é extremamente vulnerável. Então, essa estratégica decisão de expansão da universidade não teve a correspondente ação para efetiva permanência. Nesse sentido, é um sinal de que a universidade precisa de mais. >
E tenho impressão que outras soluções privatizantes acabaram se impondo ao país. Hoje, de cada 10 vagas do ensino superior, oito estão nas privadas. Com as exceções de praxe, nós sabemos bem que, em geral, as privadas não têm compromisso com a pesquisa, com a produção do conhecimento e, portanto, não oferecem aquele tipo de formação que nós necessitamos em nosso país. >
Quando conversamos com o professor Paulo Miguez (ex-reitor da Ufba), algumas semanas atrás, ele falou bastante sobre a necessidade de um financiamento mais tranquilo para as universidades federais, que não dependesse dos ‘humores’ do Executivo e do Legislativo. Ele citou até o exemplo das universidades estaduais paulistas. O senhor tem a ideia de algum modelo que você acha que funcionaria? >
Há um modelo. Não se trata de encontrar modelos equivalentes às paulistas, porque elas dependem muito da situação particular do estado de São Paulo. Creio que precisamos de uma decisão política que garanta financiamento à rede de todas as universidades federais, segundo modelos que já foram modelos de financiamento que já foram inclusive estabelecidos pela própria Andifes (Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior).>
Por esse modelo, se fossemos seguir, não é uma questão do Legislativo ou do Executivo. É uma questão de um modelo que, uma vez referendado e garantido, faria com que o orçamento desse condições para a universidade acolher, produzir conhecimento e investir e expandir, que é uma necessidade.>
A Ufba é um lugar especial, mas ela faz parte de um sistema. A gente tem que pensar numa cooperação desse sistema nacionalmente para garantir esse financiamento e ter medidas claras de tal sorte que o crescimento da universidade implique maior disponibilidade de recursos. Não cabe a nós pensarmos qual é a solução isoladamente, mas pensarmos uma solução nacional pactuada diante de toda a sociedade. >
Essas propostas da Andifes seriam também com base em um percentual dos contribuintes, por exemplo (nas estaduais paulistas, há um percentual fixo de ICMS destinado às instituições)?>
Não, ao contrário. É uma responsabilidade do Estado brasileiro e nós temos que recuperar isso. É uma responsabilidade do Estado brasileiro o financiamento da educação superior. Se alguma fórmula for agregada a isso, ela não pode se agregar diminuindo esse investimento ou condicionando a também uma certa instabilidade qualquer dessa fonte que foi apresentada. >
O senhor administrou a Ufba em um período muito difícil, pelos cortes orçamentários, que ainda continuam. Agora, o que o senhor diria que é mais urgente para a Ufba nesse aspecto? Seria a assistência estudantil? >
Eu acho que essa pergunta tem um pequeno vício. É imaginar que nós podemos escolher um item em detrimento de outros. É evidente que você pode dizer que a assistência estudantil é uma pré-condição para o ensino, para pesquisa, para pós-graduação.>
Ou seja, se você não garante que o estudante, sobretudo aquele com vulnerabilidade, tem a condição de frequentar, você compromete tudo. Mas não é um único item. >
Isso não pode ser separado da limpeza, do investimento, das condições de ter pessoal que possa dar suporte às atividades, ou seja, é preciso ver a universidade de forma sistêmica. Ela precisa de orçamento e de políticas que atendam como um todo. A própria escolha já é o resultado da crise. Entenda, imaginar que exista uma escolha a ser feita é aceitar que a crise é tolerável e que você pode prioritariamente conceder recursos para essa ou aquela direção.>
Há coisas óbvias entre apoiar os estudantes e ter alguma despesa que você possa adiar, os estudantes têm urgência, isso é óbvio. Mas pensar a universidade como organismo implica não aceitar a escolha de Sofia. Não aceitar que você vai precisar renunciar a seus compromissos maiores de investimento de infraestrutura, não aceitar que a pesquisa vai ser colocada de lado e assim por diante. >
É ver a universidade como um organismo inteiro onde ensino, pesquisa e extensão estão entrelaçados. Essa indissolubilidade é afirmada na Constituição.>
O senhor passou por uma administração com períodos que talvez tenham sido os mais difíceis nos tempos recentes da Ufba. O senhor teve que lidar com muitos problemas. Por que decidiu voltar? >
Eu não decidi sozinho. Não foi um projeto pessoal como alguém que imagina um passo em sua carreira. É claro que alguma pessoa pode insinuar ou/e pensar isso. Às vezes, as pessoas imaginam isso porque tomam a si mesmos como medida de certas coisas. Imaginam que, se alguém está voltando, é um projeto pessoal. >
De certa forma, é também uma grande honra ser reitor da Universidade Federal da Bahia e eu acho que eu tenho uma preparação suficiente para, neste momento, enfrentar bem as tarefas, mas muito longe de ser um processo pessoal. Foi um movimento coletivo de pessoas que se organizaram em torno de um programa e que julgaram que eu seria a pessoa adequada a estar nesse lugar. E eu acreditei.>
O senhor teve que se convencer internamente, em algum momento? Debateu internamente se deveria?>
Sim, inclusive minha vida pessoal e profissional caminhava em outras direções. Foi, de fato, um processo de deliberação, que é esse processo de luta entre posições, em que você acaba chegando a um resultado, geralmente não sozinho. Não estar sozinho é o segredo da nossa gestão. >
Não estou só. Estou em um movimento que pensa a universidade defendendo sua autonomia, defendendo o aprofundamento da democracia, a sua natureza de qualidade, sua natureza inclusiva e uma Ufba que se distingue por essa singular situação. >
O senhor já escolheu toda a nova equipe? >
Toda a equipe está escolhida. A gente teve a condição de apresentar, fazer uma transição e decidir completamente pela equipe antes mesmo de termos começado.>
Qual foi o principal critério?>
Confiança, credibilidade, competência. Não tem nenhuma preocupação em fazer um gesto retórico. Há um misto, na nossa equipe, de renovação e permanência extremamente bem pensado e pensado coletivamente. Se eu considerar entre pró-reitores e superintendentes são 14 cargos, e desses, são oito mulheres, seis homens, com grande diversidade, grande história na Ufba e bastante talento reunido. >
Na semana passada, a gente acompanhou muitas críticas de alunos com relação ao processo de matrícula. Muitos alunos têm perguntado: o Sigaa vai continuar? >
O Sigaa é um sistema mais robusto que substitui o Siac. Não há chance de voltarmos ao Siac. O Sigaa tem uma linguagem mais robusta, que precisava ser customizada para a universidade, ser desenhada de uma maneira estrita para atender os regramentos da universidade. O grande problema é quando você tenta impor um sistema a uma história. É a história que deve organizar o sistema. E nós avançamos nessa direção.>
É claro que há reações, as pessoas estão assim, digamos, escaldadas com uma experiência anterior bastante complicada, mas nós demos passos muito importantes. Aquilo que parecia impossível, hoje ainda é difícil, mas há uma diferença muito grande entre o que é impossível e o que é difícil e vai exigir sim uma colaboração das pessoas. Eu pediria à comunidade, primeiro, que mantivesse suas críticas. É importante a manutenção das críticas ao sistema. >
Com isso, você vai identificando problemas a serem corrigidos. Mas vai dar certo e nossa meta é não ter um semestre atípico em 2026.2. A atipicidade prolongada é indesejável para todos. >
Faço esse apelo à comunidade. Manter a crítica significa fazer parte como cidadão e não apenas como cliente. Muitas vezes a reclamação da pessoa é como um cliente que não foi atendido. Mas o cidadão é aquele que identifica o problema e procura saber como ele pode ser resolvido. E está havendo escuta nossa. Todas as instâncias envolvidas estão colaborando. Agora é o momento fundamental em que os colegiados vão precisar atuar. O colegiado é o protagonista natural do processo de matrícula.>
É preciso ter paciência, ou seja, uma paciência ativa, que questiona, que se inquieta. A reitoria vai estar aberta e sensível ao diálogo com as categorias, a todo instante. Tem algo do nosso método de gestão que levou as pessoas a se organizarem em torno do movimento que nos trouxe a esse lugar: atenção, diálogo e escuta permanentes. >
Antes mesmo de tomar posse, eu estava indo a cada congregação, ouvindo cada unidade universitária, para que a gente possa, aprofundando a democracia, resolver também qualquer problema que se apresente. Esse método de escuta, acho que vai ser inclusive bem sucedido para essa questão que se tornou tão traumática que era a questão do Sigaa. >
Isso nunca aconteceu? Um novo reitor antes de assumir, já ouvir as unidades desde a transição? >
Eu acho que essa foi singular. Não sei se já aconteceu ou não, eu posso lhe dizer que a gente fez isso de caso pensado, sentindo que o tecido da universidade estava muito esgarçado. É uma tarefa de todos nós, porque a eleição passou. Significa que agora nós temos esse compromisso de fazer com que o tecido reaja, com que o tecido se reorganize e possa dar as melhores respostas.>
É nesse sentido que um dos elementos da nossa ida das unidades é convidar a comunidade para a cerimônia de transmissão de cargo, que será no dia 3 de setembro, às 17 horas, na Reitoria da Ufba. A cerimônia de transmissão de cargo tem um simbolismo especial, porque significa que a gestão continua, que a Ufba está unida. >
No relatório executivo de gestão de 2025, a reitoria destacou alguns rankings em que a Ufba ficou entre as 15 melhores universidades do Brasil e que ficou mais um ano como a segunda melhor do Nordeste em um deles. Sabemos que são rankings com diversos critérios, mas já escutei de pesquisadores de alta patente no CNPq que a Ufba poderia mais. Quais são os entraves hoje para que a universidade se torne a melhor do Nordeste, independente de qual ranking seja observado?>
Primeiro, rankings são importantes, mas não devem nos subordinar. Porque uma das coisas que é própria da universidade é criticar as medidas que são estabelecidas para ela. Os rankings são feitos com critérios que às vezes contrariam aquilo que você considera ser o objetivo da educação superior. Mas eles precisam ser atentamente considerados, porque fazem parte da imagem pública da universidade. Seria um absurdo que a universidade não cuidasse da sua imagem pública.>
Só para ficar claro, a universidade pública de certa medida foi um pouco abandonada pelas elites, que passaram a julgar que essa inclusão excessiva e que teria prejudicado algum critério mais meritocrático. Nós sabemos que a inclusão trouxe a riqueza e o talento da nossa gente para a universidade. A diversidade nos enriquece, mas nós precisamos cuidar disso. >
Então, cuidar dos rankings é recuperar também parte da imagem da universidade diante da sociedade. Eu diria que ser apenas a primeira do Nordeste, que já fomos em alguns momentos, é pouco. Não é uma corrida em relação às outras universidades.>
O que importa é que a universidade conheça, e tenha esse reconhecimento reafirmado dentro da sociedade, de que ela está fazendo a melhor pesquisa, melhor formação, a melhor extensão na relação com a sociedade. Nós cuidaremos dos rankings, sim, e eu tenho certeza que a Ufba pode mais e nós vamos trabalhar com muita atenção para isso.>
Respeitando os rankings, mas sem nos subordinarmos aos padrões que sejam externos,. >
Inclusive, fizemos a mudança da pró-reitoria. No regimento da universidade, você tem duas pró-reitorias, que estavam conjugadas atuando como uma só. Agora, elas estão bem separadas, a pró-reitoria de pesquisa e a pró-reitoria de ensino de pós-graduação. >
Nos últimos anos, a Ufba esteve em evidência nacionalmente por conta de um debate sobre ações judiciais contra cotas sociais para professores. Na semana passada, mostramos algumas denúncias que evidenciam como a UFPE tem passado por isso agora, dois anos depois da Ufba. Como o senhor avalia o posicionamento da Ufba nesse tema, agora que temos uma lei de fato? O que outras universidades podem aprender com o exemplo da Ufba? >
Nós temos muito orgulho de termos construído um modelo de aplicação de cotas em concursos públicos que hoje é uma referência em todo o país. Ele evita a burla, evita qualquer tipo de subterfúgio para não respeitar aquilo que é estabelecido na legislação. >
É importante dizer que nós continuaremos com a nossa política de reforço das ações afirmativas. E é claro, sabemos bem que num país como o nosso, marcado por exclusões e discriminações, essas ações podem provocar estranhezas, podem enfrentar reações. >
Entretanto, temos muita convicção de que a riqueza da universidade passa pelo aprofundamento da sua diversidade, inclusive de opiniões. Mas se é assim, também nos cabe zelar pelas boas condições de diálogo, respeitando as posições, respeitando posicionamentos distintos. Aprofundar a diversidade não é ter um pensamento unilateral, ao contrário, é inclusive evitar cancelamentos em favor do bom debate.>
Conheça as instituições federais de ensino superior da Bahia
Ficou para sua gestão a decisão sobre a Nova Politécnica. >
Não ficou para mim, veja bem. Existe um projeto da Politécnica que foi encaminhado na gestão do professor Miguez, que, ao que me consta, devolveu à Escola Politécnica para que a congregação examinasse algumas sugestões de uma comissão especificamente criada para isso.>
A decisão sempre será da universidade, não de uma gestão simplesmente. Agora, é uma prerrogativa do reitor pautar ou não pautar a criação de uma nova unidade. No momento preciso, aí sim caberá à minha gestão decidir se isso vai ser pautado ou não vai ser pautado. O reitor tem suas prerrogativas. Vou examinar, vou me debruçar sobre, mas não vou me debruçar sozinho. Isso não é um gesto arbitrário, mas algo maturado com a devida reflexão e envolvendo pessoas competentes.>
Tivemos o caso da Faculdade de Medicina e, a partir dele, a gente falou sobre outros prédios históricos que estão sob a gestão da Ufba. O professor Miguez comentou sobre como é importante que esses prédios tenham recursos próprios para a gestão do patrimônio. Como é que deve ficar essa questão, na opinião do senhor?>
Nós temos responsabilidade total pelo patrimônio da universidade. A universidade já colocou como sua prioridade a recuperação da residência da Vitória, por exemplo, assim como a reabertura do Museu de Arte Sacra, a preservação e a recuperação da Faculdade de Medicina. E há outros. Nós temos o casarão da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, temos o casarão de Nutrição, temos a antiga residência feminina.>
É muito interessante que pessoas externas à universidade com interesses pouco claros, digamos assim, podem estar atendendo menos às exigências próprias à memória e ao patrimônio da universidade, que às vezes fingem querer recuperar, e mais a interesse do mercado imobiliário.>
Nós defenderemos o patrimônio da universidade. E para isso nós iremos atrás de todos os recursos, inclusive já tomamos medidas nessa direção. >
Prédios históricos ou tombados da Ufba que precisam de orçamento específico para manutenção
Quais? >
Medidas simples, por exemplo, medidas no sentido de fazer as devidas licitações de projetos para a recuperação, fazer o devido tombamento de certos equipamentos. Ou seja, a Ufba estará cuidando do patrimônio da universidade. >
Nós temos que restabelecer a confiança de tal sorte que a Faculdade de Medicina, por exemplo, saiba que nós estamos cuidando disso. Nós estamos lado a lado na defesa desse patrimônio, da recuperação adequada. Mas não só da faculdade. >
A Faculdade de Medicina é fundamental para a Ufba, está na origem da Universidade Federal da Bahia. Fortalecer a Faculdade de Medicina é fortalecer a Ufba, mas fortalecer a Ufba também é fortalecer a Faculdade de Medicina. A compreensão dessa sinergia é essencial e nós zelaremos por isso. >
Recuperar a Faculdade de Medicina também é algo que se associa à recuperação do Museu de Arte Sacra, que está interditado. Se associa à recuperação das residências que estão numa situação de precariedade que precisa ser recuperada, são os casarões que precisam ser recuperados. >
É bastante complexa a situação da universidade e seria muito oportunismo de qualquer setor tentar se aproveitar da situação de restrição orçamentária que nós vivemos e que levou uma precarização para tirar algum benefício disso. Nós não queremos crer que esse oportunismo será tolerado pela sociedade baiana.>
Pensando nos próximos quatro anos, como é a universidade que o senhor imagina daqui a quatro anos? >
A universidade precisa, diante da sociedade, ter justificado o seu direito à existência ao investimento devido de tal sorte que, daqui a quatro anos, de cabeça erguida, a Ufba possa se dirigir à sociedade mostrando o ensino de qualidade que ela é capaz. Mostrando uma pesquisa forte e bem apoiada, uma extensão sensível ao entorno da universidade capaz de dialogar, fazer dialogar saberes. E, assim sendo, que a Universidade Federal da Bahia se mostre como esse lugar maravilhoso que ela é - esse lugar onde ciência, cultura e a arte se realizam.>