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Alfabetização com foco em gestão e apoio do privado

Com mais de 10 mil livros distribuídos e monitoramento contínuo de aprendizagem, o programa Culturando a Alfabetização alcança 19 mil crianças no interior baiano

  • Foto do(a) author(a) Carmen Vasconcelos
  • Carmen Vasconcelos

Publicado em 5 de agosto de 2026 às 20:41

Bartholomeu Eneias Silva detalha a estratégia para consolidar a leitura como política pública continuada
Bartholomeu Eneias Silva detalha a estratégia para consolidar a leitura como política pública continuada Crédito: Divulgação

A garantia do direito de ler e escrever na idade certa permanece como um dos maiores gargalos da educação pública no Brasil. Na Bahia, a busca por soluções efetivas para a recomposição da aprendizagem ganha o reforço do investimento social privado por meio do programa Culturando a Alfabetização, idealizado pelo Instituto FEFIG. Em sua segunda edição, a iniciativa atinge 22 municípios baianos, impactando diretamente cerca de 19 mil alunos e 239 escolas públicas — incluindo unidades localizadas em áreas de difícil acesso geográfico e comunidades rurais.

Diferente de ações pontuais de doação, o projeto atua de forma estruturada. Ao todo, foram destinados às salas de aula 10.330 livros paradidáticos adquiridos via Lei de Incentivo à Cultura, acompanhados por uma metodologia rigorosa de acompanhamento, gestão e formação continuada no âmbito do Programa Circuito 360º / Gestão da Alfabetização.

Bartholomeu Eneias Gomes da Silva, superintendente executivo do Instituto FEFIG, destaca que a entrega do material literário é apenas o ponto de partida de uma engrenagem pedagógica mais ampla.

“Não realizamos apenas doações de livros. Eles são um complemento à estratégia de acompanhamento e formação que implementamos. Mantemos profissionais qualificados em contato diário com as redes parceiras, realizando visitas às escolas, reuniões de gestão e coleta mensal de indicadores”, explica o gestor, que é historiador formado pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em Gestão Pública pelo Insper.

Metas de leitura

Para assegurar que o acervo chegue de fato às mãos dos alunos, o instituto fornece gratuitamente às secretarias municipais uma plataforma em Power BI. A ferramenta sistematiza dados como a média de livros lidos por estudante a cada mês — cuja meta estabelecida é de, no mínimo, três obras por aluno —, além de cruzar informações sobre frequência escolar e taxas de alfabetização do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

Esse diagnóstico contínuo permite identificar distorções pedagógicas a tempo e desenhar intervenções customizadas para cada realidade local. A seleção do acervo também seguiu rigorosos critérios pedagógicos, valorizando a literatura nacional e priorizando obras de autores e ilustradores brasileiros focadas na consciência fonológica, ampliação de vocabulário e desenvolvimento do pensamento crítico.

A atuação no interior do estado exige superar grandes obstáculos logísticos. O programa alcança desde localidades como Maraú, cujo acesso principal se dá por estradas de terra onde veículos trafegam em velocidade reduzida, até municípios como Marcionílio Souza, na Chapada Diamantina, distante cerca de cinco horas do aeroporto mais próximo, além de escolas rurais situadas a mais de duas horas da sede municipal.

Esses esforços visam reverter os danos causados no período de afastamento presencial durante a pandemia de covid-19. Embora a Bahia tenha registrado avanços recentes no percentual de crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do Ensino Fundamental — saltando de uma média de 36% em 2024 para 55% em 2025, no contexto do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) —, os desafios permanecem expressivos.

Nos municípios atendidos pelo Instituto FEFIG, contudo, os resultados têm se mostrado promissores: a média de alunos alfabetizados nas redes parceiras situa-se cerca de 15 pontos percentuais acima da média estadual.

A escolha dos municípios parceiros, segundo a instituição, prioriza cidades com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e baixo Indicador Criança Alfabetizada (ICA), do Ministério da Educação.

No entanto, o fator determinante para a seleção é a demonstração de vontade política por parte dos gestores locais para promover mudanças estruturais e abrir espaço para o aprimoramento dos processos decisórios.

Sustentabilidade

Fundado sob a liderança do economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central, o Instituto FEFIG defende uma atuação pautada por resultados mensuráveis e neutralidade partidária. Para garantir a sustentabilidade das ações frente às trocas de mandato ou substituições de secretários, a parceria exige a assinatura de um termo de cooperação e a designação de um servidor efetivo da própria secretaria para atuar como coordenador técnico do programa.

“Nosso conceito de impacto é estrito: é o quanto as ações se traduzem em melhoria real da aprendizagem. O investimento social privado ocupa esse papel de ponte entre quem quer investir na educação e os municípios que precisam de apoio técnico, mostrando que a qualificação do ensino público exige ação sistêmica, profissional e em parceria”, conclui Bartholomeu.

Tags:

Educação