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Carmen Vasconcelos
Publicado em 15 de julho de 2026 às 05:00
Em tempos de dinheiro invisível — onde o consumo infantil é atravessado por transferências via Pix em segundos, cartões por aproximação e compras em cliques no celular —, as crianças correm o risco de crescer sem compreender a dinâmica real do valor. >
Como explicar inflação, juros e orçamento doméstico para uma geração de nativos digitais sem parecer um manual árido de matemática corporativa?>
A resposta que começa a desenhar um novo cenário na rede pública baiana não vem de um aplicativo de smartphone, mas de tabuleiros e cartas físicas. Idealizado pelo Instituto Brasil Solidário (IBS) com o apoio do Nubank e recursos do Fundo para a Infância e Adolescência (FIA), o projeto ‘Jogar e Aprender’ pretende levar o letramento financeiro a 150 mil estudantes de aproximadamente 500 escolas da Bahia.>
A engrenagem do programa ganha tração com um seminário estadual no dia 17 de julho, em Salvador, seguido pelo início das oficinas práticas no dia 20 de julho, na Escola Municipal Enock Amaral, em Lauro de Freitas. >
Mais do que uma atividade recreativa pontual, a iniciativa propõe uma mudança cultural estruturada.>
O poder do analógico>
O grande trunfo da metodologia, que utiliza os jogos pedagógicos da família PIC$, está em colocar os alunos do 4º e 5º ano no centro da experiência. >
Em vez de decorar fórmulas de juros, a criança senta à mesa e precisa decidir: poupar para o futuro ou gastar agora? Negociar com o colega ou planejar o próximo passo diante de um imprevisto simulado pelo jogo?>
Ao materializar as escolhas em cartas e tabuleiros tradicionais, o projeto torna visíveis as consequências econômicas que o ambiente puramente digital costuma camuflar. E as decisões de jogo ativam noções de interpretação de texto, raciocínio lógico-matemático e habilidades socioemocionais.>
“A tecnologia mudou a forma de pagar, mas não mudou a importância de saber decidir”, destaca Luís Salvatore, presidente do IBS, reforçando o papel essencial dos jogos físicos no desenvolvimento cognitivo de crianças de 9 e 10 anos.>
Para que o projeto não se encerre quando o tabuleiro for guardado na caixa, a estratégia aposta na escala com qualidade. O pilar dessa sustentabilidade é a formação contínua de mil educadores baianos por meio de quatro ciclos anuais que misturam ensino remoto, encontros presenciais e dinâmicas de sala de aula invertida — onde o docente estuda a teoria na plataforma e vai para o encontro focado nas dinâmicas práticas.>
Da sala de aula para a casa >
Essa preparação permite que a educação financeira deixe de ser uma “oficina de um dia só” e passe a integrar o planejamento pedagógico de forma transversal, costurada com disciplinas tradicionais como Língua Portuguesa, Matemática e Projetos de Vida. >
Quando o professor se apropria da ferramenta, a metodologia é incorporada definitivamente à rotina da rede de ensino. Um dos impactos mais imediatos observados pelo IBS é o efeito multiplicador que a dinâmica escolar gera dentro dos lares.>
Ao aprenderem sobre consumo consciente e desperdício em sala de aula, as crianças passam a atuar como agentes positivos em suas realidades familiares.>
O transbordo se manifesta em atitudes práticas no cotidiano: filhos que ajudam os pais a montar a lista do supermercado, a pesquisar preços ou a propor metas de economia nas contas de água e luz.>
Sem a carga de assumir o sustento do lar, as crianças tornam-se pontes para que toda a comunidade debata prioridades orçamentárias com maior clareza.>
A iniciativa na Bahia reflete o amadurecimento de um programa que já acumula mais de 2 milhões de estudantes impactados na América Latina. >
Olhando para a frente, o legado desenhado nas salas de aula baianas vai muito além de criar uma geração de poupadores obstinados. O objetivo final é formar cidadãos autônomos, capazes de fazer escolhas mais equilibradas em todas as esferas da vida adulta, inclusive na gestão pública e na atividade empreendedora.>
Ao instrumentalizar o estudante com senso crítico em relação ao crédito, ao consumo e ao planejamento antes mesmo que ele receba seu primeiro salário, a escola assume o papel de freio preventivo contra o endividamento crônico. A educação financeira, sob essa ótica analítica, firma-se como uma política de base essencial para interromper ciclos históricos de desigualdade socioeconômica na Bahia.>