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Jean Candido
Agência Correio
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 06:07
O ônibus da Faculdade Unilagos estava parado quando Andrea Ladeira Oliveira decidiu entrar. Queria apenas fazer uma pergunta e descobrir quais cursos eram oferecidos. Minutos depois, desceu com uma resposta e uma surpresa: havia acabado de se inscrever no vestibular. >
No primeiro semestre de 2014, Andrea começou a cursar Pedagogia, embora ainda conhecesse pouco sobre a profissão. Chegou a receber sugestões para escolher outra graduação, mas manteve a primeira opção. Entrar havia sido rápido; permanecer exigiria que ela reorganizasse a própria vida.>
Às 7h, Andrea já estava nas ruas de Rio das Ostras para iniciar o trabalho como gari. O expediente terminava às 15h20, seguido por quase uma hora de ônibus até sua casa, em Unamar, distrito de Cabo Frio. Ela trocava de roupa, separava o material e, às 18h, saía novamente para estudar. A curiosidade que a fizera entrar naquele ônibus agora ocupava quase todas as horas de seus dias.>
gari se forma em pedagogia
Natural de Campo Grande, na cidade do Rio de Janeiro, Andrea havia construído a vida em Unamar. Para estudar, precisava atravessar cidades e encaixar as aulas em uma jornada que começava com a vassoura nas mãos e terminava diante de livros, provas e trabalhos acadêmicos.>
Sentar-se na sala não fazia o cansaço desaparecer, pelo contrário, o corpo carregava as horas de trabalho, a viagem e a pressa da troca de roupa. Ainda assim, Andrea acompanhava as aulas e voltava para casa sabendo que, poucas horas depois, tudo começaria novamente.>
O ônibus que havia despertado sua curiosidade deixou de ser apenas um veículo estacionado. Tornou-se parte do esforço diário para alcançar uma formação que, até aquela primeira pergunta, ainda não fazia parte de seus planos.>
Em 2017, uma queda no trabalho rompeu essa rotina. Andrea varria uma rua quando caiu e fraturou o tornozelo. O médico determinou repouso absoluto, e ela precisou trancar a matrícula.>
Enquanto o tornozelo se recuperava, o semestre continuou. Os colegas avançaram, as aulas seguiram e a turma com a qual Andrea havia começado se aproximou da formatura. Pela primeira vez, vontade e esforço não bastavam. Ela precisava esperar que o próprio corpo permitisse a volta.>
Funcionários da faculdade mantiveram contato durante o afastamento. As mensagens de incentivo ajudaram Andrea a não transformar a pausa em despedida. Ainda havia provas pela frente, matérias atrasadas e uma nova turma à qual precisaria se adaptar, mas também havia um caminho já percorrido que ela se recusava a abandonar.>
Quando conseguiu retornar, Andrea encontrou uma faculdade que havia continuado sem ela. Os antigos colegas concluíram o curso primeiro, e ela precisou assistir à turma receber o diploma que também buscava.>
A fratura havia mudado o calendário, não a decisão. Andrea retomou as aulas com outros estudantes, refez a rotina de viagens e aceitou que chegaria depois. Ao recordar aquele período, resumiu o que a manteve de pé: “Eu não desisti. A palavra de ordem na minha vida foi ‘insistência’.”>
Professores, funcionários e novos colegas também fizeram parte da retomada. Houve quem enviasse uma mensagem, ajudasse em uma atividade ou simplesmente lembrasse que ela ainda pertencia àquela sala. Andrea voltou por decisão própria, mas não precisou percorrer sozinha os últimos passos.>
Com o passar dos semestres, o curso escolhido quase por impulso ganhou outro significado. Andrea começou a Pedagogia sem conhecer completamente a profissão e terminou enxergando na educação uma forma diferente de compreender as pessoas e a própria trajetória.>
“O curso de Pedagogia me tornou um ser humano melhor”, contou à Faculdade Unilagos.>
Em agosto de 2019, Andrea finalmente participou da cerimônia de formatura. Naquele diploma estavam as manhãs varrendo ruas, as viagens entre cidades, a roupa trocada às pressas, o tornozelo fraturado e a coragem necessária para voltar depois de ver os colegas concluírem o curso sem ela.>
Aos 51 anos, quando a faculdade publicou seu relato em 2021, Andrea ainda planejava continuar estudando. A formatura não havia encerrado sua relação com a educação. Apenas mostrou que ainda havia outros caminhos que ela poderia escolher.>
Na primeira vez em que entrou no ônibus da faculdade, Andrea levava apenas uma pergunta. Nos anos seguintes, embarcou cansada, com trabalhos por terminar e a decisão de não desistir. >
A fratura adiou a formatura e a fez ver os antigos colegas seguirem sem ela, mas, recuperada, voltou às aulas e recomeçou com outra turma. Em agosto de 2019, a pergunta que a fizera subir naquele ônibus finalmente ganhou resposta: Andrea era pedagoga.>