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Donaldson Gomes
Publicado em 3 de outubro de 2026 às 05:00
É lamentável que um candidato se furte de participar de um debate eleitoral, mas é preciso reconhecer que quem falta está fazendo uso de um direito, muitas vezes ancorado em uma estratégia de campanha. Confesso que, pessoalmente, vivi o maior anticlímax eleitoral em mais de 22 anos de jornalismo. Vejam, é péssimo que os dois líderes nas pesquisas, que juntos concentraram a maior parte das intenções de voto dos brasileiros, tenham evitado se expor ao confronto de ideias durante o primeiro turno — e não me venham dizer que foram às sabatinas, porque nelas faltam a dureza e até mesmo a rispidez que só um oponente consegue proporcionar. Entretanto, muito pior que as ausências nos debates tem sido a presença do Judiciário no processo eleitoral deste ano. >
Na mente do eleitor, a culpa pelo cancelamento do último debate eleitoral do primeiro turno pode variar. Os verde e amarelos vão dizer que foi do presidente Lula, ao rejeitar o convite e ao ingressar com uma ação na Justiça Eleitoral para evitar que sua ausência fosse exposta. Para os vermelhos, foi Flávio Bolsonaro, ao cancelar a participação diante da decisão do TSE beneficiando Lula e de outra decisão, de Gilmar Mendes, que colocou Renan Santos, do Missão, entre os debatedores. Há também aqueles que vão culpar a TV Globo, por ter se recusado a manter uma programação totalmente desfigurada e que provavelmente teria menos pontos de audiência que a soma dos percentuais de votos de todos os debatedores presentes.>
Mas, para mim, está claro que, além de ter sido decisiva para o cancelamento do que seria o último debate eleitoral do primeiro turno, a Justiça está tumultuando todo o processo eleitoral ao ocupar um protagonismo que deveria ser dos postulantes aos cargos eletivos. É fácil trazer aqui uma extensa lista de intervenções controversas desde o início da campanha – o ministro Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), incluiu Romeu Zema no debate dias antes. Mas, para evitar tornar este texto enfadonho, vamos nos ater às duas decisões que culminaram no cancelamento do debate na última quinta-feira.>
Primeiro, quando a ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a TV Globo de exibir o púlpito vazio que seria destinado a Lula e estabeleceu que os candidatos presentes não poderiam questionar o ausente, criou um problemão para a emissora. Não sei se você, querido leitor, já teve a experiência de entregar um microfone para alguém ao vivo. A verdade é que, depois que a pessoa começa a falar, você perde o controle da situação. Eu seria capaz de apostar que os candidatos presentes iriam descumprir as regras e caminhariam até o púlpito vazio de Lula, ou ficariam lhe direcionando perguntas. >
Não sei até que ponto isso influenciou, mas Estela Aranha trabalhou no governo Lula até o ano passado e foi indicada por ele, em setembro de 2025, para o Tribunal Superior Eleitoral. Sim, e declarou voto em Lula em 2022, segundo a Folha de S.Paulo.>
Aí vem a segunda decisão, que foi a pá de cal no debate. O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), obrigou a emissora a convidar Renan Santos, que, pelas regras inicialmente adotadas pela Globo, não havia sido incluído entre os participantes. Horas antes, o candidato havia publicado um vídeo informando que não participaria e convocando os apoiadores para um protesto em frente à emissora.>
Flávio Bolsonaro diz que a limitação acabou com a estratégia dele para o programa. Sem a possibilidade de tentar colar em Lula a pecha de covarde, restaria a ele ir para ser vidraça. O candidato do PL nega que a ida de Renan tenha influenciado sua decisão, mas encarar a retórica do candidato do Missão está longe de ser uma tarefa simples. Poderia ter enfrentado? Eu acho que sim, mas fez a sua escolha. Se acertou, colherá os louros. Caso tenha errado, que pague o preço.>
Flávio optou por fazer uma live com apoiadores que atingiu quase 1 milhão de visualizações. Lula concedeu entrevista a Igor 3K, do Flow, com pouco mais de 1,5 milhão de acessos ao vivo. Até que as urnas sejam abertas e tenhamos uma noção do impacto que os acontecimentos tiveram nas candidaturas, todo mundo vai dizer que seu candidato acertou e o adversário errou. Mas, em relação à responsabilidade pela bagunça, não devem existir dúvidas. Na minha avaliação, a Justiça teve papel decisivo.>
Os não votantes vão ajudar quem?>
Na reta final da campanha, a movimentação dos candidatos que aparecem mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto para conquistar o chamado “voto útil” se intensificou bastante. Mas já parou para pensar que os principais cargos eletivos podem ser definidos justamente por quem não vai aparecer para votar?>
A Bahia tem registrado taxas de abstenção próximas de 20% do eleitorado. Em 2024, como eram eleições municipais, o povo se animou mais para ir às urnas e a abstenção ficou em torno de 18%. Dois anos antes, em 2022, 2,4 milhões de eleitores baianos deixaram de comparecer às urnas. No segundo turno, a abstenção chegou a 20,39%.>
Esses milhões de eleitores representam um contingente suficientemente grande para alterar o resultado de muitas disputas. Muitos analistas do cenário eleitoral acreditam que parte das distorções entre as pesquisas e os resultados das urnas se deve à dificuldade de prever quantas pessoas efetivamente irão votar.>
Além dos que não vão, ainda temos os que vão, mas não votam nos candidatos postos: os brancos e nulos. E, neste caso, o problema assume dimensões diferentes a depender dos cargos em disputa. Normalmente, os brancos e nulos para presidente e governador são mais baixos do que na escolha dos candidatos ao Senado.>
Em 2018, última vez em que os baianos tiveram que escolher dois nomes para senador, foram registrados 3,48 milhões de votos nulos e 1,08 milhão de votos em branco. Somados, eles chegaram a 4,56 milhões, o equivalente a 27,7% dos votos possíveis para as duas vagas em disputa.>
Enquanto a abstenção impacta igualmente todos os cargos em disputa, os brancos e nulos ganham uma dimensão diferente nas eleições para o Senado, nas quais cada eleitor podia escolher dois candidatos.>
meme da semana>
Estamos nos últimos dias de mais uma disputa eleitoral polarizada, e o conselho deste jornalista é que você se lembre de que dá para trocar de presidente, governador, senador e deputados, mas não de pai, mãe, irmão ou filhos. Vamos tentar manter o calor da política em níveis saudáveis, que não destruam laços familiares ou de amizade?>
(Viu algum meme interessante? Encaminha para donaldson.gomes@redebahia.com.br)>