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Destrinchando a urna eletrônica

Entenda como o voto é armazenado, como a urna se comunica com os sistemas eleitorais e quais são as barreiras contra ataques

  • Foto do(a) author(a) Moyses Suzart
  • Moyses Suzart

Publicado em 4 de outubro de 2026 às 05:00

Urna eletrônica foi aberta ao vivo pela primeira vez
Urna eletrônica foi aberta ao vivo pela primeira vez Crédito: Arisson Marinho/CORREIO

Um processador Intel Atom de 1,60 GHz, com memória RAM de 4 GB, que oferece excelente eficiência energética e baixo custo. Tela LCD, teclado mecânico, leitor biométrico, bateria de lítio super econômica e um sistema criptografado de segurança. Só não tem acesso à internet. Essas especificações são de um microcomputador sem grandes capacidades para se tornar um PC Gamer, mas que tem o poder de decidir o futuro de um país. Há 30 anos com os brasileiros, a Urna Eletrônica foi um avanço nas eleições brasileiras, é usada em outros países, mas pouca gente a conhece de verdade. Afinal, é possível um hacker invadir a apuração? Dá para fraudar os votos? Como são armazenadas cada escolha e as informações dos candidatos? Separamos todas as dúvidas em três tópicos: segurança, estrutura e história. Sem delongas, leia, esclareça suas dúvidas e vote sem medo de ser feliz.

Urna eletrônica foi aberta ao vivo pela primeira vez por Arisson Marinho/CORREIO

História

Há pelo menos 30 anos, o brasileiro sequer sabe como é votar pela forma antiga, com cédulas de papel, como ainda acontece nos Estados Unidos, por exemplo. O desejo de uma máquina de votar é antigo, bem antes de 1996, quando a urna eletrônica foi implementada pela primeira vez no Brasil. Já no Código Eleitoral de 1932, no artigo 57, estava prevista a possibilidade do uso de uma máquina de votar. Em 1937, um protótipo chegou a ser apresentado, mas a ideia não foi levada adiante.

Em 1995, o TSE iniciou o projeto de informatização do voto e formou um grupo de trabalho com especialistas em informática, eletrônica e comunicações da Justiça Eleitoral, das Forças Armadas, do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Ministério das Comunicações. O objetivo era reduzir a intervenção humana na votação e na apuração, que até então eram feitas com cédulas de papel e contagem manual. Voilà! Com diversas frentes e um grupo de especialistas, a primeira urna eletrônica foi desenvolvida, o modelo UE1996. Em eleições anteriores à urna eletrônica, a apuração podia levar dias ou até semanas. A primeira votação eletrônica em larga escala ocorreu nas eleições municipais de 1996, quando cerca de um terço do eleitorado, em 57 cidades, utilizou o equipamento. Em 2000, a urna eletrônica chegou a todo o eleitorado brasileiro.

Ao contrário do que muitos pensam, o Brasil não é o único lugar do mundo a usar a urna eletrônica, tampouco foi pioneiro na adoção de máquinas de votação. Países como a Índia, a Holanda e os próprios Estados Unidos tiveram experiências anteriores com tecnologias de votação eletrônica ou mecanizada. O Brasil, porém, desenvolveu uma arquitetura própria, sob responsabilidade da Justiça Eleitoral, e atualmente realiza uma das maiores eleições informatizadas do mundo. A principal diferença é que a urna brasileira foi projetada especificamente para o processo eleitoral e funciona de forma isolada durante a votação, sem conexão com a internet.

Urna Eletrônica de 1996
Urna Eletrônica de 1996 Crédito: Arquivo Correio

Estrutura

Como todo microcomputador, a Urna Eletrônica é dividida basicamente em duas partes: a física, que conhecemos como hardware, e a lógica, ou software. Sua estrutura sólida possui processador, memória, armazenamento, tela, teclado, impressora, leitor biométrico e módulos de segurança. O equipamento foi projetado para funcionar de maneira isolada e executar apenas os programas autorizados pelo TSE. Não dá para instalar nenhum joguinho lá. Nas Eleições 2026, serão utilizados quatro modelos: UE2013, UE2015, UE2020 e UE2022. Nos dois modelos mais novos, o processador é o Intel Atom E3940, de 1,16 GHz, acompanhado de 4 GB de memória DDR3L.

Desde 1996, foram desenvolvidos 14 modelos de urna e produzidos mais de 1,4 milhão de equipamentos. Os anteriores a 2013 foram descontinuados e, em diferentes momentos, passaram por descarte. Segundo o TSE, as urnas descartadas não contêm dados de votação, pois as informações utilizadas no processo eleitoral são extraídas e transmitidas após o encerramento da votação. O descarte segue procedimentos técnicos definidos pela Justiça Eleitoral.

O modelo mais recente, desenvolvido sob especificações da Justiça Eleitoral e fabricado pela Positivo Tecnologia, uma Big Tech brasileira, tem diversas camadas de segurança e mecanismos criptográficos de hardware que permitem a execução apenas de softwares autorizados e assinados digitalmente pelo TSE.

Nem Android, tampouco Windows. Os dois modelos mais novos utilizam o Uenux, um sistema operacional baseado em Linux e adaptado às necessidades da Justiça Eleitoral. É nele que os aplicativos responsáveis pelas diferentes etapas da votação, incluindo o registro e a apuração dos votos, são executados. Por ser baseado em código aberto para programação, o sistema permite adaptações específicas para as necessidades da Justiça Eleitoral. O código-fonte dos sistemas eleitorais também fica disponível para inspeção durante o processo de fiscalização e auditoria.

Durante a votação, a escolha do eleitor é registrada eletronicamente e armazenada de maneira que o sistema preserve o sigilo do voto. O Registro Digital do Voto (RDV) permite a auditoria do conjunto dos votos, sem associar a escolha à identidade do eleitor. Quando a votação termina, a própria urna faz a apuração daquela seção e imprime o Boletim de Urna (BU), documento que apresenta a quantidade de votos recebidos por cada candidato e legenda. Os dados também são gravados em uma mídia de resultado, que é encaminhada para transmissão aos sistemas da Justiça Eleitoral. É justamente esse processo que faz o resultado aparecer em poucas horas.

Segurança

A questão não é se a urna é vulnerável, mas se ela está vulnerável. Toda tecnologia é passível de ataques, principalmente quando está conectada a redes que servem de canal entre a vítima e o hacker. A urna eletrônica não está conectada à internet nem a outras redes sem fio, como Wi-Fi ou Bluetooth, o que impede uma invasão remota convencional. Basta pensar na urna como um bunker, isolado do mundo externo e protegido contra bombas. É mais ou menos isso. Não deixando as portas abertas, nada de ruim vai acontecer.

O equipamento também só executa programas oficiais da Justiça Eleitoral, que passam por verificação, assinatura digital e lacração antes da eleição. Desde sua criação, em 1996, não houve comprovação de fraude capaz de alterar o resultado de uma eleição. Além de não ter conexão com a internet, a urna possui uma cadeia de segurança de hardware que impede a execução de programas não autorizados. Uma tentativa de executar software não assinado pelo TSE ou de utilizar software oficial em hardware não certificado provoca o bloqueio da execução.

Isso não significa que a urna seja simplesmente considerada “imune” a qualquer tentativa de ataque. Por isso, o sistema é submetido regularmente a testes e auditorias para procurar possíveis vulnerabilidades.

No popular, é como se hackers fossem desafiados a tentar invadir o sistema ou detectar erros que comprometam o processo eleitoral. O termo usado pelo TSE é mais técnico: Teste Público de Segurança (TPS). Pesquisadores, especialistas e investigadores (a maioria hacker) podem participar do procedimento para tentar encontrar vulnerabilidades nos sistemas eleitorais. Antes do teste, o TSE disponibiliza o código-fonte dos programas para inspeção. Código-fonte é o conjunto de comandos escritos em linguagem de programação que determina como um software deve funcionar. Aí os especialistas tentam, de alguma forma e propositalmente, invadir e buscar falhas neste sistema.

Durante o TPS, os participantes elaboram planos de ataque e tentam explorar possíveis lacunas. Se algum problema é encontrado, o TSE analisa a descoberta, faz as correções necessárias e realiza novos testes. No TPS de 2025, que preparou os sistemas para as Eleições 2026, 27 investigadores executaram 35 planos de teste, divididos em 15 grupos.

O TSE afirma que, em 30 anos de utilização da urna eletrônica, não houve comprovação de fraude capaz de alterar o resultado de uma eleição. Isso é diferente de dizer que testes de segurança nunca encontraram vulnerabilidades. Eles já encontraram pontos que poderiam ser aprimorados, e essas descobertas são utilizadas para aperfeiçoar os sistemas. No Teste da Urna de 2025, por exemplo, foram identificados três achados em três dos planos executados. Segundo os relatórios do TSE, eles não comprometeram a integridade, o sigilo do voto ou o resultado das eleições.

Até especialistas da Polícia Federal participam dos testes. Em 2021, peritos da PF superaram as duas barreiras iniciais de segurança, ao romper a linha de transmissão e entrar na rede do TSE. Mas como já frisamos, são várias camadas e eles não conseguiram alterar nada nas informações, pois não passaram das camadas subsequentes.

A fiscalização ocorre em várias etapas. No dia da votação, são realizados mecanismos como o Teste de Autenticidade, que verifica os sistemas instalados na urna, e o Teste de Integridade, que utiliza votos previamente registrados para conferir se a máquina contabiliza corretamente as escolhas. Também são emitidas a zerésima, antes do início da votação, e o Boletim de Urna, ao final. Esses mecanismos permitem verificar diferentes etapas do processo eleitoral, com a presença e fiscalização de representantes de partidos e outras entidades habilitadas.

Tags:

Eleições 2026