Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Perla Ribeiro
Publicado em 4 de outubro de 2026 às 03:00
A menos de uma semana do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, a infraestrutura tecnológica que dará suporte à votação entra na reta final de preparação. 158.745.463 eleitores estão aptos a votar no pleito deste ano, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por trás da urna eletrônica existe uma estrutura tecnológica que passa por diferentes etapas de controle, fiscalização e auditoria. A segurança não depende de uma única barreira, mas de uma série de mecanismos que começam antes mesmo de os equipamentos chegarem às seções eleitorais.>
Em 4 de setembro, o TSE concluiu a assinatura digital e a lacração dos sistemas eleitorais que serão utilizados nas Eleições 2026. O procedimento marcou o fim do desenvolvimento dos programas do pleito. Os sistemas foram assinados digitalmente, gravados em mídias não regraváveis, lacrados e armazenados na sala-cofre do tribunal. >
O protocolo de segurança das urnas eletrônicas
O que existe por trás da urna?>
A urna é apenas uma parte da infraestrutura. O processo eleitoral envolve sistemas responsáveis pela preparação dos equipamentos, geração de mídias, transmissão e recebimento de arquivos e gerenciamento da totalização. Para permitir a verificação da integridade desses programas, o TSE gera os chamados hashes, resumos digitais que funcionam como uma espécie de identificação única dos arquivos. Qualquer alteração no conteúdo original produz um resumo diferente. >
As entidades fiscalizadoras podem utilizar esses códigos para verificar se os sistemas empregados correspondem às versões que foram oficialmente lacradas. Na prática, a lógica é criar mecanismos para detectar uma eventual alteração entre o programa que foi analisado e aquele que será utilizado no processo eleitoral.>
Código-fonte ficou aberto para fiscalização>
A fiscalização começa muito antes da votação. Os códigos-fonte dos sistemas eleitorais das Eleições 2026 ficaram disponíveis para inspeção desde outubro de 2025, permitindo que entidades autorizadas analisassem os programas durante o ciclo eleitoral. Oito entidades realizaram inspeções antes da lacração dos sistemas, entre elas o Senado Federal, a Sociedade Brasileira de Computação, o Ministério Público Federal e a Controladoria-Geral da União. >
O TSE também realizou o Teste Público de Segurança, no qual especialistas e investigadores puderam apresentar planos de teste para tentar identificar vulnerabilidades nos sistemas eleitorais. Em maio, ocorreu a etapa de confirmação dos testes realizados anteriormente. >
Para o especialista em segurança da informação Hesron Hori, sócio e diretor de Risk Assessment da Under Protection, a existência de diferentes mecanismos de controle é importante porque a segurança de sistemas críticos não deve depender de uma única proteção. “Segurança não é resultado de um único controle. Quanto mais crítica é uma operação, mais importante é conhecer os ativos envolvidos, mapear riscos e estabelecer mecanismos independentes de prevenção, verificação e resposta”, afirma.>
E depois da lacração?>
A assinatura digital gera uma espécie de “impressão digital” dos programas. Com isso, é possível verificar posteriormente se o sistema utilizado corresponde à versão que passou pelas etapas de análise e foi oficialmente lacrada. As identificações digitais dos sistemas também são disponibilizadas pelo TSE para consulta. Segundo o tribunal, esse mecanismo permite conferir se os programas utilizados durante o processo eleitoral correspondem aos que foram previamente inspecionados e lacrados. >
A partir da lacração, cópias oficiais dos sistemas são encaminhadas aos Tribunais Regionais Eleitorais, responsáveis pelas etapas de preparação das urnas para o pleito. Justiça Eleitoral>
Golpes também entram no radar>
A segurança das eleições, porém, não envolve apenas os sistemas administrados pela Justiça Eleitoral. O período eleitoral também pode ser usado por criminosos digitais para aplicar golpes contra eleitores e empresas. Phishing, páginas falsas, roubo de credenciais e outras formas de engenharia social podem explorar a atenção concentrada nas eleições para convencer vítimas a clicar em links, fornecer informações ou instalar arquivos maliciosos.>
O mecanismo é conhecido: quanto mais atual e familiar for o assunto utilizado como isca, maior pode ser a aparência de legitimidade da mensagem. “O contexto faz parte da engenharia social. Quanto mais familiar e atual parecer uma comunicação, menor pode ser a percepção de risco de quem a recebe. O cuidado deve aumentar quando a mensagem cria urgência, pede dados, solicita credenciais ou direciona o usuário para um endereço desconhecido”, alerta Hori.>
Empresas também podem ser alvo>
Uma credencial corporativa obtida por meio de uma página falsa pode representar um risco que vai além do usuário que caiu no golpe. Se aquela senha permitir acesso a outros ambientes, um incidente inicialmente pequeno pode alcançar sistemas e informações de uma organização.>
Por isso, mecanismos como autenticação multifator, revisão de privilégios, segmentação de ambientes, atualização de sistemas e monitoramento contínuo são utilizados para reduzir o impacto de uma eventual credencial comprometida. “Treinar pessoas é necessário, mas a segurança precisa considerar a possibilidade de erro. Quando os controles são estruturados em camadas, uma credencial comprometida ou um clique indevido não deveria, sozinho, permitir acesso irrestrito ao ambiente”, afirma o especialista.>