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Felipe Sena
Publicado em 9 de junho de 2026 às 12:48
Um berimbau afinado "como os anjos soariam". É assim que Carlinhos Brown define "Afrossinfonicidade", álbum gravado ao lado da Orquestra Ouro Preto que une a força percussiva afro-brasileira à grandiosidade da música sinfônica. Registrado ao vivo na Concha Acústica de Salvador e lançado em dois volumes nos dias 5 e 26 de junho, o projeto celebra encontros entre culturas, territórios e gerações por meio de uma sonoridade que os artistas acreditam ainda não ter sido apresentada ao público brasileiro. >
A conexão entre Salvador e Minas Gerais deu origem a uma sonoridade que aproxima tambores, cordas e vozes. Brown e o maestro da Orquestra Ouro Preto, Rodrigo Toffolo, transformam tradições aparentemente distantes em uma experiência musical que atravessa gêneros, territórios e gerações.>
A gravação ao vivo do projeto, feita na Concha Acústica, na terra do axé, Salvador, representa uma movimentação social que está sendo construída hoje no país. “O individual, vamos dizer, não o individualista. O sozinho já tem um nome diminutivo, parece um sol pequeno. Ou alguém que está na sombra por medo do sol, mas o coletivo tem a dimensão das estrelas, porque o sol termina brilhando para todo mundo e todo mundo vê todo mundo”, diz Carlinhos Brown em entrevista ao jornal CORREIO.>
Carlinhos Brown e orquestra Ouro Preto
O Volume 1 passeia por “Frases Ventias”, faixa originalmente lançada em “Alfagamabetizado”, álbum que completa 30 anos em 2026. A canção reaparece em uma releitura que evidencia as raízes culturais do país por meio da força do barroco e da poesia afro-brasileira.>
Para Brown, a força coletiva do projeto nasce justamente das identidades regionais e da capacidade que elas têm de dialogar entre si. “Esse país tem a capacidade de se comunicar, e a Ouro Preto se comunica com o Brasil de ‘Afrossinfonicidade’”, destaca o artista.>
O cantor baiano, que teve o primeiro contato com a orquestra há 12 anos e realizou, nesse período, 12 apresentações do projeto, amadureceu a ideia ao lado do maestro ao longo desse tempo. “Chegamos a gravar duas edições desse DVD. A primeira nós condenamos toda. Embora tenha sido muito bem feita, com imagens maravilhosas, não gostamos do áudio”, conta Brown.>
Depois disso, chegou o ápice da sintonia entre as ideias e a música, culminando na apresentação da Concha Acústica. “Nós continuamos sinfônicos e não deixamos de ser carnavalescos, barroqueiros, sertanejos, pagodeiros, todos os estilos”, destaca.>
Daí surgem, ainda no Volume 1, a delicadeza e a intensidade de faixas como “Dois Grudados”, “Argila”, “Ocaso”, “Segue o Seco” e “Muito Obrigado Axé”. Sem caricaturas ou estereótipos, “Afrossinfonicidade” aproxima referências musicais distintas e valoriza aquilo que cada tradição tem a oferecer.>
“O Brasil, com essas visões, propõe essa reafirmação, esse reencontro identitário. Minas, com o Clube da Esquina. O Tropicalismo aqui com a liderança de Gil, Caetano, as meninas Bethânia e Gal, Os Mutantes, Os Novos Baianos”, ressalta o cantor.>
Para o maestro Rodrigo Toffolo, o álbum também se revela na reação do público diante da conexão entre Brown e a orquestra. “No primeiro momento, quando começa a primeira música, ‘Segue o Ciclo’, e o Brown entra com o berimbau tocando e as cordas harmonizando, ali já existe uma paisagem sonora, um conceito musical”, afirma.>
“Quando você entra pela cidade, é o barulho da moto, são as pessoas conversando. Quando o Brown toca e a orquestra entra, já é o cartão de visitas do que está por vir. A gente se faz músico. Músicos se encontrando para criar algo novo”, diz o maestro.>
Para Toffolo, o disco apresenta uma combinação sonora inédita. “Eu tenho muita certeza de que sempre que escuto esse disco vejo uma sonoridade que ainda não foi mostrada pela primeira vez”, destaca.>
No Volume 2, lançado no dia 26 de junho, o cantor nascido no Candeal Pequeno, em Salvador, revisita composições criadas ao lado dos Tribalistas — Marisa Monte e Arnaldo Antunes. Canções como “Vilarejo”, “Velha Infância” e “Já Sei Namorar” ganham novas interpretações.>
O mesmo acontece com sucessos que atravessam gerações, como “A Namorada” e “Amor I Love You”. Junto ao Volume 1, também será lançado o audiovisual do show completo gravado na Concha Acústica.>
Na brincadeira com as palavras, Brown cita “imbalícia”. “Nós, quando cantamos a música, cantamos ‘imbalícia’, mas nunca perdemos a coletividade”, destaca ao exprimir o sentido de “Afrossinfonicidade”, que também revisita sua própria trajetória.>
“A importância da revisita também é se encontrar nas dificuldades vividas”, afirma Brown. Ao relembrar os Tribalistas, o artista admite que precisa se reinventar. “Os tons de Marisa e Arnaldo são muito mais coerentes. E isso é uma das maiores magias. Eu preciso me inventar dentro do Tribalismo. Eu faço coro, eu baixo o tom. Eu não vou para a melódica, porque a gente já sabe que a guia melódica é Marisa”, explica.>
Em “Afrossinfonicidade”, vozes, cordas, percussões e referências ao Candomblé se encontram para construir um retrato da diversidade musical brasileira e de suas múltiplas influências. “O cancioneiro brasileiro está mais do que nunca com vários compositores, dentre eles, Carlinhos Brown, que é o expoente disso tudo”, finaliza Rodrigo Toffolo.>