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Aos 61, jardineiro que cortou grama todos os dias, por 23 anos, passa em 3º lugar para Enfermagem na UFPA e promete cuidar de pessoas de baixa renda

Alcyr Ataíde Carneiro dividia os dias entre trabalho, cursinho e revisões noturnas; aprovação ocorreu em 2020 e a história voltou a circular nas redes em 2026

  • Foto do(a) author(a) Jean Candido
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Jean Candido

  • Agência Correio

Publicado em 19 de agosto de 2026 às 20:13

Aglair Carneiro, então com 90 anos, corta o cabelo do filho Alcyr após a aprovação dele em terceiro lugar no curso de Enfermagem da UFPA, em 2020
Aglair Carneiro, então com 90 anos, corta o cabelo do filho Alcyr após a aprovação dele em terceiro lugar no curso de Enfermagem da UFPA, em 2020 Crédito: (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Na primeira chamada do listão da UFPA, o nome não apareceu. Alcyr Ataíde Carneiro estava em casa, ao lado do cachorro, acompanhando o resultado pelo rádio e começou a acreditar que não tinha conseguido.

A resposta veio na segunda turma anunciada. Quando ouviu o próprio nome entre os aprovados em Enfermagem, jogou o rádio contra a parede, saiu de bermuda pela rua e correu para procurar a mãe. Quando a encontrou, conseguiu apenas abraçá-la.

A cena aconteceu em janeiro de 2020. Aos 61 anos, depois de pelo menos 23 anos trabalhando com corte de grama em quintais de Belém, Alcyr havia conquistado o terceiro lugar no curso de Enfermagem da Universidade Federal do Pará na primeira tentativa de entrar no ensino superior. A história voltou a ganhar repercussão nas redes e em sites brasileiros em 2026.

A Universidade Federal do Pará recebeu Alcyr no curso de Enfermagem depois que ele conquistou o terceiro lugar na seleção de 2020 por (Foto: Reprodução/Alexandre de Moraes/UFPA)

Trabalho pela manhã

Alcyr havia terminado o ensino médio em 1979. Depois disso, trabalhou como recenseador, cobrador de ônibus, em serviços gerais e, por mais de duas décadas, cortando grama.

Quando decidiu tentar a universidade, a rotina precisou caber entre os horários de trabalho. Pela manhã, seguia atendendo os clientes. À tarde, frequentava o cursinho entre 13h30 e 18h. À noite, retomava as matérias em casa e, algumas vezes, continuava estudando pela madrugada.

Na sala, dividia espaço principalmente com alunos de 16 a 18 anos. A diferença de idade não mudou sua rotina: segundo contou na época, não faltava às aulas nem chegava atrasado. Em determinado período, chegou a ajudar na limpeza da escola para contribuir com o pagamento da mensalidade.

Jaleco no cabide

O quarto também virou lugar de estudo. Livros recebidos por doação e folhas usadas nos exercícios passaram a ocupar o espaço.

Entre eles havia um objeto que Alcyr fazia questão de manter à vista: um jaleco dado por um sobrinho médico.

A peça havia sido entregue para que ele a usasse enquanto trabalhava sob o sol. Alcyr preferiu lavá-la e pendurá-la no quarto. Quando o sono ou o cansaço apertavam, olhava para o jaleco e pensava na profissão que pretendia exercer. A própria UFPA registrou essa história ao apresentar seus novos calouros de 2020.

A escolha por Enfermagem também vinha de experiências anteriores. Alcyr contou ter passado por cinco cirurgias e guardava boas lembranças do atendimento recebido de médicos e profissionais de enfermagem nos hospitais.

Quatro canetas

No Enem, ele não quis deixar espaço para imprevistos. Chegou cedo, prestou atenção às orientações dos fiscais e nem levou o celular, com medo de que o aparelho pudesse tocar durante a prova.

Na bolsa, colocou quatro canetas, caso alguma falhasse. Depois de meses organizando a vida em torno dos estudos, permaneceu na sala até o fim do exame.

Meses depois, aquela preparação terminaria diante do rádio: terceiro lugar em Enfermagem.

Mãe raspou cabelo

A comemoração ganhou uma imagem que atravessou o país. Aos 90 anos, a mãe de Alcyr raspou o cabelo do filho, seguindo uma tradição dos novos universitários paraenses.

Sentado diante dela, ele segurava uma placa improvisada de papelão com a inscrição “Calouro 2020 Enfermagem UFPA”. A fotografia foi compartilhada dezenas de milhares de vezes nas redes sociais.

A vaga também tinha um objetivo além da mudança profissional. Alcyr dizia que queria melhorar a vida da família e, depois da formação, trabalhar com pessoas que precisassem de atendimento, especialmente aquelas de baixa renda.

Antes de saber se passaria, o jaleco já estava pendurado no quarto. Em 2020, depois de manhãs cortando grama, tardes no cursinho e noites diante dos livros, Alcyr finalmente tinha um motivo diferente para olhar para ele.

Tags:

Educação Entretenimento Curiosidades Enfermagem