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Aos 65 anos, carteiro faz 5 redações por semana e passa em primeira tentativa para estudar em uma das universidades públicas mais concorridas

Depois de décadas trabalhando nos Correios, Ruinatan Lopes de Souza decidiu tentar a universidade e conseguiu a vaga na primeira seleção.

  • Foto do(a) author(a) Kaíky Almeida
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Kaíky Almeida

  • Agência Correio

Publicado em 18 de agosto de 2026 às 23:07

Ruinatan Lopes de Souza comemora a aprovação para cursar Letras na Universidade de Brasília.
Ruinatan Lopes de Souza comemora a aprovação para cursar Letras na Universidade de Brasília. Crédito: Reprodução/Arquivo Pessoal

Aos 65 anos, Ruinatan Lopes de Souza trocou parte da rotina de carteiro por uma preparação intensa para realizar um plano que ficou adiado por décadas: entrar na universidade. Morador de Ceilândia, no Distrito Federal, ele trabalha nos Correios há 34 anos e conseguiu uma vaga em Letras, com habilitação em Tradução Espanhol, na Universidade de Brasília (UnB), na primeira seleção universitária que tentou.

O resultado veio depois de cerca de um mês e meio de preparação. Nesse período, ele acompanhou videoaulas e escreveu, em média, cinco redações por semana, contando com a ajuda da filha. A estratégia foi suficiente para levá-lo à aprovação pelo processo UnB 60+, destinado a pessoas com 60 anos ou mais. A seleção utiliza uma prova de redação em língua portuguesa.

Sonho ficou para depois

Ruinatan nasceu em Goianésia, em Goiás, e chegou a Brasília ainda criança. Aos 12 anos, passou a viver em Ceilândia, onde construiu boa parte da trajetória pessoal e profissional.

A universidade, porém, precisou esperar. Ele cresceu em uma família de nove irmãos e começou a trabalhar cedo, vendendo doces e jornais. Depois, vieram o casamento, os filhos e as despesas da casa. O ensino médio só terminou quando ele já trabalhava nos Correios.

O interesse pela graduação permaneceu, mas durante anos não chegou a se transformar em uma tentativa concreta. A oportunidade apareceu com o processo seletivo voltado ao público com mais de 60 anos.

Ruinatan Lopes de Souza comemora a aprovação para cursar Letras na Universidade de Brasília. por Reprodução/Arquivo Pessoal

Filha ajudou na preparação

A decisão de tentar a vaga ganhou força com o incentivo da filha, que havia acabado de se formar em Farmácia pela própria UnB. Ela ajudou o pai durante a preparação e acompanhou os exercícios de redação.

Ruinatan já tinha afinidade com idiomas antes mesmo de pensar na graduação. Ele estudava francês duas vezes por semana e escolheu Letras justamente para aprofundar esse interesse e começar uma formação ligada ao espanhol.

A preparação para a prova foi concentrada. Durante aproximadamente seis semanas, ele assistiu a aulas em vídeo e manteve uma rotina de cinco redações semanais. Os textos passavam pela avaliação da filha, que ajudava a identificar pontos que poderiam ser aprimorados.

Primeira prova, primeira aprovação

O vestibular para pessoas idosas da UnB é uma modalidade específica de acesso à graduação. Segundo a universidade, o processo atende candidatos com idade igual ou superior a 60 anos e utiliza uma redação em língua portuguesa como avaliação classificatória e eliminatória.

Foi por essa modalidade que Ruinatan chegou ao curso de Letras Tradução Espanhol, no período noturno. O resultado teve um significado especial porque aquela também era sua primeira experiência em um processo seletivo universitário.

A aprovação ainda ganhou uma comemoração em família. Ao voltar do trabalho, o carteiro encontrou parentes preparados para celebrar a notícia e foi recebido como o novo calouro da casa.

Trabalho e faculdade juntos

A nova etapa não significava abandonar a profissão. O plano de Ruinatan era manter o trabalho nos Correios durante o dia e frequentar as aulas da UnB à noite.

Assim, a graduação entraria em uma rotina que já incluía décadas de trabalho e a vida construída em Ceilândia. A escolha por Letras também dava continuidade a um interesse que ele já cultivava fora da universidade, especialmente pelo aprendizado de idiomas.

Foram anos de trabalho, responsabilidades familiares e um desejo mantido em segundo plano. Quando surgiu uma possibilidade de ingresso adequada à sua faixa etária, Ruinatan decidiu tentar e precisou de poucas semanas para se preparar.

A conquista não apagou a trajetória anterior. O carteiro continuava com o emprego e, ao mesmo tempo, começava uma experiência que havia ficado distante por décadas: ocupar uma sala de aula universitária.

Tags:

Brasil em Alta Superação