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Buraco no campo magnético sobre Brasil está se dividindo, um segundo ponto cresce sobre a África, e movimentação gera preocupação em empresas de satélites

Estudo de 2026 mostra que a Anomalia do Atlântico Sul já possui dois mínimos; região africana aumenta enquanto núcleo sobre a América do Sul encolhe

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 7 de setembro de 2026 às 21:55

Anomalia do Atlântico Sul forma uma enorme região de campo magnético enfraquecido sobre parte do Brasil, Atlântico e África
Anomalia do Atlântico Sul forma uma enorme região de campo magnético enfraquecido sobre parte do Brasil, Atlântico e África Crédito: Ilustração Jornal Correio

Existe uma espécie de “buraco” no escudo magnético da Terra sobre parte do Sul Global. Ele não pode ser visto, mas é grande o suficiente para preocupar operadores de satélites que atravessam a região.

Agora, cientistas descobriram que essa estrutura está passando por uma transformação ainda mais incomum. A chamada Anomalia do Atlântico Sul está dividida em dois pontos de intensidade mínima, e eles parecem estar se transformando.

Um estudo publicado no Journal of Geophysical Research: Solid Earth conseguiu separar pela primeira vez as duas regiões e acompanhar individualmente como elas mudam. O resultado mostra movimentos em direções opostas.

Movimentos de fluido condutor no núcleo externo ajudam a gerar o campo magnético da Terra por Andrew Z. Colvin / Wikimedia Commons

Escudo mais fraco

O campo magnético terrestre funciona como uma enorme proteção ao redor do planeta. Grande parte dele é produzida pelo movimento de metais líquidos no núcleo externo da Terra e ajuda a desviar partículas energéticas vindas do Sol e do espaço.

Na Anomalia do Atlântico Sul, porém, essa proteção fica consideravelmente mais fraca. Isso permite que partículas carregadas cheguem mais perto da superfície do que em outras regiões do planeta.

Para as pessoas caminhando na superfície, a mudança não provoca efeitos visíveis, segundo a NASA
Para as pessoas caminhando na superfície, a mudança não provoca efeitos visíveis, segundo a NASA Crédito: NASA

No espaço, a situação é diferente. Satélites que atravessam a área ficam expostos a níveis maiores de partículas cósmicas, capazes de interferir em computadores de bordo, eletrônicos e coleta de dados.

Divisão começou em 2008

A existência de dois pontos fracos não surgiu de repente em 2026. Os pesquisadores identificam 2008 como o período em que um novo mínimo local começou a aparecer na região africana, separando progressivamente a estrutura antes tratada como uma única grande anomalia.

O problema era descobrir o que cada metade fazia individualmente. Como os dois mínimos pertencem à mesma região enfraquecida, modelos tradicionais tinham dificuldade para estabelecer onde terminava a influência de um e começava a do outro.

Yaochen Yue e os demais pesquisadores desenvolveram então um novo método topológico capaz de dividir a anomalia em sub-regiões associadas a cada mínimo e calcular como suas áreas e centros mudam com o passar do tempo.

O trabalho reúne pesquisadores de instituições da China e França e também Victor Marum, ligado ao Instituto de Geociências da Unicamp, em Campinas
O trabalho reúne pesquisadores de instituições da China e França e também Victor Marum, ligado ao Instituto de Geociências da Unicamp, em Campinas Crédito: Daniel Candido / Wikimedia Commons

Dois pontos caminham

A análise revelou um comportamento quase como uma disputa territorial. A região relacionada ao mínimo principal da América do Sul encolhe, enquanto a área associada ao mínimo africano aumenta.

Ao mesmo tempo, os dois centros estão se deslocando para oeste. Só que não na mesma velocidade: segundo o estudo, o mínimo sul-americano se move aproximadamente quatro vezes mais rápido que o africano.

Movimento vem do interior

A origem da anomalia está milhares de quilômetros abaixo dos satélites que sofrem seus efeitos.

O campo magnético principal nasce do movimento do ferro líquido no núcleo externo, mas sua configuração na superfície também recebe influência de estruturas e processos complexos no interior terrestre.

Os pesquisadores também olharam para reconstruções do passado. Os resultados indicam que expansões da região anômala e mudanças relativas entre diferentes mínimos já ocorreram ao longo do último milênio.

Tags:

Brasil Planeta Nasa Geologia África sul America