Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 2 de junho de 2026 às 16:16
Frank Sinatra foi um dos artistas mais famosos do século 20, dono de sucessos como “My Way” e “New York, New York”. No entanto, a fama do cantor também foi acompanhada por uma mancha recorrente em sua imagem: as supostas ligações com a máfia ítalo-americana.>
Filho de imigrantes sicilianos, Sinatra manteve relações próximas com figuras poderosas do submundo, sendo a mais conhecida delas Sam Giancana, chefe do Chicago Outfit. O cantor nunca foi julgado nem condenado formalmente por essas conexões, mas apareceu em diversos documentos do FBI.>
Frank Sinatra
defesa comum utilizada na televisão quando questionado sobre suas amizadesFrank Sinatra
A relação entre Sinatra e Giancana nunca foi exatamente um segredo. Ainda assim, dois episódios ajudam a mostrar a profundidade do vínculo entre o cantor e o mafioso.>
O primeiro ocorreu em 1963, no caso envolvendo o resort Cal-Neva Lodge, propriedade de Sinatra. Três anos antes, em 1960, o estado de Nevada, onde ficava o resort, havia criado uma lista negra com pessoas proibidas de entrar em seu território. No topo dela estava Sam Giancana.>
Segundo um memorando do FBI, Giancana teria se hospedado no resort de Sinatra em 1963, mesmo proibido de estar em Nevada. No local, ele teria recebido tratamento VIP. A visita levou o Gaming Control Board, responsável por fiscalizar jogos e cassinos no estado, a abrir uma acusação contra o cantor.>
De acordo com a KUNR, com base em depoimentos orais de autoridades da época, Sinatra reagiu com agressividade verbal contra Ed Olsen, chefe do conselho. Ele também teria tentado se comportar como se fosse “maior que o Estado de Nevada”, em uma atitude que sugeria disposição para usar sua influência em defesa de Giancana.>
O desgaste público e político foi grande para Sinatra. Em 22 de outubro de 1963, ele teve de recuar. A Gaming Control Board retirou as licenças de jogos de suas propriedades. Mais tarde, o resort passou a se chamar Cal-Neva Lodge e fechou as portas em 2013.>
As amizades de Frank Sinatra com figuras do submundo também vieram à tona durante as eleições de 1960. Supostamente, ele teria atuado como um canal de comunicação entre o então senador John F. Kennedy e a máfia, por meio de Judith Campbell Exner.>
Sinatra teria apresentado Exner a Kennedy durante as primárias de 1960, em uma aproximação que, segundo relatos, atenderia a interesses de Giancana. Em uma confissão feita em 1975, Exner afirmou que círculos mafiosos tinham interesse em favorecer a vitória dos democratas, especialmente a do senador.>
A confissão, porém, não tratou apenas da eleição de 1960. Ela também abordou eventos ligados a Cuba. Segundo Exner, ela teria servido como ponte entre a CIA e mafiosos como Giancana e Johnny Roselli em tentativas de derrubar Fidel Castro.>
Em depoimentos posteriores, feitos em 1988, Exner acrescentou novos elementos à versão. Entre eles, afirmou ter transportado dinheiro e documentos ligados à “eliminação” de Castro. Até hoje, essa narrativa segue sendo objeto de pesquisa e debate.>
Em entrevista à CBS News, Tina Sinatra afirmou que o pai cresceu em Nova Jersey “ao redor de gângsters”. Segundo ela, mafiosos controlavam casas noturnas onde Sinatra, mais tarde, se apresentaria. Esse argumento também era usado pelo próprio cantor para sustentar a ideia de que sua ligação com o crime organizado teria sido quase involuntária.>
Essa tese, porém, era contestada por agentes externos. Em entrevista ao History, o agente do FBI Sam Ruffino afirmou: “Esses eram os amigos dele.” Em seguida, reforçou: “Ele não se importava, ia andar com quem quisesse.”>
A má-fama envolvendo Sinatra, assim como outros cantores ítalo-americanos, acabou sendo associada diretamente a um personagem da ficção: Johnny Fontane.>
Na trama, Fontane é um cantor famoso que usa suas amizades no crime organizado para conseguir contratos importantes. A prática também foi atribuída a Sinatra em boatos antigos.>
A cena ecoa um boato famoso envolvendo Sinatra e a produção de From Here to Eternity, de 1953. Apesar de não haver comprovação factual, como mostrou uma pesquisa da The New Yorker, circulou nos anos 1950 a história de que a máfia teria intimidado Harry Cohn, chefe da Columbia Pictures e produtor do filme, para que Sinatra fosse escalado.>