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'Cataratas de sangue' na Antártida escondem descendentes de antigas criaturas marinhas, revela novo estudo

Fenômeno do Glaciar Taylor intriga pela água vermelha e agora revela microrganismos ligados a um antigo ambiente oceânico

  • Foto do(a) author(a) Bianca Hirakawa
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Bianca Hirakawa

  • Agência Correio

Publicado em 19 de agosto de 2026 às 19:46

Estudo encontrou sinais de comunidades marinhas adaptadas ao frio extremo e isoladas sob o gelo durante longos períodos
Estudo encontrou sinais de comunidades marinhas adaptadas ao frio extremo e isoladas sob o gelo durante longos períodos Crédito: Imagem gerada por IA

Parece cena de filme: no meio do gelo da Antártida, um líquido vermelho escorre pela paisagem. Mas o fenômeno conhecido como Cataratas de Sangue acaba de revelar um segredo ainda mais antigo. 

Um novo estudo publicado na Nature Geoscience encontrou microrganismos ativos com forte ligação a ambientes marinhos nas proximidades do Glaciar Taylor. A pesquisa analisou 167 amostras e identificou sinais de comunidades derivadas de um antigo ambiente oceânico que ficou isolado pelo avanço do gelo. 

A origem marinha de parte dos microrganismos encontrados na região é uma das pistas que sustentam a hipótese de que antigas águas do oceano chegaram ao Vale Taylor antes de ficarem isoladas sob o gelo por Peter Rejcek, NSF / Wikimedia Commons

O que existe por trás da água vermelha?

Os pesquisadores encontraram uma comunidade de microeucariotos, organismos microscópicos cujas células possuem núcleo, concentrada nas áreas influenciadas pela salmoura vermelha.

Entre os grupos identificados estão diatomáceas, dinoflagelados, haptófitas e ciliados, organismos associados a ambientes marinhos. Eles apareceram com mais força perto da saída da salmoura do que em outros pontos analisados nos Vales Secos de McMurdo.

Um dos sinais mais curiosos está nas diatomáceas. Segundo os dados apresentados pela pesquisa, organismos associados ao mar chegaram a representar mais de 60% e, em algumas análises, cerca de 80% da comunidade de diatomáceas nas amostras próximas às Cataratas de Sangue.

Como criaturas marinhas foram parar sob o gelo?

A explicação apontada pelos pesquisadores remete a um passado muito diferente do atual.

A hipótese é que água do mar tenha alcançado o Vale Taylor durante períodos mais quentes. Depois, mudanças no nível do mar e o avanço do glaciar teriam isolado parte dessa água salgada sob o gelo.

Com o tempo, o ambiente ficou extremamente frio e salgado, separado do oceano moderno. Os organismos que permaneceram nesse sistema passaram por processos de seleção e adaptação às condições extremas.

Isso significa que os microrganismos encontrados hoje não são simplesmente cópias de uma antiga comunidade oceânica. Eles carregam sinais dessa origem, mas também apresentam características moldadas pelo longo período de isolamento.

Por que a água parece sangue?

Apesar da aparência impressionante, a coloração vermelha não vem principalmente dos microrganismos.

O tom está relacionado ao ferro presente na salmoura. Quando o líquido rico em ferro chega à superfície e entra em contato com o ambiente, ocorrem reações que formam materiais avermelhados sobre o gelo.

A salmoura também contém sais, sílica e outros materiais, criando um ambiente bastante diferente do restante da paisagem antártica.

Uma janela para o passado da Antártida

A descoberta chama atenção porque os organismos encontrados funcionam como uma espécie de pista biológica de mudanças que aconteceram há muito tempo.

Ao estudar essas comunidades, os cientistas conseguem investigar como a vida consegue resistir ao frio e à alta salinidade e, ao mesmo tempo, entender melhor como antigas mudanças climáticas transformaram a relação entre oceano, gelo e continente na Antártida.

O que parece apenas uma “cachoeira de sangue” sobre o gelo, portanto, guarda uma história muito mais profunda: microrganismos atuais ainda carregam sinais de uma época em que aquela paisagem tinha uma ligação diferente com o mar.

Tags:

Sangue Cachoeira Antártida