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Chimpanzés e bonobos surpreendem cientistas com 'ritual' de abraços, beijos e carinhos para evitar brigas: "É como aquela conversa silenciosa que diz que vamos ficar juntos nessa"

Novo estudo revela que chimpanzés e bonobos usam abraços, beijos e carinhos para manter a paz, comportamento que pode ter raízes na evolução humana

  • Foto do(a) author(a) Bianca Hirakawa
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Bianca Hirakawa

  • Agência Correio

Publicado em 14 de agosto de 2026 às 05:05

De “trens de abraços” a gestos inusitados, pesquisa mostra como primatas controlam conflitos e reforçam laços sociais antes de momentos de tensão
De “trens de abraços” a gestos inusitados, pesquisa mostra como primatas controlam conflitos e reforçam laços sociais antes de momentos de tensão Crédito: Pexels

Sabe quando alguém percebe que o clima está ficando tenso e dá aquele abraço para acalmar as coisas? Chimpanzés e bonobos parecem ter uma estratégia parecida. Um estudo descobriu que os primatas usam abraços, beijos, afagos e outros tipos de contato físico antes de situações que podem gerar conflitos.

A pesquisa foi publicada na revista Proceedings of the Royal Society B e ajuda a entender melhor como esses animais convivem em grupo.

Chimpanzés são grandes símios, não macacos; como outros símios, eles não têm cauda por Hans Hillewaert / Wikimedia Commons

Abraços antes da confusão

Para observar esse comportamento, pesquisadores acompanharam chimpanzés e bonobos em santuários na República Democrática do Congo e na Zâmbia. Os animais receberam uma quantidade limitada de amendoins, criando uma situação em que vários indivíduos precisavam dividir o mesmo espaço e disputar a comida.

Foi aí que apareceu um detalhe curioso. Os animais que tinham trocado mais contatos amigáveis antes da alimentação apresentaram maior tendência a permanecer tranquilos durante a refeição.

Ou seja, parece que um pouco de carinho antes da disputa ajudava a evitar problemas depois.

Não era só abraço

Os pesquisadores registraram vários tipos de contato entre os animais. Entre eles estavam abraços, beijos, afagos e tapinhas. Alguns comportamentos podem parecer estranhos para nós, mas também faziam parte dessa interação social.

A ideia é que esses gestos funcionem como uma espécie de sinal: “reassurance trains”, algo como “trens de tranquilização”.

Vários animais se abraçavam por trás, formando uma espécie de fila.

Segundo os pesquisadores, o comportamento pode ajudar a reforçar os laços entre os integrantes do grupo antes de momentos de competição.

É quase como aquela conversa silenciosa que diz: “vamos ficar juntos nessa”.

Bonobos e chimpanzés têm suas próprias maneiras

Apesar de os dois primatas apresentarem comportamentos semelhantes, os pesquisadores encontraram algumas diferenças.

Entre os bonobos, as fêmeas eram mais propensas a trocar contatos amigáveis com outras fêmeas.

Nos chimpanzés, por outro lado, os machos apresentaram mais contato físico com outros machos.

Os cientistas relacionam essas diferenças à maneira como cada espécie organiza seus grupos sociais.

Bonobos e chimpanzés têm suas próprias maneiras

Outro ponto interessante é que o comportamento não apareceu da mesma forma em todos os grupos observados.

A relação entre contato físico e convivência tranquila foi mais forte em grupos considerados mais tolerantes socialmente.

Já em grupos com estruturas de liderança mais rígidas, esse efeito não apareceu da mesma maneira.

Isso indica que o ambiente social pode influenciar bastante a forma como os animais usam o toque para lidar com situações de tensão.

Alguns gestos são bem mais curiosos

Entre os chimpanzés, os pesquisadores observaram comportamentos que podem parecer bastante incomuns para os humanos.

Em algumas situações, um animal colocava a mão ou os dedos na boca de outro.

Também foram registrados contatos com partes íntimas do corpo.

Apesar de parecerem atitudes arriscadas, os cientistas acreditam que esses gestos podem estar ligados à confiança entre os indivíduos.

A lógica é simples: permitir que outro animal se aproxime de uma região vulnerável pode ser um sinal de que existe confiança naquela relação.

Mas o que isso tem a ver com os humanos?

É justamente aí que o estudo fica ainda mais interessante.

Nós também usamos o contato físico para aliviar situações desconfortáveis. Um abraço depois de uma discussão, um aperto de mão ou um tapinha no ombro podem transmitir confiança sem precisar de muitas palavras.

Chimpanzés, bonobos e humanos compartilham um ancestral comum que viveu há milhões de anos.

Por isso, os pesquisadores consideram a possibilidade de que o uso do contato físico para fortalecer relações e diminuir conflitos tenha raízes muito antigas na evolução dos primatas.

Carinho pode ser uma ferramenta social

A pesquisa ajuda a mostrar que esses comportamentos não são necessariamente apenas demonstrações de afeto.

Em determinadas situações, eles podem ter uma função bem prática: manter os relacionamentos funcionando mesmo quando existe competição.

No caso dos chimpanzés e bonobos, um abraço pode ser mais do que um gesto fofo.

Pode ser uma maneira de dizer, sem nenhuma palavra: “estamos bem”.

Tags:

Ciência Afeto Curiosidades Chimpanzé