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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 9 de junho de 2026 às 20:20
Alcântara, município maranhense localizado em frente à capital São Luís, é uma das cidades mais singulares do Brasil. Em um mesmo território, ela reúne herança colonial, cultura quilombola e um centro de lançamento espacial. >
Com menos de 19 mil habitantes, a cidade tem um centro histórico com atrações que podem ser conhecidas a pé. Esse conjunto ajuda a transformar Alcântara em um dos destinos mais curiosos do Maranhão, ao lado de pontos famosos do estado, como os Lençóis Maranhenses.>
Alcântara
Nascida a partir do antigo núcleo de Tapuitapera, Alcântara viveu seu auge durante o período imperial, impulsionada pela produção e exportação de suas fazendas. Depois, a crise econômica, o fim da escravidão e a decadência das antigas elites atingiram fortemente a cidade.>
Sem a mão de obra escravizada que sustentava parte da produção local, a economia perdeu força. Com isso, muitas famílias ricas e profissionais especializados deixaram o município em direção a outras regiões.>
Esse esvaziamento ajudou a preservar, ainda que em ruínas, um importante conjunto arquitetônico colonial. O centro histórico foi tombado pelo Iphan em 1948, e Alcântara passou a ser reconhecida como cidade monumento nacional.>
O cartão-postal do conjunto histórico é a Praça da Matriz, onde ficam as ruínas da Igreja de São Matias, o pelourinho e a antiga Casa da Câmara e Cadeia.>
Além dela, há vários pontos de interesse histórico e religioso. Entre eles estão o Museu Histórico e Artístico de Alcântara, com acervo de mobiliário, arte sacra e joias de irmandades; a Igreja e Convento de Nossa Senhora do Carmo, iniciada no século 17; e a Igreja do Rosário dos Pretos, ligada à história da população negra local.>
Outro destaque é a famosa história das ruínas do imperador. Segundo a tradição, dois barões disputavam a honra de receber Dom Pedro II em uma eventual visita à cidade e mandaram erguer palácios em sua homenagem: o Palácio do Barão de Mearim e o Palácio do Barão de Pindaré.>
No entanto, a visita imperial nunca aconteceu. Com isso, as construções rivais de Mearim e Pindaré foram abandonadas antes de serem concluídas. Hoje, os dois palácios inacabados estão entre as ruínas mais conhecidas de Alcântara.>
Segundo o Censo 2022, Alcântara tem a maior proporção de população quilombola entre os municípios brasileiros. Quase 85% dos moradores se autodeclaram pertencentes a esse grupo. O território quilombola oficialmente delimitado do município reúne 9.344 pessoas quilombolas, de acordo com o IBGE.>
Essa população está diretamente ligada ao processo que também deu origem às ruínas do centro histórico. Com o esvaziamento econômico e a saída de antigos proprietários, populações negras, indígenas e tradicionais permaneceram no território e moldaram profundamente a demografia local.>
Apesar de formar a maioria da população, a comunidade quilombola de Alcântara ainda enfrenta conflitos fundiários e sociais. A AGU reconheceu violações relacionadas ao direito à propriedade coletiva e à demora na regularização territorial.>
Em 2024, o governo federal firmou um acordo para avançar no reconhecimento do território quilombola. Em 2026, novas medidas e títulos de domínio foram divulgados como parte de uma tentativa de reparação histórica.>
Alcântara também abriga o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), uma das principais instalações dedicadas à atividade espacial no Brasil. A outra base histórica do país é o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim, no Rio Grande do Norte.>
A instalação da base no município tem razões estratégicas. A principal delas é a localização, a 2°18' ao sul da Linha do Equador. Lançamentos feitos a partir dessa posição podem aproveitar melhor a rotação da Terra, tornando os voos mais eficientes.>
Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a proximidade de Alcântara com a Linha do Equador pode reduzir em até 30% o custo de lançamento de foguetes, devido à economia de combustível.>