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Agência Correio
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 05:06
Em 18 de março de 1965, a União Soviética realizou um feito inédito na corrida espacial: colocou o cosmonauta Alexei Leonov para fora de uma nave e o transformou no primeiro ser humano a caminhar no espaço. A missão Voskhod 2, comandada por Pavel Belyayev, partiu do cosmódromo de Baikonur, no atual Cazaquistão, em uma disputa direta com os Estados Unidos pela primazia na exploração espacial.>
A façanha, porém, esteve perto de terminar em tragédia. Cerca de 12 minutos depois de deixar a nave, Leonov percebeu que havia um problema grave: seu traje pressurizado havia se expandido no vácuo e não passava pela eclusa usada para retornar à cabine.>
Telescópio - imagens do espaço e da Terra
A situação exigiu uma decisão que não fazia parte do procedimento previsto. Para conseguir voltar, o cosmonauta precisou reduzir a pressão dentro do próprio traje e se espremer pela abertura.>
A Voskhod 2 havia sido projetada com uma cabine pequena, sem espaço para uma saída convencional. Para permitir a caminhada espacial sem despressurizar todo o interior da nave, os soviéticos desenvolveram uma eclusa inflável chamada Volga.>
Leonov entrou no compartimento, conectou o cabo que o mantinha ligado à nave e, depois que o ar foi retirado da eclusa, abriu a escotilha durante a segunda órbita da missão.>
Preso por um cabo de pouco mais de cinco metros, ele passou a flutuar sobre a Terra a mais de 500 quilômetros de altitude. A experiência era inédita: não havia chão, atmosfera ou qualquer estrutura ao redor além da própria nave e do equipamento que mantinha o cosmonauta vivo.>
A paisagem também provocou uma impressão marcante em Leonov. Do espaço, ele conseguiu perceber diretamente a curvatura do planeta, uma visão diferente daquela proporcionada por aeronaves ou pelas primeiras imagens de satélite.>
O principal problema surgiu por causa do comportamento do traje Berkut no vácuo. Na Terra, a atmosfera exerce pressão sobre o exterior do equipamento. No espaço, essa contrapressão desaparece. A pressão interna necessária para manter Leonov vivo fez o traje se expandir, deixando o tecido rígido e dificultando os movimentos das articulações.>
O resultado foi que o cosmonauta passou a ter dificuldade para controlar os próprios braços e pernas. O equipamento, que deveria protegê-lo do ambiente espacial, acabou se tornando um obstáculo para a própria missão.>
A caminhada espacial durou pouco mais de 12 minutos, mas o tempo foi suficiente para transformar a primeira experiência desse tipo em uma emergência.>
Quando chegou o momento de voltar à nave, Leonov descobriu que o problema era ainda maior do que imaginava. O traje inflado não conseguia passar pela eclusa Volga na posição planejada.>
Não havia um procedimento testado em condições reais que resolvesse aquela situação. Do lado de fora, o cosmonauta tinha uma quantidade limitada de oxigênio e precisava agir rapidamente.>
Leonov decidiu então diminuir deliberadamente a pressão do traje. A manobra reduziu seu volume e tornou o equipamento um pouco mais flexível, mas também aumentou os riscos para sua própria segurança.>
Com o traje parcialmente despressurizado, ele conseguiu se posicionar de cabeça e forçar a passagem pela eclusa. Depois de muito esforço, finalmente conseguiu retornar ao interior da nave.>
Leonov estava exausto e coberto de suor. O calor acumulado dentro do traje, combinado com o esforço físico necessário para vencer a rigidez do equipamento, havia transformado aqueles poucos minutos em uma prova extrema de resistência.>
O episódio do traje não foi o único momento crítico da Voskhod 2. Durante o retorno, a nave também apresentou problemas no sistema de orientação. A concentração de oxigênio dentro da cabine aumentou perigosamente, criando um ambiente potencialmente explosivo. Além disso, a reentrada não ocorreu exatamente como planejado.>
A cápsula acabou pousando na região da taiga siberiana, longe do local originalmente previsto. Leonov e Belyayev precisaram esperar pelo resgate em condições difíceis, no frio e em uma área remota.>
Assim, a missão que começou com a primeira caminhada espacial terminou com mais uma situação de sobrevivência.>
A União Soviética já havia conquistado um dos maiores marcos da corrida espacial ao enviar Iuri Gagarin ao espaço em 1961. Quatro anos depois, o país queria novamente chegar primeiro a uma conquista que os Estados Unidos ainda não haviam realizado.>
O americano Ed White só faria sua caminhada espacial em junho de 1965, três meses depois de Leonov.>
A pressão pela primazia ajuda a explicar algumas das soluções utilizadas na Voskhod 2. A eclusa inflável, por exemplo, permitiu realizar a caminhada sem modificar radicalmente o interior da pequena nave.>
Na prática, porém, a missão mostrou que colocar um ser humano no vácuo era muito mais complexo do que os testes em solo conseguiam reproduzir.>
O problema enfrentado por Leonov também ajudou a demonstrar a importância do controle da pressão e da mobilidade dos trajes espaciais.>
Os equipamentos utilizados atualmente possuem sistemas muito mais sofisticados de controle de pressão, além de articulações projetadas para permitir movimentos mais eficientes. Procedimentos de emergência também consideram situações que poderiam comprometer a segurança do astronauta durante uma saída extraveicular.>
Mais de seis décadas depois, as caminhadas realizadas na Estação Espacial Internacional e os preparativos para futuras missões lunares ainda carregam lições da experiência soviética.>
A diferença é que os astronautas atuais contam com equipamentos desenvolvidos especificamente para reduzir os riscos que, em 1965, Leonov precisou enfrentar praticamente em tempo real.>
A primeira caminhada espacial costuma ser lembrada como uma vitória da União Soviética na corrida espacial. Mas, por trás do feito, havia uma missão com uma margem de segurança muito menor do que a propaganda oficial deixava transparecer.>
Leonov não apenas saiu da nave: ele precisou descobrir, já no espaço, que seu traje havia se tornado grande demais para permitir seu retorno.>
Sua decisão de reduzir a pressão interna e forçar a passagem pela eclusa foi fundamental para que conseguisse sobreviver.>
A imagem daquele cosmonauta flutuando a centenas de quilômetros da Terra, preso à nave por um cabo de poucos metros, resume a natureza da corrida espacial dos anos 1960: avanços tecnológicos extraordinários conviviam com equipamentos ainda pouco testados em situações reais.>
A Voskhod 2 entrou para a história por realizar a primeira caminhada espacial. Mas o episódio de Leonov também deixou outra marca: mostrou que, naquele estágio da exploração espacial, a diferença entre uma conquista histórica e uma tragédia podia depender de poucos centímetros, minutos de oxigênio e uma decisão tomada sozinho no vazio.>