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Frase do dia da Filosofia: 'O tempo que você já perdeu em um lugar não é motivo para entregar a ele também o tempo que ainda resta' - a reflexão inspirada em Kierkegaard sobre a dificuldade de ir embora

O filósofo dinamarquês refletiu sobre escolha, angústia e responsabilidade diante da própria existência, ideias que ajudam a pensar por que tantas pessoas permanecem em relacionamentos, empregos e situações que já não desejam apenas porque dedicaram anos da vida a eles

  • Foto do(a) author(a) Fernanda Varela
  • Fernanda Varela

Publicado em 4 de outubro de 2026 às 00:45

Kierkegaard
Kierkegaard Crédito: Imagem gerada por IA

“O tempo que você já perdeu em um lugar não é motivo para entregar a ele também o tempo que ainda resta.” A frase não é uma citação literal de Søren Kierkegaard, mas uma reflexão inspirada em temas centrais de sua filosofia, especialmente a escolha, a angústia diante das possibilidades e a responsabilidade de decidir como continuar vivendo.

Existe uma armadilha muito humana em permanecer em alguma coisa apenas porque já permanecemos por muito tempo. Acontece no relacionamento que deixou de fazer sentido, no emprego que provoca infelicidade, na amizade sustentada apenas pela história e até em projetos pessoais que já não representam aquilo que queremos. Quanto maior o tempo investido, mais difícil parece admitir que talvez seja hora de seguir outro caminho.

O pensamento de Kierkegaard colocou a angústia no centro da experiência humana, entendendo-a também como parte da liberdade de poder escolher diferentes possibilidades para a própria vida por Reprodução

Depois de dez anos em uma relação, terminar pode trazer a sensação de que aquela década foi desperdiçada. Depois de quinze anos em uma profissão, mudar de carreira parece jogar fora tudo o que foi construído. Depois de uma amizade que atravessou a juventude, afastar-se pode parecer uma negação de todas as experiências compartilhadas.

Mas o passado não precisa funcionar como uma dívida que o futuro é obrigado a pagar.

Uma história pode ter sido importante e ainda assim terminar. Um relacionamento pode ter proporcionado anos felizes antes de deixar de funcionar. Uma profissão pode ter feito sentido durante uma fase e deixar de representar quem aquela pessoa se tornou. Reconhecer uma mudança não apaga automaticamente o valor daquilo que existiu antes.

O problema aparece quando o tempo já investido se transforma na principal justificativa para continuar. A pergunta deixa de ser “eu ainda quero estar aqui?” e passa a ser “como vou abandonar tudo depois de tantos anos?”. Nesse momento, a pessoa pode começar a oferecer também os próximos anos para tentar justificar aqueles que já passaram.

As reflexões de Kierkegaard sobre escolha ajudam a compreender por que mudar pode provocar tanta angústia. Escolher um caminho também significa abrir mão de outros, e nenhuma decisão importante vem acompanhada da certeza absoluta sobre aquilo que acontecerá depois. Permanecer no conhecido, mesmo quando ele já não satisfaz, pode parecer menos assustador do que enfrentar uma possibilidade cujo resultado ainda não conhecemos.

Isso não significa que todo desconforto seja motivo para ir embora. Relacionamentos atravessam crises, carreiras possuem períodos difíceis e projetos importantes exigem persistência. Desistir diante de qualquer obstáculo também pode impedir a construção de coisas que precisam de tempo.

A questão é outra: perceber quando permanecemos porque ainda encontramos sentido naquela escolha e quando permanecemos principalmente porque temos medo de admitir quanto já investimos nela.

Há uma diferença enorme entre lutar por algo que ainda queremos e continuar apenas para não considerar perdido aquilo que já oferecemos. O primeiro movimento olha para o futuro. O segundo tenta modificar um passado que nenhuma decisão presente consegue recuperar.

Talvez algumas despedidas sejam tão dolorosas justamente porque exigem duas aceitações ao mesmo tempo. É preciso reconhecer que determinada fase terminou e aceitar que não podemos voltar atrás para escolher diferente. O que ainda pode ser escolhido é o destino do tempo que permanece.

Porque cinco anos entregues a uma situação que já não fazia bem não precisam virar dez apenas para justificar os primeiros cinco. O passado pode explicar por que você permaneceu até aqui, mas não precisa decidir quanto do seu futuro ainda será entregue ao mesmo lugar.