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Frase do dia da Psicologia: “Não confio nos sentimentos - nem nos meus, nem nos dos outros.” - a reflexão de Contardo Calligaris sobre a dificuldade de confiar nas próprias emoções

Contardo Calligaris provoca uma reflexão incômoda sobre algo que costumamos fazer sem perceber: tratar aquilo que sentimos como se fosse uma verdade absoluta

  • Foto do(a) author(a) Fernanda Varela
  • Fernanda Varela

Publicado em 13 de agosto de 2026 às 00:30

A força das reflexões de Contardo Calligaris está em uma ideia simples, mas desconfortável: compreender o outro exige, muitas vezes, primeiro reconhecer aquilo que existe dentro de nós
A força das reflexões de Contardo Calligaris está em uma ideia simples, mas desconfortável: compreender o outro exige, muitas vezes, primeiro reconhecer aquilo que existe dentro de nós Crédito: Divulgação

Mas sentimento não é necessariamente realidade. Podemos sentir medo sem estar diante de um perigo, desconfiar sem ter provas, interpretar um silêncio como rejeição ou acreditar que alguém mudou quando, na verdade, estamos apenas olhando para aquela pessoa a partir das nossas próprias inseguranças.

A emoção é real, mas a interpretação que fazemos dela pode estar equivocada.

A força das reflexões de Contardo Calligaris está em uma ideia simples, mas desconfortável: compreender o outro exige, muitas vezes, primeiro reconhecer aquilo que existe dentro de nós por Divulgação

É justamente aí que a frase ganha força. Não confiar cegamente nem nos próprios sentimentos significa aprender a observá-los antes de transformá-los em decisões, acusações ou certezas.

Quantas vezes uma pessoa sente que está sendo ignorada e imediatamente conclui que o outro perdeu o interesse? Quantas vezes o medo de ser abandonado faz alguém enxergar sinais de abandono onde eles não existem? Quantas relações são desgastadas porque uma sensação foi tratada como prova?

Também existe o outro lado: confiar demais nos sentimentos alheios pode nos fazer acreditar que sabemos exatamente o que alguém sente, pensa ou pretende. E nem sempre sabemos.

As pessoas podem dizer que amam e agir de maneira contraditória. Podem demonstrar carinho e, ainda assim, estar confusas. Podem sentir algo hoje e perceber amanhã que aquilo mudou. Sentimentos não são contratos e nem permanecem necessariamente iguais.

Isso não significa viver desconfiando de tudo ou ignorar as próprias emoções. Pelo contrário. O autoconhecimento começa justamente quando conseguimos olhar para aquilo que sentimos sem obedecer automaticamente a cada sensação.

Sentir ciúme não significa que existe uma traição. Sentir medo não significa que algo ruim vai acontecer. Sentir raiva não significa que o outro seja culpado. Sentir saudade não significa necessariamente que devemos voltar.

Maturidade emocional também é conseguir fazer uma pausa entre sentir e agir.

Talvez essa seja uma das partes mais difíceis de compreender sobre nós mesmos: podemos estar absolutamente convencidos de alguma coisa e, ainda assim, estar errados.

Por isso, algumas emoções precisam ser escutadas, mas também questionadas. Antes de perguntar “por que essa pessoa está fazendo isso comigo?”, talvez seja necessário perguntar “o que exatamente está acontecendo dentro de mim para que eu esteja interpretando dessa maneira?”.

Nem todo sentimento precisa ser combatido. Mas nenhum sentimento deveria ter autoridade absoluta sobre a nossa realidade.