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Fruta amarela típica do Cerrado esconde milhares de espinhos e vira estrela de arroz, galinhada e até pamonha

De cheiro forte e polpa dourada, o pequi é tradição em Minas Gerais e Goiás, mas exige cuidado na hora de comer por causa do caroço cheio de espinhos

  • Foto do(a) author(a) Helena Merencio
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Helena Merencio

  • Agência Correio

Publicado em 15 de agosto de 2026 às 22:23

Por baixo da polpa dourada do pequi está um caroço repleto de pequenos espinhos que não deve ser mordido
Por baixo da polpa dourada do pequi está um caroço repleto de pequenos espinhos que não deve ser mordido Crédito: Ilustração gerada por IA

Uma panela de arroz ainda está no fogo e o cheiro já tomou a cozinha inteira. Forte, adocicado e difícil de confundir com qualquer outro ingrediente, o aroma vem de um fruto que faz parte da mesa de muitas famílias de Goiás, Minas Gerais e de outros estados onde o Cerrado atravessa a paisagem.

Por fora, o pequi (Caryocar brasiliense) pouco entrega do que guarda. A casca verde envolve uma polpa de amarelo intenso, rica em óleo e responsável pelo sabor marcante usado em arroz, galinhadas, molhos, conservas e até versões regionais de pamonha.

Pequi por Reprodução / FreePik / IStock

O cuidado aparece na hora de comer. Logo abaixo da parte carnosa está um caroço coberto por pequenos espinhos. Quem tenta mordê-lo como faria com outras frutas pode terminar a refeição com um problema bastante doloroso na boca.

Fruto com gosto de Cerrado

Pequi vem de árvores nativas do Cerrado e ocupa um espaço que vai além da cozinha. A coleta e a comercialização do fruto movimentam comunidades durante a safra e fazem parte da cultura alimentar de diferentes regiões do Brasil Central.

Sua principal característica está na polpa amarela e bastante oleosa. Durante o cozimento, ela libera gordura e aroma, deixando o sabor espalhado pelo restante do prato.

É justamente essa intensidade que costuma dividir opiniões. Há quem espere o ano inteiro pela temporada e quem não consiga passar perto de uma panela com pequi sem estranhar o cheiro.

Nas receitas mais conhecidas, os caroços são cozidos junto ao arroz ou à carne. Galinhada com pequi é uma combinação tradicional, enquanto a polpa também aparece em molhos, cremes, conservas, licores e preparações feitas com milho.

Espinhos ficam escondidos

A aparência macia da polpa pode enganar quem nunca comeu pequi. Depois da camada amarela existe uma estrutura rígida revestida por grande quantidade de espinhos finos.

Por isso, o caroço não deve ser mordido.

O costume é segurá-lo e retirar a polpa aos poucos com os dentes da frente, em movimentos leves. Quando o amarelo começa a desaparecer e a parte mais clara do caroço fica exposta, é hora de parar.

Caso os espinhos entrem na língua, gengiva ou em outra região da boca, tentar retirá-los de qualquer maneira pode piorar a lesão. Dependendo da quantidade e da profundidade, pode ser necessário procurar atendimento profissional.

Do arroz à pamonha

Pequi não fica restrito aos pratos salgados. A polpa também aparece em receitas menos conhecidas fora das áreas produtoras.

Há preparações de pamonha que incorporam pequi à massa de milho, além de doces, sorvetes e licores. Ainda assim, arroz com pequi e galinhada seguem entre as formas mais associadas ao fruto.

O óleo também é aproveitado separadamente. Extraído da polpa, possui coloração alaranjada e é utilizado tanto na culinária quanto em produtos artesanais e cosméticos.

A composição do pequi inclui carotenoides e diferentes tipos de ácidos graxos. Isso não transforma o fruto em tratamento para doenças, mas ajuda a explicar por que ele também desperta interesse de pesquisadores que estudam alimentos nativos do Cerrado.

Árvore aguenta o Cerrado

O pequizeiro tem características típicas de uma árvore adaptada a um ambiente marcado por meses secos, incêndios naturais e solos pobres em nutrientes.

Pode desenvolver tronco de aparência retorcida, casca espessa e uma copa ampla. Durante a floração, produz flores grandes e claras, visitadas por diferentes animais.

Cultivá-lo fora de seu ambiente natural, porém, exige paciência.

As sementes apresentam dormência e podem demorar bastante para germinar. Por isso, a produção de mudas costuma ser uma das etapas mais difíceis para quem tenta iniciar um plantio a partir do caroço.

A árvore também prefere locais com boa incidência de sol e solo bem drenado. Excesso de água nas raízes não combina com uma espécie acostumada às condições do Cerrado.

Existe pequi sem espinho

O risco escondido no caroço levou pesquisadores a buscar alternativas para facilitar o consumo e o processamento comercial do fruto.

Entre elas estão variedades de pequizeiro que produzem frutos sem os tradicionais espinhos internos. O desenvolvimento desse tipo de material permite aproveitar a polpa com menos dificuldade e abre novas possibilidades para alimentos processados.

Isso não significa que o pequi tradicional esteja desaparecendo. Pelo contrário.

Quando a safra chega, estradas, feiras e cozinhas do Centro-Oeste voltam a ganhar montes de frutos verdes que escondem a polpa amarela por dentro. Para quem cresceu com o cheiro vindo da panela, poucas coisas anunciam tão bem a temporada quanto o primeiro arroz com pequi do ano.

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Frutas