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Fungos que consomem radiação em Chernobyl e utilizam melanina são os vírus de Devoradores de Estrelas da vida real

Microrganismos melanizados prosperam sob radiação e lembram os astrofágicos do filme de Ryan Gosling

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 9 de junho de 2026 às 15:15

Assim como os astrofágicos, os fungos do gênero Cladosporium utilizam radiação no seu ciclo de vida
Assim como os astrofágicos, os fungos do gênero Cladosporium utilizam radiação no seu ciclo de vida Crédito: Divulgação / IMDb / Medmyco / Wikimedia Commons

Devoradores de Estrelas, novo filme protagonizado por Ryan Gosling, alcançou quase US$ 700 milhões de bilheteria e se consolidou como um dos maiores filmes do ano. A trama acompanha os astrofágicos, microrganismos que passam a se alimentar da radiação do Sol. Na vida real, existe algo levemente parecido: os fungos radiotróficos.

Esses organismos curiosos ficaram associados a uma emergência radioativa: o desastre na Unidade 4 da Usina Nuclear de Chernobyl. Um estudo publicado na PLOS ONE levantou a existência de fungos melanizados capazes de prosperar em ambientes com radiação ionizante, onde muitos seres vivos adoecem ou morrem.

Enquanto os astrofágicos da ficção utilizam radiação ultravioleta e emissões de carbono para se reproduzir, os “astrofágicos” da vida real utilizam radiação ionizante por Divulgação / IMDb

Devoradores de radiação

Na ficção, os astrofágicos usam a radiação solar para se reproduzir. Na realidade, os fungos radiotróficos utilizam a melanina para lidar com a radiação ionizante presente em ambientes como Chernobyl. Esse é o mesmo pigmento associado à proteção da pele humana contra raios UV e aos tons de pele mais escuros.

Também chamados de fungos melanizados, eles incluem espécies como Cryptococcus neoformans, Wangiella/Exophiala dermatitidis, Cladosporium sphaerospermum e Cladosporium cladosporioides.

Registros de espécime do gênero Cladosporium
Registros de espécime do gênero Cladosporium Crédito: Wikimedia Commons

Assim como a clorofila ajuda as plantas a captar radiação solar para a fotossíntese, a melanina parece participar da transdução de energia em ambientes radioativos. No entanto, os mecanismos bioquímicos dessa possível radiossíntese ainda não estão totalmente esclarecidos, segundo o artigo.

O contato científico com esses fungos em Chernobyl ganhou força em uma missão de pesquisa liderada pela microbiologista Nelli Zhdanova, da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia. O objetivo era investigar formas de vida ao redor do reator destruído, no coração da zona de exclusão.

O trabalho resultou no catálogo de dezenas de espécies de fungos.

Como funciona a radiossíntese na prática?

Na prática, a melanina presente na parede do fungo recebe o impacto da radiação ionizante e tem suas propriedades eletrônicas alteradas. Isso parece facilitar a circulação de elétrons, etapa importante para reações químicas ligadas ao metabolismo.

A melanina atua como um filtro, absorvendo raios UV, reduzindo danos e mutações no DNA, além de ajudar a neutralizar radicais livres
A melanina atua como um filtro, absorvendo raios UV, reduzindo danos e mutações no DNA, além de ajudar a neutralizar radicais livres Crédito: Adam Amsterdam, Massachusetts Institute of Technology / Wikimedia Commons

Com essa “ajuda” extra, algumas espécies melanizadas podem crescer mais, formar mais biomassa e aproveitar melhor nutrientes escassos em ambientes extremos, como áreas contaminadas por radiação. Ainda assim, esses fungos não vivem apenas de radiação: eles continuam precisando de matéria orgânica.

A diferença em relação à fotossíntese é que esse mecanismo ainda tem muitas lacunas. Os estudos mostram ganho metabólico, alterações em genes e mudanças na divisão celular sob radiação, mas ainda não existe uma “receita” bioquímica fechada para a radiossíntese.

Morte do Sol

Embora os “astrofágicos” da vida real não sejam alienígenas nem devorem estrelas, o Sol já tem um fim previsto pela astrofísica. Em cerca de 5 bilhões de anos, ele deixará sua fase atual e começará a se transformar em uma gigante vermelha.

Uma previsão clássica de 1993, feita por Sackmann, Boothroyd e Kraemer, aponta que, nesse período, o hidrogênio disponível para a fusão no núcleo solar se esgotará. Com isso, a estrela entrará em novas fases de evolução, que levarão à expansão de suas camadas externas.

Esse processo fará o Sol crescer drasticamente. Ele poderá engolir Mercúrio e Vênus, e talvez até a Terra. Depois, em fases mais avançadas, passará a fundir hélio e produzirá principalmente carbono e oxigênio.

SMSS J160540.18-144323.1 é uma estrela gigante vermelha extremamente antiga e pobre em ferro, usada por astrônomos para estudar as primeiras gerações estelares da Via Láctea
SMSS J160540.18-144323.1 é uma estrela gigante vermelha extremamente antiga e pobre em ferro, usada por astrônomos para estudar as primeiras gerações estelares da Via Láctea Crédito: KKolaczynsk / Wikimedia Commons

Mais tarde, o Sol perderá suas camadas externas em grandes ejeções de gás e poeira. Esse material expelido formará uma nebulosa planetária.

No centro, restará apenas o núcleo extremamente denso da estrela: uma anã branca, com tamanho aproximado ao da Terra e massa comparável à do Sol.

Essa será a última grande etapa da vida solar. Sem fusão nuclear ativa, a anã branca continuará brilhando apenas pelo calor residual e entrará em um lento processo de resfriamento, que deve durar bilhões de anos.

Tags:

Cinema Chernobyl Ciência Meio Ambiente