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Jean Candido
Agência Correio
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 06:21
Em 22 de abril de 2023, a loteria do Texas recebeu uma aposta diferente de todas as outras. A Rook TX não escolheu alguns números e esperou pela sorte, pelo contrário, o grupo decidiu comprar quase todas as combinações possíveis da Lotto Texas. >
Para isso, gastou aproximadamente US$ 26 milhões e adquiriu 25.827.165 bilhetes. A operação passou por quatro pontos de venda, que trabalharam durante vários dias para imprimir, registrar e organizar os comprovantes.>
Quando o sorteio terminou, um dos bilhetes da Rook TX acertou os seis números. O prêmio anunciado chegava a US$ 95 milhões, mas o grupo optou pelo pagamento imediato e recebeu cerca de US$ 57,8 milhões antes dos impostos.>
A compra recebeu financiamento de uma companhia de apostas de Londres. Como a legislação exigia a emissão física dos bilhetes dentro do Texas, a Rook TX concentrou o trabalho em quatro varejistas.>
Os estabelecimentos receberam terminais adicionais e mais papel fornecidos por funcionários da loteria. Em seguida, passaram a gerar as combinações, imprimir os bilhetes e guardar os comprovantes até a realização do sorteio.>
A operação precisava evitar repetições e falhas de registro. Caso uma combinação ficasse de fora, o grupo poderia gastar milhões e ainda perder justamente o bilhete vencedor.>
A loteria não divulgou o número exato de terminais nem o total de horas utilizadas. Mesmo assim, a quantidade de bilhetes exigiu uma estrutura muito maior do que a encontrada em um ponto de venda comum.>
A matemática funcionava porque a Lotto Texas oferecia uma quantidade limitada de resultados possíveis. Ao comprar praticamente todas as combinações, o grupo aumentava muito a chance de ter um bilhete premiado.>
O recebimento à vista trouxe uma diferença bruta de US$ 31,8 milhões em relação aos US$ 26 milhões investidos. A conta, porém, ainda não descontava impostos e outros custos da operação.>
Pela cotação da PTAX de 31 de agosto de 2026, o valor gasto equivaleria a aproximadamente R$ 134,7 milhões. Já o prêmio recebido à vista corresponderia a cerca de R$ 299,5 milhões.>
Ainda havia um risco importante. Se outro apostador acertasse os seis números, a Rook TX teria de dividir o prêmio e poderia reduzir bastante o lucro.>
A operação também trouxe atenção para empresas que intermediavam a compra de bilhetes. Desde aproximadamente 2015, esses serviços permitiam que clientes fizessem pedidos por sites ou aplicativos.>
Depois, os intermediários compravam os bilhetes físicos em lojas licenciadas e enviavam cópias digitais aos clientes. No ano fiscal de 2023, essas empresas movimentaram cerca de US$ 173 milhões em vendas.>
A lei do Texas proibia apostas por telefone. Os intermediários alegavam que apenas compravam bilhetes físicos em nome dos clientes, mas parlamentares questionavam se o sistema permitia vendas digitais sem autorização.>
Investigadores também encontraram códigos QR não autorizados em parte do processamento da aposta. Os códigos ajudavam os terminais a registrar as combinações e aumentaram as dúvidas sobre o controle da operação.>
No início, a Texas Lottery Commission defendeu a validade do sorteio. Uma investigação interna não apontou violação das leis estaduais nem das regras da loteria. Naquele momento, comprar quase todas as combinações também não era necessariamente ilegal.>
A pressão aumentou depois dos questionamentos sobre os terminais extras, os códigos QR e a atuação dos intermediários. Em junho de 2025, o governador Greg Abbott sancionou a Lei do Senado 3070.>
A norma extinguiu a Texas Lottery Commission e transferiu a fiscalização para o Texas Department of Licensing and Regulation. Além disso, proibiu a compra e a venda de bilhetes por intermediários.>
A lei também passou a considerar crime de classe B a venda de mais de 100 bilhetes para uma única pessoa em uma mesma transação. A comissão deixou formalmente de existir em 1º de setembro de 2025, mas a loteria continuou funcionando sob a nova administração, com autorização legislativa prevista pelo menos até 2029.>
Em abril de 2026, Gary Grief, ex-diretor executivo da comissão, foi acusado de abuso da função pública. A acusação foi retirada poucos dias depois, mas um novo grande júri apresentou outra denúncia em maio pelo mesmo crime e incluiu a comissão já extinta.>
A denúncia citou o uso indevido de propriedade do governo durante o sorteio de 2023, mas apresentou poucos detalhes sobre a conduta atribuída a Grief. Ele negou irregularidades, enquanto seu advogado classificou o processo como politicamente motivado.>
Até a data da apuração, a Justiça ainda não havia analisado o caso em definitivo. A aposta terminou com um prêmio milionário, mas também expôs dúvidas sobre a fiscalização, o uso de tecnologia e o acesso de intermediários à estrutura da loteria.>