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Luiz Dias
Agência Correio
Publicado em 6 de julho de 2026 às 08:00
Neste exato momento existe uma nação que flutua sobre o Oceano Pacífico; ela é três vezes maior que a França ou a Bahia. Com seus impressionantes 1,6 milhão de km², ela continua se expandindo em uma taxa de 25,5% ao ano. Porém, nenhuma pessoa vive nela e seus cidadãos são toneladas de lixo.>
Toneladas e toneladas de plástico acumuladas por décadas, girando em redemoinhos de correntes oceânicas, formando aquilo que ficou conhecido como o Grande Mancha de Lixo do Pacífico (em inglês, Great Pacific Garbage Patch, ou GPGP).>
Grande Mancha de Lixo do Pacífico
O chamado GPGP é uma das maiores materializações da poluição marítima mundial. Um fenômeno criado por cada garrafa de plástico largada em uma praia, cada descarte empresarial indevido ou cada saquinho plástico jogado no esgoto.>
A mancha é um gigantesco aglomerado superdenso de plástico: microplásticos, redes de pesca, garrafas, tampas e toda sorte de lixo flutuante. Todo esse país de lixo é mantido pelo Giro Subtropical do Pacífico Norte, um imenso sistema de correntes oceânicas circulares.>
Essa formação natural acaba agindo como um ralo, mantendo todos estes objetos flutuantes em um mesmo lugar. De forma geral, o GPGP é composto por duas manchas: uma oriental, perto do Havaí, e outra ocidental, próxima ao Japão. >
Os dados mais recentes pintam um quadro alarmante:>
Um estudo de sete anos, divulgado em 2025 pela organização The Ocean Cleanup, revelou um dado perturbador: houve um aumento de quase cinco vezes na concentração de fragmentos plásticos na região ao longo da última década. >
Segundo a NASA, cerca de 8 milhões de toneladas de plástico escorrem de praias e rios para os oceanos a cada ano: o equivalente a um caminhão de lixo despejando carga no mar a cada minuto. >
Apesar da percepção popular de uma “ilha de lixo”, que é verdadeira, a maioria da densidade do GPGP é composta de microplásticos. Estes fragmentos menores que uma unha se condensam em sopas plásticas cada vez mais densas.>
Além dos microplásticos já depositados de forma externa, os fragmentos de plástico maiores presentes nas manchas sofrem degradação com o tempo. Fatores como a luz solar, o atrito e o movimento das ondas os fragmentam lentamente, num processo chamado fotodegradação.>
Esses microplásticos são invisíveis para satélites e quase imperceptíveis para marinheiros que passam pela região. Mas estão lá, em concentrações de até 4 partículas por metro cúbico, e seus efeitos são devastadores.>
A mancha já causa danos profundos aos ecossistemas oceânicos. A espessura do lixo bloqueia a luz solar que algas e fitoplâncton precisam para sobreviver. Sem a luz, não há fotossíntese para esses seres, que são a base da cadeia alimentar marinha.>
Além disso, animais como tartarugas, albatrozes e peixes ingerem os detritos, confundindo-os com comida e engasgando no processo. Redes de pesca abandonadas, as chamadas "redes-fantasma", capturam e afogam golfinhos, focas e outros animais.>
E ainda pode piorar, pois a presença de um “subcontinente” flutuante acaba por gerar um ecossistema novo que atrai outras formas de vida. Essa é uma descoberta de um estudo de 2023 que analisou como formas de vida costeiras estavam usando os fragmentos de plástico como habitat.>
O trabalho analisou 105 itens de plástico coletados entre 2018 e 2019 na porção oriental do GPGP. Quase todos os itens tinham algum tipo de incrustação biológica. Espécies pelágicas, típicas do oceano aberto, apareceram em 94,3% dos objetos; já organismos costeiros foram registrados em 70,5% deles.>
Porém, não foram encontrados apenas alguns espécimes perdidos que foram levados “de carona”. O estudo observou sinais de reprodução, como fêmeas reprodutivas, indivíduos jovens e diferentes classes de tamanho em alguns grupos.>
Ou seja, isso sugere que parte desses organismos consegue completar etapas do ciclo de vida sobre o plástico, mantendo populações no mar aberto por mais tempo do que se imaginava.>
A resposta, pela primeira vez em décadas, é cautelosamente positiva.>
Em abril de 2025, Boyan Slat — fundador da organização holandesa The Ocean Cleanup e uma das principais vozes no combate à poluição marinha — afirmou em uma palestra no TED que sua frota de sistemas de coleta poderia limpar a Grande Mancha em até cinco anos.>
No final de 2024, a organização anunciou que a limpeza total do GPGP teria um custo estimado de US$ 7,5 bilhões. Em 2025, as operações de extração foram pausadas temporariamente para dar lugar a uma nova iniciativa de mapeamento para identificar os "pontos quentes" de maior concentração de plástico, de modo a tornar futuras coletas mais eficientes.>
Em março de 2026, relatórios indicaram que as operações de limpeza oceânica removeram um volume recorde de plástico. Embora os especialistas alertem que o progresso ainda é modesto diante do volume de resíduos que continua chegando ao mar.>
Pesquisadores do Planetary Science Institute também desenvolveram uma técnica inovadora: usando dados de satélite, identificaram e catalogaram milhões de zonas de atração transitória (chamadas de TRAPs), regiões onde correntes circulares concentram objetos à deriva. >
Em vez de navios percorrerem vastas áreas ao acaso, as equipes de limpeza poderiam se posicionar nesses pontos e aguardar que o lixo chegue até elas.>