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Manuela Dias lança livro que resgata heroínas apagadas da Independência do Brasil

Em "Heroínas da Independência", escritora revisita a Guerra da Independência da Bahia e devolve protagonismo a Maria Quitéria, Maria Felipa e Joana Angélica

  • Foto do(a) author(a) Heider Sacramento
  • Heider Sacramento

Publicado em 17 de julho de 2026 às 06:00

Manuela Dias lança livro que resgata heroínas apagadas Crédito: Divulgação

Durante muito tempo, a Independência do Brasil foi contada como uma cena única. Um príncipe às margens do Ipiranga, um grito que ecoou pelos livros didáticos e uma pintura transformada em símbolo nacional. A história oficial coube em uma imagem. Mas, para a escritora e dramaturga Manuela Dias, essa narrativa sempre deixou muita gente do lado de fora.

Foram anos pesquisando documentos, relatos e personagens esquecidos até que ela chegasse a uma conclusão: talvez fosse preciso escrever outro livro para contar a mesma história. Ou melhor, contar a história que nunca ganhou o mesmo espaço.

É desse percurso que nasce Heroínas da Independência, obra lançada neste sábado (18), na Livraria Terra Libris, em Salvador. Escrito em forma de poema narrativo, o livro acompanha as trajetórias de Maria Quitéria, Maria Felipa e Joana Angélica, mulheres que participaram da Guerra da Independência da Bahia, mas que, durante muito tempo, permaneceram à margem da narrativa oficial sobre a formação do Brasil.

A ideia surgiu enquanto Manuela desenvolvia um roteiro para o cinema ao lado do ator Antônio Pitanga. O projeto é um filme sobre a Independência da Bahia e segue em desenvolvimento. Durante as pesquisas para o longa, a autora acabou mergulhando nas histórias de Maria Felipa, Maria Quitéria e Joana Angélica. Desse processo nasceu um poema narrativo que, mais tarde, se transformou em Heroínas da Independência.

"Quando terminei Vale Tudo, Pitanga me provocou para fazermos um filme sobre a Independência da Bahia. Nós dois somos baianos e apaixonados por essa parte tão pouco conhecida da história do Brasil. Mergulhei na pesquisa, comecei a desenvolver o roteiro e, quando vi, estava escrevendo o poema. Acabou ficando muito maior do que imaginei. Quando percebi que o poema tinha quarenta páginas corridas, vi que tinha um livro", lembra a autora.

Conhecida nacionalmente pelas novelas, Manuela nunca deixou a literatura de lado. Antes mesmo da dramaturgia ocupar o centro da sua carreira, os livros já eram parte da rotina de pesquisa e criação. Hoje, diz, continuam sendo o principal lugar onde busca conhecimento e imaginação.

"A literatura sempre está comigo, mesmo quando não estou escrevendo livros. Nas férias, ao longo de uma novela ou escrevendo um filme, o processo de pesquisa é contínuo. Os livros são minha maior fonte de pesquisa, inspiração e companhia. Escrever literatura é muito diferente de escrever dramaturgia. Um roteiro precisa ser exequível, negocia com a realidade o tempo todo. Já um livro é mais livre e solitário. O que eu escrevo não precisa ser produzido nem orçado. Vai diretamente da minha cabeça para a cabeça do leitor", compara.

Foi justamente essa liberdade que permitiu transformar uma investigação histórica em poesia. Em vez de reproduzir documentos ou organizar uma cronologia dos acontecimentos, Manuela preferiu aproximar o leitor das personagens e das emoções que atravessaram aquele período.

Mais do que contar quem foram Maria Felipa, Maria Quitéria e Joana Angélica, ela busca responder por que tantas pessoas cresceram sem ouvir falar delas.

"Todo mundo já ouviu falar de Joana d'Arc e pouca gente sabe quem foi Maria Quitéria, sendo que são duas mulheres que se vestiram de homem para lutar pelo seu país. O apagamento das heroínas da verdadeira independência do Brasil é uma mistura do apagamento feminino com o apagamento da extrema importância do Nordeste na história do nosso país", pontua.

Para a escritora, a própria ideia de Independência ensinada nas escolas precisa ser revista. "O Brasil não ficou independente com um grito do imperador. Ficou independente depois de dez meses de guerra, resistência, luta e muito sangue derramado. Sangue baiano, negro, indígena e até de portugueses que aderiram ao lado brasileiro. O Sete de Setembro que é louvado no Hino Nacional é uma usurpação oficial de uma conquista popular. Essa narrativa tira essa conquista histórica da mão do povo, sequestra sua elaboração intelectual das mãos de uma mulher e entrega tudo ao poder vigente, masculino e branco", argumenta.

Essa preocupação também orienta a Editora Voante, criada por Manuela em 2024. Além de Heroínas da Independência, a editora lança uma nova edição de Maria Felipa de Oliveira, pesquisa desenvolvida pela educadora baiana Eny Kleyde Vasconcelos e considerada uma das principais referências sobre a heroína da Ilha de Itaparica.

Segundo a autora, reeditar esse trabalho significa devolver circulação a uma pesquisa fundamental para compreender um capítulo pouco conhecido da história brasileira. "Nossa memória histórica é sequestrada pelos dominadores, que passam a escolher nossas lembranças. Contar a História com outras ferramentas é poder escolhermos nossas memórias. E quem controla o passado, comanda o futuro", reflete.

Ao falar da editora, Manuela amplia ainda mais a discussão. Para ela, incentivar o hábito da leitura também é uma forma de transformação social.

"Eu acredito no poder transformador dos livros, tanto do ponto de vista histórico quanto na dimensão individual. Ler por seis minutos seguidos diminui os níveis de cortisol em até 68%. Ler aumenta a empatia. Se a Voante incentivar o hábito de ler e disponibilizar livros relevantes, acredito que estaremos no caminho correto", defende.

Lançar essas obras em Salvador também faz parte da própria narrativa que deseja construir. Não apenas porque a cidade foi um dos principais cenários da Guerra da Independência, mas porque é dali que nasce sua relação com o mundo.

"Tudo o que eu faço é porque a Bahia vai ver. A Bahia é minha terra, meu sal. É régua, compasso. É meu ponto de vista sobre o mundo, onde toda minha biologia funciona melhor. Não faria sentido lançar esse livro em qualquer outro lugar", afirma.

Ela lembra que o evento acontece na Livraria Terra Libris, instalada no Cine Glauber Rocha, diante da estátua de Castro Alves. Um lugar onde diferentes tempos da história acabam se encontrando.

"O avô de Castro Alves, o major Antônio Castro, foi o líder do batalhão dos Periquitos, no qual Maria Quitéria se alista vestida de homem. Foi ele quem autorizou que ela permanecesse no Exército depois que sua identidade foi descoberta. É importante que todos saibamos que, em 1822, existia uma mulher lutando pela independência do nosso país no Exército Brasileiro. E não era só ela. Muitas outras mulheres formaram batalhões inteiros", destaca.

Ao longo da carreira, Manuela transitou entre teatro, cinema, televisão e literatura. Em vez de enxergar essas linguagens como universos separados, prefere entendê-las como diferentes maneiras de acessar uma mesma história.

"A dramaturgia coloca os personagens em ação. A literatura nos dá acesso ao pensamento deles. O teatro reúne tudo isso e ainda convida o público a completar a imaginação. Cada linguagem oferece ferramentas diferentes para contar histórias", explica.

Talvez seja justamente isso que Heroínas da Independência proponha. Não apenas revisitar um episódio decisivo da formação do Brasil, mas perguntar quem ainda permanece ausente quando essa história é contada. Ao devolver voz a mulheres que durante muito tempo ocuparam apenas as margens da narrativa oficial, Manuela Dias faz da literatura um exercício de memória, e também de futuro.