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Mar avança até 5 metros por ano, transforma casas destruídas em ruínas na faixa de areia e corre risco de fazer cidade brasileira desaparecer

Ruínas na areia revelam a força da erosão que há décadas muda a paisagem de São João da Barra

  • Foto do(a) author(a) Jean Candido
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Jean Candido

  • Agência Correio

Publicado em 8 de setembro de 2026 às 05:06

Ruínas de uma antiga construção permanecem expostas na areia da praia de Atafona, em São João da Barra
Ruínas de uma antiga construção permanecem expostas na areia da praia de Atafona, em São João da Barra Crédito: Foto: Andrevruas/Wikimedia Commons

Na praia de Atafona, distrito de São João da Barra, no litoral norte do Rio de Janeiro, paredes rachadas e fundações expostas surgem entre a areia. São vestígios de casas que perderam a batalha para o oceano e ajudam a dimensionar um problema que se arrasta há décadas.

Em alguns trechos, o mar avança mais de cinco metros por ano, segundo registros apresentados em estudos e debates técnicos sobre a região. Em 2026, o município autorizou um novo estudo para avaliar alternativas diante de uma erosão que continua transformando a paisagem, ameaçando imóveis e afetando a vida dos moradores.

Atafona está localizada na foz do Rio Paraíba do Sul, onde a dinâmica do oceano se mistura ao fluxo de sedimentos trazidos pelo rio. O recuo da praia resulta de fatores naturais, mas também sofre influência de intervenções humanas que alteraram o transporte de areia ao longo da bacia hidrográfica.

Paisagem costeira de Grussaí, distrito vizinho a Atafona, em São João da Barra por Foto: Gil Alves/Unsplash, via Wikimedia Commons

Por que a areia desaparece

A erosão costeira começou a atingir a faixa construída de Atafona com mais intensidade a partir de meados do século 20. Ondas, correntes marítimas e ventos retiram areia continuamente, enquanto alterações no canal do Rio Paraíba do Sul modificam a quantidade de sedimentos que chega à costa.

A retirada de água, a construção de barragens e a extração de areia mudaram o fluxo natural do rio. Com menos sedimentos disponíveis para recompor a faixa litorânea, o oceano encontra menos resistência e avança sobre áreas antes ocupadas por ruas, casas e equipamentos públicos.

O Serviço Geológico do Brasil descreve a região como um delta moldado pela ação conjunta do rio e das ondas. Parte do material retirado de Atafona segue em direção à Praia de Grussaí, mostrando que a areia não desaparece simplesmente: ela se desloca dentro de um sistema costeiro em constante transformação.

O mar que leva casas

A velocidade da erosão varia conforme o trecho da praia e o período do ano. Estudos também indicam uma relação entre a vazão do Paraíba do Sul e o comportamento da costa: quando a vazão máxima do rio diminui, a erosão tende a ganhar força no ano seguinte.

Em palestra realizada na Câmara Municipal, o geólogo Eduardo Bulhões classificou o fenômeno como crônico e extremo. Segundo informações da Câmara de São João da Barra, não existe indício científico de que o processo vá parar naturalmente.

O impacto aparece nas ruínas espalhadas pela praia. Paredes foram derrubadas, terrenos desapareceram e fundações ficaram expostas. Cada estrutura abandonada registra uma etapa do recuo da costa e mostra como a erosão deixou de ser apenas um fenômeno ambiental para se tornar também uma questão urbana e social.

Famílias deixaram áreas afetadas

A destruição atingiu diretamente moradores que viviam nas áreas mais vulneráveis. Um decreto municipal de 2023 registra famílias que tiveram as casas interditadas pela Defesa Civil depois que a erosão comprometeu a segurança das construções.

O poder público destinou um imóvel para um programa habitacional voltado ao atendimento da população deslocada. A medida mostra que o avanço do mar produz consequências que vão além da perda material: famílias precisam abandonar endereços, vizinhanças e lembranças construídas ao longo de décadas.

A situação também exige atenção durante ressacas e períodos de maré elevada. Nesses momentos, a água alcança áreas ainda mais próximas da ocupação urbana e aumenta a pressão sobre estruturas que já foram fragilizadas pelo recuo da praia.

Estudo busca uma saída

O município autorizou, em 2026, o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental, conhecido como EVTEA. A análise deve avaliar a dinâmica costeira de Atafona e comparar alternativas para reduzir os impactos da erosão sobre áreas urbanas, equipamentos públicos e populações vulneráveis.

A Prefeitura de São João da Barra informou, em 10 de julho, a assinatura da ordem de serviço para o início do estudo. De acordo com o Diário Oficial do município, a empresa responsável teria prazo médio de 30 dias para apresentar o Plano de Trabalho, com a definição das etapas, dos métodos e do cronograma da análise.

O documento não representa, por si só, o anúncio de uma obra. Antes disso, o município precisa entender quais medidas podem funcionar, quanto custariam e quais impactos provocariam no ambiente costeiro.

O que será analisado

Dinâmica costeira: o estudo deve observar como ondas, correntes, ventos, vazão do rio e transporte de sedimentos contribuem para o recuo da praia.

Alternativas técnicas: a avaliação deverá comparar medidas estruturais e não estruturais capazes de proteger áreas urbanas e reduzir os danos provocados pela erosão.

Viabilidade econômica: cada possibilidade precisará ser analisada de acordo com os custos, os benefícios e a capacidade de proteção oferecida à população.

Impactos ambientais: qualquer intervenção deverá considerar os efeitos sobre o delta, as praias, os ecossistemas costeiros e o equilíbrio do Rio Paraíba do Sul.

Um futuro ainda aberto

Atafona se tornou um dos exemplos mais visíveis da erosão costeira no Brasil porque o avanço do mar ocorre diante de uma área habitada. As ruínas espalhadas pela areia revelam o resultado de décadas de mudanças na costa e nas condições do rio.

O EVTEA pode oferecer ao município uma base técnica para decidir os próximos passos, mas não elimina a urgência vivida pelos moradores. Enquanto a análise avança, a linha de praia continua mudando e aproximando o oceano de estruturas que já foram construídas longe da água.

A história de Atafona mostra que a erosão costeira não altera apenas mapas e paisagens. Ela também redefine o lugar onde as pessoas moram, transforma memórias em ruínas e obriga cidades inteiras a planejar o futuro com uma costa que recua todos os anos.

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Cidades Turismo Ruínas Areia Curiosidades