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Jean Candido
Agência Correio
Publicado em 8 de setembro de 2026 às 05:06
Na praia de Atafona, distrito de São João da Barra, no litoral norte do Rio de Janeiro, paredes rachadas e fundações expostas surgem entre a areia. São vestígios de casas que perderam a batalha para o oceano e ajudam a dimensionar um problema que se arrasta há décadas. >
Em alguns trechos, o mar avança mais de cinco metros por ano, segundo registros apresentados em estudos e debates técnicos sobre a região. Em 2026, o município autorizou um novo estudo para avaliar alternativas diante de uma erosão que continua transformando a paisagem, ameaçando imóveis e afetando a vida dos moradores.>
Atafona está localizada na foz do Rio Paraíba do Sul, onde a dinâmica do oceano se mistura ao fluxo de sedimentos trazidos pelo rio. O recuo da praia resulta de fatores naturais, mas também sofre influência de intervenções humanas que alteraram o transporte de areia ao longo da bacia hidrográfica.>
mar avança
A erosão costeira começou a atingir a faixa construída de Atafona com mais intensidade a partir de meados do século 20. Ondas, correntes marítimas e ventos retiram areia continuamente, enquanto alterações no canal do Rio Paraíba do Sul modificam a quantidade de sedimentos que chega à costa.>
A retirada de água, a construção de barragens e a extração de areia mudaram o fluxo natural do rio. Com menos sedimentos disponíveis para recompor a faixa litorânea, o oceano encontra menos resistência e avança sobre áreas antes ocupadas por ruas, casas e equipamentos públicos.>
O Serviço Geológico do Brasil descreve a região como um delta moldado pela ação conjunta do rio e das ondas. Parte do material retirado de Atafona segue em direção à Praia de Grussaí, mostrando que a areia não desaparece simplesmente: ela se desloca dentro de um sistema costeiro em constante transformação.>
A velocidade da erosão varia conforme o trecho da praia e o período do ano. Estudos também indicam uma relação entre a vazão do Paraíba do Sul e o comportamento da costa: quando a vazão máxima do rio diminui, a erosão tende a ganhar força no ano seguinte.>
Em palestra realizada na Câmara Municipal, o geólogo Eduardo Bulhões classificou o fenômeno como crônico e extremo. Segundo informações da Câmara de São João da Barra, não existe indício científico de que o processo vá parar naturalmente.>
O impacto aparece nas ruínas espalhadas pela praia. Paredes foram derrubadas, terrenos desapareceram e fundações ficaram expostas. Cada estrutura abandonada registra uma etapa do recuo da costa e mostra como a erosão deixou de ser apenas um fenômeno ambiental para se tornar também uma questão urbana e social.>
A destruição atingiu diretamente moradores que viviam nas áreas mais vulneráveis. Um decreto municipal de 2023 registra famílias que tiveram as casas interditadas pela Defesa Civil depois que a erosão comprometeu a segurança das construções.>
O poder público destinou um imóvel para um programa habitacional voltado ao atendimento da população deslocada. A medida mostra que o avanço do mar produz consequências que vão além da perda material: famílias precisam abandonar endereços, vizinhanças e lembranças construídas ao longo de décadas.>
A situação também exige atenção durante ressacas e períodos de maré elevada. Nesses momentos, a água alcança áreas ainda mais próximas da ocupação urbana e aumenta a pressão sobre estruturas que já foram fragilizadas pelo recuo da praia.>
O município autorizou, em 2026, o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental, conhecido como EVTEA. A análise deve avaliar a dinâmica costeira de Atafona e comparar alternativas para reduzir os impactos da erosão sobre áreas urbanas, equipamentos públicos e populações vulneráveis.>
A Prefeitura de São João da Barra informou, em 10 de julho, a assinatura da ordem de serviço para o início do estudo. De acordo com o Diário Oficial do município, a empresa responsável teria prazo médio de 30 dias para apresentar o Plano de Trabalho, com a definição das etapas, dos métodos e do cronograma da análise.>
O documento não representa, por si só, o anúncio de uma obra. Antes disso, o município precisa entender quais medidas podem funcionar, quanto custariam e quais impactos provocariam no ambiente costeiro.>
Dinâmica costeira: o estudo deve observar como ondas, correntes, ventos, vazão do rio e transporte de sedimentos contribuem para o recuo da praia.>
Alternativas técnicas: a avaliação deverá comparar medidas estruturais e não estruturais capazes de proteger áreas urbanas e reduzir os danos provocados pela erosão.>
Viabilidade econômica: cada possibilidade precisará ser analisada de acordo com os custos, os benefícios e a capacidade de proteção oferecida à população.>
Impactos ambientais: qualquer intervenção deverá considerar os efeitos sobre o delta, as praias, os ecossistemas costeiros e o equilíbrio do Rio Paraíba do Sul.>
Atafona se tornou um dos exemplos mais visíveis da erosão costeira no Brasil porque o avanço do mar ocorre diante de uma área habitada. As ruínas espalhadas pela areia revelam o resultado de décadas de mudanças na costa e nas condições do rio.>
O EVTEA pode oferecer ao município uma base técnica para decidir os próximos passos, mas não elimina a urgência vivida pelos moradores. Enquanto a análise avança, a linha de praia continua mudando e aproximando o oceano de estruturas que já foram construídas longe da água.>
A história de Atafona mostra que a erosão costeira não altera apenas mapas e paisagens. Ela também redefine o lugar onde as pessoas moram, transforma memórias em ruínas e obriga cidades inteiras a planejar o futuro com uma costa que recua todos os anos.>