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Felipe Sena
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 17:43
Aclamado pelo músico Roberto Mendes como “a voz de ouro baiana”, Lazzo Matumbi, um dos grandes nomes da música brasileira e baiana, lança nesta sexta-feira (2) “Matumbi”, single do novo álbum "Matumbi Canta a Bahia". Com parcerias com artistas da nova geração, o projeto transforma a musicalidade baiana em um verdadeiro “caldeirão de ritmos”. >
Mais do que um artista, Lazzo se define como um artesão, alguém que continua atento à própria obra e às experiências que a atravessam. “A partir da arte que faço, sim, assunto inclusive no meio dos artistas. Mas um artesão que continua escutando a sua obra e retratando o que eu vivo, a minha vivência”, diz Matumbi, durante uma tarde ensolarada, em conversa leve e descontraída com o jornal CORREIO.>
Lazzo Matumbi lança primeiro single do novo álbum
Além do álbum, o projeto apresenta um audiovisual gravado em julho, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, sob direção artística de Manno Góes. O repertório percorre diferentes gêneros musicais e compositores, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e o grupo Novos Baianos. O lançamento também reúne canções de artistas contemporâneos, construindo uma narrativa musical singular, que reforça a diversidade da cultura baiana a partir da interpretação de Lazzo.>
Com uma trajetória de mais de 40 anos, o novo trabalho também reflete a ancestralidade do músico e carrega um propósito que vai além da música: contribuir para o bem da humanidade. A proposta, segundo ele, está relacionada à construção de uma sociedade mais igualitária e ao reconhecimento de sua própria história como homem negro em um país racista.>
“O fato de você fazer parte de um exército de pessoas que pensam no bem comum, numa questão mais igualitária, até por causa da minha questão de ser um homem negro em um país racista, acredito que as pessoas conseguem entender isso de uma forma legal. Vão entender também que é tudo isso que deve à ancestralidade. De pessoas que já estiveram na luta da questão espiritual, dos deuses, para um mundo melhor, para que, na realidade, seja colocado no alcance da terra”, diz Lazzo, que afirma ainda que sua missão é “usar a voz para uma questão bacana no mundo”.>
O show que deu origem ao projeto audiovisual tem ainda direção musical do maestro Ubiratan Marques e participações do coral Coro MultiVox, sob a regência do maestro Ângelo Rafael Palma da Fonseca, do grupo BaianaSystem e de artistas como BNegão, Rachel Reis e Ravi Lobo.>
A presença de nomes da nova geração da música baiana, como Rachel Reis, nascida em Feira de Santana, reforça a proposta de diálogo entre diferentes trajetórias musicais. A cantora foi vencedora de importantes premiações nacionais, como o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), na categoria Artista Revelação, e o MVF Awards (Music Video Festival), pelo videoclipe de “Lovezinho”.>
Para Lazzo, a troca entre gerações é parte fundamental do trabalho artístico e da construção de novos caminhos.>
“A gente não pode caminhar sozinho. A gente tem que caminhar e trazer nossos votos, principalmente os mais novos, que compreendam que estar na música, estar na vida artística, como artesão, não é só uma mera coincidência. É uma missão, e cada um de nós já tem uma perspectiva interessante de fazer pessoas felizes, com atitude positiva na construção de um mundo melhor. Já é o bastante”, ressalta o músico.>
Lazzo também divide parceria com a BaianaSystem, banda liderada pelo vocalista Russo Passapusso, também de Feira de Santana. Para ele, o grupo representa muito mais do que música e dança, levando ao público manifestações de educação e transformação social.>
“BaianaSystem já provou que não está só para fazer as pessoas pularem, mas também para pensarem que não está tudo certo. Eu acho que estou no caminho certo”, diz Lazzo.>
A ancestralidade também ocupa um lugar importante nesse processo. Para o cantor, encontrar artistas mais jovens que o reconhecem como referência representa uma forma de renovação e continuidade.>
“Eu só tenho a agradecer à ancestralidade por me proporcionar isso e me tornar mais jovem. Porque, quando você está na estrada, às vezes a gente acha que está sozinho, solitário. Quando a gente vê esses novos chegando, me tendo como referência”, afirma Lazzo.>
O músico também define esse encontro como um momento de aquilombamento, conceito associado ao pensamento de Abdias Nascimento, escritor brasileiro que abordou a organização e a solidariedade negra como formas de resistência.>
Entre as influências ancestrais e os encontros com a nova geração, a Bahia cantada por Lazzo nasce também do desejo de mostrar o estado que ele gostaria de ver: um lugar que, mesmo atravessado por dores e desigualdades, continua emanando arte, cor e alegria.>
“Uma Bahia mais justa, mais igualitária, mais respeitosa com suas etnias, com suas responsabilidades, com suas histórias, porque nós, povo indígena, afro-indígena, fomos os que mais contribuímos com a formação desse país e que até hoje a gente continua lutando e brigando para ser respeitado como cidadãos brasileiros”, diz Lazzo.>
O músico explica que seu principal desejo com o trabalho é compartilhar com o público sua própria “inquietação”. A partir da música, ele busca provocar reflexões sobre respeito, diferenças e convivência.>
“Eu convoco a sociedade para que a gente reflita, para que a gente tenha mais amor, para que a gente possa construir um país com mais respeito, principalmente às diferenças. A gente ainda não entendeu que essas diferenças é que fazem o grande somatório de uma grande nação chamada Brasil”, afirma.>
Ativista dos movimentos antirracistas, Lazzo também enxerga a música como um instrumento de reflexão sobre o passado e de construção de um futuro diferente. Para ele, a poesia presente nas canções permite questionar a própria identidade e compreender o lugar que se ocupa no mundo.>
“Quando eu canto uma letra, uma poesia que traz uma reflexão, ela me coloca com o pé no chão, fazendo uma reflexão profunda de quem eu sou, como estou aqui agora, e assim volto a me questionar de novo quem eu sou aqui e agora”, diz.>
Com influências que atravessam desde as culturas indígenas até as marcas do passado escravista, “Matumbi Canta a Bahia” reúne diferentes sonoridades, como samba-reggae, movimento do qual Lazzo é um dos precursores.>
“Temos uma multiplicidade de culturas, de vários caminhos, de vários lugares que elas vieram, com várias formações culturais. E isso, de certo modo, mostra que nós estamos aqui na Bahia, principalmente em Salvador, uma diáspora que retrata exatamente essas várias Áfricas. Isso me dá um orgulho muito grande, porque, musicalmente, você vai recebendo influência de cada momento, que absorve de fora, dos terrenos de Canamã, dentro dos batuques, dos grupos de samba de roda, do que acontece dentro do labor”, reafirma.>
Desde os 12 anos, Lazzo já observava a mãe cantar e tocar percussão nas festas de São João do Recôncavo Baiano. Hoje, a voz se tornou seu principal instrumento de transformação e conexão com o público.>
“Para chegar no coração das pessoas como a maior arma que existe no mundo. Aquela que bate, penetra, não machuca, mas faz com que sinta e reflita”, conclui.>