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Jean Candido
Agência Correio
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 11:14
Durante uma entrevista à BBC, Simon Ludlam apontou no mapa onde o Greenlink deixaria o mar da Irlanda e alcançaria o País de Gales. Para ele, era apenas um ponto técnico de uma ligação elétrica de 190 quilômetros. Para quem assistia, o traço avançava sobre um lugar com outro significado. >
Logo depois, os telefones começaram a tocar. Centenas de fãs de Harry Potter queriam saber se a obra passaria pelo memorial de Dobby, formado por pedras, mensagens e meias na praia de Freshwater West. Ludlam nem sabia quem era o elfo. Precisou descobrir por que um personagem fictício se tornara o obstáculo mais inesperado de um interconector de 500 megawatts.>
A pressão funcionou. O Greenlink continuaria chegando à mesma praia, mas os engenheiros redesenharam o trajeto para não atingir a homenagem. Antes de transportar eletricidade entre dois países, o cabo precisou abrir caminho entre a engenharia e a memória afetiva de milhares de fãs.>
dobby, elfo livre
Freshwater West entrou no universo de Harry Potter em 2009, durante as filmagens de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Nas dunas, a produção ergueu a Casa das Conchas, cenário dos últimos momentos de Dobby.>
No filme lançado em 2010, o elfo morre após ajudar Harry e seus amigos a escapar. O bruxo cava a sepultura com as próprias mãos, diante do mar. A construção cenográfica foi retirada, mas os fãs reconheceram a paisagem e começaram a ocupar o vazio deixado por ela.>
Vieram pedras com inscrições como “Aqui jaz Dobby”, além de flores e meias. Na história, Dobby deixa de servir à família Malfoy quando recebe uma peça de roupa e conquista a liberdade.>
Anos depois, o lugar reservado à despedida do personagem apareceu no planejamento do Greenlink. O interconector ligaria a rede irlandesa em Wexford à britânica em Pembrokeshire. Segundo o projeto, são 160 quilômetros de cabos submarinos e outros 30 enterrados em terra.>
Ao verem o mapa, os fãs perceberam que a chegada prevista se aproximava do memorial. As ligações se multiplicaram. Uma homenagem construída aos poucos por visitantes anônimos ganhou força suficiente para alterar uma obra internacional.>
Os planejadores buscaram outro alinhamento. O cabo não abandonou Freshwater West: a mudança ocorreu dentro do mesmo trecho costeiro, desviando das pedras e das meias.>
A nova passagem trouxe outra surpresa. Segundo o relato de Ludlam reproduzido pelo The Guardian, o traçado se aproximou de urnas funerárias da Idade do Bronze, com cerca de 3 mil anos.>
A localização exata não foi divulgada. Ao contornar uma memória criada pelo cinema, a obra se aproximou de outra, preservada havia milênios sob o solo.>
Para atravessar a costa sem abrir uma vala, as equipes usaram perfuração horizontal direcionada. Os dutos passaram sob as dunas e emergiram além da linha de maré baixa. Segundo o Greenlink, nenhuma estrutura permanente ficou visível na praia.>
A construção terminou em 2024, e a operação comercial começou em janeiro de 2025. Com 500 MW, a ligação leva eletricidade nos dois sentidos entre Irlanda e Grã-Bretanha e pode abastecer o equivalente a 325 mil residências.>
O memorial permaneceu, mas sua preservação criou outro impasse. Após uma consulta pública em 2022, o National Trust manteve a homenagem no curto prazo, porém pediu que os visitantes apenas tirem fotografias e não deixem novos objetos.>
Meias, enfeites e fragmentos de tinta podem ser carregados pelo mar e atingir a cadeia alimentar. Proteger a lembrança de Dobby passou a significar também conter o crescimento do memorial.>
Hoje, a eletricidade atravessa o mar por cabos que desaparecem sob a praia, enquanto as pedras continuam visíveis sobre a areia.Na história, uma meia libertou Dobby. >
Em Freshwater West, centenas de fãs se uniram para proteger o lugar escolhido para sua despedida. O Greenlink cruzou o mar e conectou dois países, mas, diante das pedras e meias deixadas na areia, foi a engenharia que precisou ceder espaço à memória.>