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Bianca Hirakawa
Agência Correio
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 05:05
O despertador ainda nem tocou, mas os olhos já estão abertos. Para muita gente, acordar alguns minutos antes do horário programado é algo tão comum que parece até que o corpo consegue prever o momento exato de levantar. >
A explicação, porém, está menos em uma espécie de “alarme interno” e mais no funcionamento do relógio biológico. O organismo possui mecanismos capazes de organizar o ciclo de sono e vigília e, quando existe uma rotina regular, pode começar a se preparar para acordar antes mesmo do som do celular ou do relógio. >
Como melhorar qualidade do sono
O processo envolve o ritmo circadiano, a exposição à luz e a liberação de hormônios que ajudam o corpo a fazer a transição entre o descanso e o estado de alerta. >
O ritmo circadiano funciona em um ciclo próximo de 24 horas e influencia diferentes processos do organismo, como o sono, a temperatura corporal, o apetite e a liberação de hormônios.>
No centro desse mecanismo está o núcleo supraquiasmático, uma estrutura localizada no hipotálamo. Ele recebe informações da retina sobre a luminosidade do ambiente e ajuda o organismo a identificar os momentos do dia.>
Durante a noite, com a ausência de luz, o cérebro aumenta a produção de melatonina, hormônio associado à indução do sono. Conforme o dia se aproxima, a produção diminui e o organismo começa a ativar funções relacionadas à vigília.>
A temperatura corporal, a pressão arterial e a frequência cardíaca também começam a aumentar nesse período de transição.>
Quem mantém horários semelhantes para dormir e acordar por semanas ou meses pode acabar condicionando o próprio organismo a repetir esse ciclo.>
A regularidade funciona como uma espécie de referência para o relógio biológico. Com o tempo, o cérebro passa a reconhecer o horário habitual de despertar e inicia antecipadamente os processos necessários para tirar o corpo do estado de sono.>
É por isso que algumas pessoas conseguem abrir os olhos pouco antes do despertador tocar. Não se trata de uma previsão consciente, mas de uma resposta do organismo à repetição da rotina.>
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Friedrich-Alexander Erlangen-Nürnberg, na Alemanha, observou que essa antecipação hormonal ocorre de maneira consistente entre pessoas que mantêm horários regulares de sono.>
O cortisol também participa dessa preparação. Associado ao estado de alerta, o hormônio começa a aumentar gradualmente nas horas finais do sono, geralmente entre 3h e 5h da manhã.>
A elevação ajuda o organismo a fazer a passagem entre o descanso e a vigília antes mesmo que qualquer alarme seja acionado.>
Uma revisão da Endocrine Society citada na matéria de referência aponta que uma parcela importante da liberação de cortisol acontece próxima ao horário habitual de acordar. Depois do despertar, ocorre ainda um novo pico entre 30 e 45 minutos.>
Assim, quando a pessoa mantém uma rotina estável, o organismo pode começar a se preparar para aquele momento antes que ela tenha consciência de que está na hora de levantar.>
Acordar alguns minutos antes do despertador não significa necessariamente que algo esteja errado. Para especialistas em medicina do sono, o despertar espontâneo pode ser um sinal positivo quando ocorre acompanhado de disposição.>
O neurologista e especialista em medicina do sono Alan Luiz Eckeli, professor da Universidade de São Paulo, considera que, em condições ideais, o próprio organismo deveria ser capaz de conduzir o despertar, sem depender exclusivamente do alarme.>
A dificuldade aparece quando a pessoa precisa de vários alarmes ou enfrenta grande dificuldade para sair da cama. Nesse caso, a necessidade constante do despertador pode indicar que o tempo de descanso não está sendo suficiente.>
Acordar antes do horário também pode acontecer por motivos menos positivos. Em períodos de ansiedade ou estresse, por exemplo, o aumento do cortisol pode ocorrer de maneira antecipada e interromper o sono antes do momento desejado.>
A diferença está principalmente em como a pessoa se sente ao despertar.>
Se os olhos se abrem naturalmente poucos minutos antes do alarme e há sensação de descanso e alerta, o episódio pode estar relacionado a um relógio biológico bem ajustado. Se o despertar acontece acompanhado de cansaço, agitação ou dificuldade para voltar a dormir, a situação pode indicar uma noite de sono de qualidade inferior.>
Mesmo com toda a capacidade de adaptação do relógio biológico, a vida moderna nem sempre respeita os horários naturais do organismo.>
Trabalho, escola e compromissos exigem que milhões de pessoas acordem em horários específicos, que podem não coincidir com o momento em que o corpo estaria naturalmente pronto para despertar.>
Um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz citado pela matéria de referência aponta que 72% dos brasileiros relatam algum tipo de problema relacionado ao sono, o equivalente a cerca de 146 milhões de pessoas.>
Nesse cenário, o despertador continua sendo uma ferramenta necessária para muita gente. Ainda assim, a regularidade pode ajudar o organismo a reconhecer melhor o momento de dormir e acordar.>
Manter horários próximos todos os dias, inclusive nos fins de semana, evitar telas pouco antes de dormir e reservar tempo suficiente para o descanso são medidas apontadas por especialistas em sono. Quando esses hábitos se tornam consistentes, o relógio biológico pode assumir parte do trabalho que hoje ainda fica por conta do alarme.>