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Obra bilionária entre Bahia e Pernambuco marca nova etapa na transição econômica para deixar Brasil 'mais nordestino'

Consórcio 116 Sertões vence leilão para expandir trecho da rota cerca de 502 quilômetros

  • Foto do(a) author(a) Luiz Dias
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Luiz Dias

  • Agência Correio

Publicado em 9 de junho de 2026 às 04:04

A BR-116 é a principal ligação logística entre o Sudeste e o Nordeste. Ela corta o interior do país, conectando estados estratégicos como São Paulo e Minas Gerais ao sertão nordestino e chegando até Fortaleza
Processo ocorreu nesta quinta-feira (28), na B3, em São Paulo Crédito: Marinelson Almeida / Wikimedia Commons

A nova concessão da BR-116 entre Feira de Santana, na Bahia, e Salgueiro, em Pernambuco, pode ser vista como mais do que uma obra de infraestrutura. A chamada Rota dos Sertões entra em um movimento maior de reorganização econômica em direção ao Nordeste.

Essa é uma tendência lenta de retorno após décadas de transição econômica em direção ao sudeste. Segundo as Contas Regionais do IBGE, o Sudeste tem perdido lentamente seu monopólio, com uma queda de 4,4% entre 2002 e 2023 de participação no PIB nacional, em detrimento de regiões como o Norte e Nordeste.

Transporte de cargas é o setor mais direto da nova concessão, enquanto a BR-116 segue como eixo de ligação entre Nordeste e Sudeste por Moacir Ximenes / Wikimedia Commons

O que é que há?

A concessão da Rota dos Sertões foi definida em leilão da ANTT na B3, em São Paulo. O Consórcio 116 Sertões venceu a disputa ao oferecer desconto de 19,60% na tarifa básica de pedágio e ficará responsável por operar o trecho pelos próximos 30 anos no Nordeste.

O contrato envolve 502 quilômetros das BRs 116 e 324, entre Salgueiro, em Pernambuco, e o anel rodoviário de Feira de Santana, na Bahia. Ao todo, estão previstos R$ 8,5 bilhões ao longo da concessão, sendo R$ 4,1 bilhões destinados a obras e modernização.

A BR-116 é a principal ligação logística entre o Sudeste e o Nordeste. Ela corta o interior do país, conectando estados estratégicos como São Paulo e Minas Gerais ao sertão nordestino e chegando até Fortaleza
A BR-116 é a principal ligação logística entre o Sudeste e o Nordeste. Ela corta o interior do país, conectando estados estratégicos como São Paulo e Minas Gerais ao sertão nordestino e chegando até Fortaleza Crédito: Agencia CNT de Noticias / Wikimedia Commons

O pacote inclui 108,2 km de duplicações, vias marginais, acostamentos, passarelas, paradas de ônibus, bases de atendimento e ponto de descanso para caminhoneiros. A promessa é reduzir gargalos, aumentar a segurança e melhorar a logística regional no sertão.

Pontos fortes que puxam essa nova transição

Mapitoba: O avanço da nova fronteira agrícola em direção aos estados do Norte e Nordeste (Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia), em especial devido à transposição do rio São Francisco.

Indústria fruticultura: estudos ligados à Transnordestina avaliam custos e traçados de um ramal ferroviário até Petrolina. A proposta é fortalecer o escoamento da fruticultura irrigada do Vale do São Francisco.

Energia: A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apontou um aumento considerável na participação da energia eólica e solar na matriz energética brasileira. Um aumento de 3,7% em 2015 para 23,7% em 2024. Sendo a região nordeste uma potência nessas modalidades de geração energética.

Brasil já foi mais nordestino

Para entender essa tendência econômica no Nordeste, é preciso voltar ao início da formação econômica do país. Durante o período colonial, a região foi o primeiro grande centro de riqueza da América portuguesa. Principalmente pela indústria do açúcar pernambucana e baiana.

Graças ao clima, as províncias nordestinas prosperam, mas por pouco tempo, pois os ciclos econômicos giram e a indústria açucareira entrou em declínio
Graças ao clima, as províncias nordestinas prosperam, mas por pouco tempo, pois os ciclos econômicos giram e a indústria açucareira entrou em declínio Crédito: Frans Post / Wikimedia Commons

A mudança começou no século XVIII. Com a mineração em Minas Gerais, o eixo econômico se deslocou para o Centro-Sul, segundo estudo da UFRJ. A transferência da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, foi o principal marco dessa transição.

Além do já citado, a pesquisa também aponta três fatores principais para a mudança: os conflitos no extremo sul da colônia, a reorganização econômica provocada pelo ouro e a importância crescente do Rio de Janeiro no tráfico de escravizados.

Café, indústria e a força do Sudeste

No século XIX, o café aprofundou a mudança. O Rio de Janeiro e, depois, São Paulo se tornaram centros da principal atividade exportadora do país. O café acumulou capital, estimulou ferrovias, atraiu imigração, fortaleceu bancos e criou mercado consumidor.

Esse processo ajudou São Paulo a se transformar no principal polo industrial do Brasil. A obra “Raízes da concentração industrial em São Paulo”, de Wilson Cano, analisa justamente a relação entre economia cafeeira e a formação da Grande São Paulo.

No século XX, utilizando o capital do café, o Sudeste começou a mover sua industrialização e a criar empregos formais e urbanização acelerada. Enquanto isso, a antiga central do Brasil começou a ser tratada como um estorvo.

O Ipea lembra que, a partir das contribuições de Celso Furtado no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, o chamado GTDN, a região ganhou status de problema nacional. A discussão deixou de ser apenas sobre seca e passou a envolver subdesenvolvimento, estrutura produtiva, concentração fundiária e política regional.

Rota humana

Essa concentração econômica no Sudeste também criou uma rota humana. Durante décadas, milhões de nordestinos migraram para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais em busca de trabalho e melhores condições de vida.

O quadro ‘Retirantes’ (1944), de Cândido Portinari, representa através do expressionismo, o sofrimento dos imigrantes nordestinos forçados a abandonar sua terra
O quadro ‘Retirantes’ (1944), de Cândido Portinari, representa através do expressionismo, o sofrimento dos imigrantes nordestinos forçados a abandonar sua terra Crédito: Pribruder / Wikimedia Commons

Um dos principais indicadores desse movimento que ocorreu nos últimos dois séculos foi o Censo 2022. Segundo o IBGE, 19,2 milhões de pessoas viviam fora da região onde nasceram. Desse total, 10,4 milhões nasceram no Nordeste.

Em São Paulo houve saldo negativo pela primeira vez desde o início desse tipo de coleta, em 1991. Entre 2017 e 2022, o estado recebeu 736 mil imigrantes e perdeu 826 mil emigrantes, com saldo negativo de 90 mil pessoas
Entre os nordestinos que viviam fora de sua região de nascimento, 6,8 milhões estavam no Sudeste, cerca de 65,38% do total Crédito: Prefeitura de Itapevi / Wikimedia Commons

Efeito rebote

Porém, com uma transição econômica em ação, parte dessa população que não habita seus estados de origem, ou seus descendentes, tende a retornar para sua terra natal. Os dados mais recentes indicam uma mudança, mas não uma virada completa.

O Sudeste deixou de ser a região que mais concentra migrantes entre 2017 e 2022. Segundo o IBGE, a região recebeu 859 mil imigrantes e perdeu 980 mil emigrantes, saldo negativo de 121 mil pessoas.

Estados como a Paraíba tiveram saldo positivo de 31 mil pessoas, advindas principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro
Em São Paulo houve saldo negativo pela primeira vez desde o início desse tipo de coleta, em 1991. Entre 2017 e 2022, o estado recebeu 736 mil imigrantes e perdeu 826 mil emigrantes, com saldo negativo de 90 mil pessoas Crédito: Wilfredor / Wikimedia Commons

No Nordeste, o processo ainda está em andamento; a região continuou com saldo migratório negativo, mas a perda diminuiu bastante. O saldo passou de mais de 700 mil pessoas no Censo 2010 para cerca de 249 mil no Censo 2022. Uma queda de 451 mil pessoas em doze anos.

Estados como a Paraíba tiveram saldo positivo de 31 mil pessoas , advindas principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro
Estados como a Paraíba tiveram saldo positivo de 31 mil pessoas , advindas principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro Crédito: Marcos Elias de Oliveira Júnior / Wikimedia Commons

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