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Por que mulheres nascidas na década de 1960 aprenderam a dar conta de tudo em silêncio

Geração cresceu entre cobranças para cuidar da casa e da família e a conquista de espaço no mercado de trabalho, cenário que pode ajudar a explicar a dificuldade de algumas mulheres em reconhecer os próprios limites

  • Foto do(a) author(a) Fernanda Varela
  • Fernanda Varela

Publicado em 5 de setembro de 2026 às 13:28

Elisa, em Quem Ama Cuida
Elisa, em Quem Ama Cuida Crédito: Reprodução

Mulheres nascidas na década de 1960 cresceram em um período de profundas mudanças sociais. Enquanto conquistavam mais espaço no mercado de trabalho e maior independência financeira, muitas continuavam sendo cobradas para assumir a maior parte das responsabilidades com a casa, os filhos e a família.

Segundo a psicóloga Esther Boada, essa geração foi criada sob a ideia de que precisava ser capaz de lidar com tudo. Desde cedo, muitas meninas foram ensinadas a ser responsáveis, empáticas, fortes e discretas, características que, na vida adulta, podem contribuir para uma dificuldade em reconhecer os próprios limites.

Recomeço pós 60 anos por Divulgação

Na prática, isso significa que trabalho, casamento, maternidade e cuidados domésticos passaram a coexistir sem que necessariamente houvesse uma divisão equivalente das responsabilidades. Para algumas mulheres, mostrar cansaço ou admitir que não estavam conseguindo dar conta de tudo poderia ser interpretado como uma espécie de fracasso.

Por que ficar em silêncio se tornou uma resposta

A psicóloga explica que a educação recebida por muitas mulheres dessa geração também valorizava a manutenção da harmonia familiar. Diante de um conflito, ficar em silêncio poderia parecer mais adequado do que contrariar alguém ou manifestar insatisfação.

Esse comportamento aparece até mesmo na ficção. Em "Quem Ama Cuida", Elisa, personagem interpretada por Isabela Garcia, é apresentada como uma mulher extremamente ligada aos filhos e à família. Em determinado momento da trama, ela permanece calada diante do pai, Otoniel, vivido por Tony Ramos, quando a conversa envolve seu filho.

A situação ajuda a ilustrar um comportamento aprendido por algumas mulheres: evitar o confronto e guardar sentimentos para não provocar conflitos.

O peso de precisar ser forte o tempo inteiro

Essa cobrança pode continuar mesmo quando não existe mais alguém exigindo diretamente esse comportamento. A própria mulher pode passar a acreditar que deveria conseguir resolver tudo sozinha.

De acordo com a reflexão apresentada por Esther Boada, tristeza, frustração e exaustão também podem acabar escondidas. Para quem cresceu associando força à capacidade de suportar dificuldades, reconhecer que precisa de ajuda pode se tornar especialmente difícil.

O silêncio, portanto, não representa necessariamente falta de sentimentos. Em alguns casos, pode ser consequência de anos de aprendizado para controlar emoções, evitar incomodar outras pessoas e não demonstrar fragilidade.

Culpa também pode aparecer

Outro efeito apontado é a culpa. Uma mulher que aprendeu que é responsável pelo bem-estar de todos ao redor pode sentir que está falhando quando decide priorizar as próprias necessidades.

Assim, descansar, estabelecer limites ou simplesmente dizer "não" pode provocar desconforto. Mesmo diante do cansaço ou da insatisfação, existe a sensação de que seria preciso continuar dando conta de tudo.

O que pode mudar

Para Esther Boada, a experiência dessa geração também deixa um aprendizado importante. A capacidade de adaptação e reinvenção dessas mulheres pode caminhar ao lado de uma nova percepção sobre autocuidado.

Expressar sentimentos, admitir limites e construir redes de apoio não são incompatíveis com ser uma pessoa forte. A mudança está justamente em abandonar a ideia de que força significa suportar qualquer situação sem reclamar.

A psicóloga destaca que mulheres hoje na faixa dos 60 e 70 anos mostram que nunca é tarde para olhar para as próprias necessidades, se expressar e cuidar de si. O que não precisa ser transmitido às próximas gerações é justamente a expectativa de que uma mulher deve conseguir carregar tudo sozinha e em silêncio.