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Bianca Hirakawa
Agência Correio
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 09:09
Assassinatos, desaparecimentos e investigações policiais deixaram de ocupar apenas as páginas policiais e passaram a dominar podcasts, documentários e séries de streaming. O fenômeno do true crime, gênero dedicado a histórias de crimes reais, encontrou um público especialmente interessado: as mulheres. >
Estimativas reunidas por estudos indicam que elas representam entre 70% e 93% da audiência desse tipo de conteúdo. A presença feminina também aparece em eventos dedicados ao gênero e em plataformas digitais, onde podcasts e canais especializados reúnem milhares de ouvintes.>
Sugestões para quem quer saber mais sobre True Crime
Mas por que histórias que envolvem violência, medo e crueldade despertam tanto interesse entre elas?>
Uma das explicações está relacionada ao conceito de vigilância defensiva. Uma pesquisa conduzida por acadêmicos da Universidade de Graz, na Áustria, publicada no British Journal of Psychology, aponta que mulheres podem recorrer ao true crime como uma maneira de compreender melhor como determinados crimes acontecem e identificar possíveis sinais de perigo.>
A ideia é que conhecer o comportamento de criminosos e entender situações que antecedem determinados crimes poderia ajudar a reconhecer riscos e evitar situações semelhantes.>
A relação entre entretenimento e prevenção, portanto, pode ser uma das razões pelas quais o gênero desperta tanto interesse.>
O envolvimento emocional é outro aspecto apontado por especialistas. Para algumas espectadoras, acompanhar um caso significa tentar imaginar o que a vítima viveu e compreender como aquela situação poderia ter acontecido.>
A jornalista Erika Miranda observa essa proximidade entre o público feminino e as histórias apresentadas. Segundo ela, cerca de 79% de seus ouvintes são mulheres entre 18 e 27 anos.>
A empatia pode ajudar a explicar esse comportamento. Ao acompanhar a trajetória de uma vítima, algumas pessoas acabam se colocando naquela posição e refletindo sobre a própria vulnerabilidade.>
Essa identificação, porém, não significa necessariamente que todas as mulheres consumam true crime pelo mesmo motivo. O interesse pode reunir curiosidade, empatia, busca por informação e até uma tentativa de compreender melhor situações que provocam medo.>
Para a psicanalista Carol Tilkian, o true crime também pode funcionar como um espaço controlado para lidar com emoções difíceis.>
Ao acompanhar uma história de violência por meio de um documentário, podcast ou série, o público entra em contato com medo e ansiedade sem estar, naquele momento, diante de uma ameaça real.>
Esse contato mediado pode permitir que a pessoa observe uma situação perigosa à distância. A experiência, segundo a especialista, estaria relacionada a uma tentativa inconsciente de lidar com angústias e emoções que fazem parte da vida cotidiana.>
O interesse, portanto, não precisa significar apenas uma atração pela violência. Em alguns casos, o conteúdo pode oferecer uma maneira de processar sentimentos relacionados à insegurança e ao medo.>
A presença feminina também pode ser observada fora das plataformas digitais. Na edição de 2025 da CrimeCon, maior convenção de true crime dos Estados Unidos, 75% dos participantes eram mulheres.>
Outro levantamento, realizado pela empresa de inteligência de mercado CivicScience, apontou que pelo menos 26% das mulheres americanas consomem conteúdos relacionados ao gênero.>
Os números ajudam a dimensionar o tamanho desse público e mostram por que o mercado de entretenimento continua investindo em novas produções.>
A Netflix, por exemplo, lançou recentemente Elize: Sombras de uma Mulher, produção que aborda o assassinato de Marcos Matsunaga por sua esposa. Outras histórias reais também continuam chegando às telas, mantendo o gênero em evidência.>
O crescimento do true crime revela uma relação complexa entre curiosidade, medo e consumo de informação. Para parte do público feminino, acompanhar esses casos pode representar uma forma de entender situações de risco e pensar em estratégias de proteção.>
Ao mesmo tempo, o gênero transforma tragédias reais em produtos de entretenimento. Essa característica faz com que o consumo dessas histórias também envolva questões sobre como vítimas, criminosos e acontecimentos violentos são retratados.>
O interesse feminino pelo true crime, portanto, parece estar longe de ter uma única explicação. Para algumas mulheres, existe a curiosidade. Para outras, a identificação com as vítimas. Há ainda quem procure compreender comportamentos perigosos para se sentir mais preparada diante de possíveis ameaças.>
No fim, o fenômeno mostra como histórias de crimes reais ultrapassaram o universo policial e passaram a ocupar um espaço particular na cultura popular, especialmente entre mulheres que encontram nessas narrativas diferentes formas de compreender o medo e a própria vulnerabilidade.>