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Bianca Hirakawa
Agência Correio
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 20:22
Você já percebeu que costuma agir da mesma maneira quando um relacionamento começa a ficar sério? Talvez você procure cada vez mais confirmação do outro. Ou, ao contrário, sinta vontade de se afastar justamente quando a conexão parece mais profunda. >
Foi esse tipo de comportamento que fez a teoria do apego conquistar milhões de pessoas nas redes sociais. A ideia de que experiências anteriores podem influenciar a maneira como nos relacionamos hoje virou assunto recorrente nas redes sociais e também aparece em músicas, séries e livros. >
Relacionamento
Mas existe uma diferença importante entre entender um padrão de comportamento e transformar esse padrão em um rótulo definitivo. >
De acordo com especialistas, a teoria pode ser uma ferramenta útil para compreender a forma como buscamos proximidade e segurança. Ao mesmo tempo, seus conceitos podem ser simplificados ou aplicados de maneira equivocada quando retirados do contexto científico. >
Desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby na década de 1950, a teoria propõe que os vínculos estabelecidos com nossos primeiros cuidadores ajudam a formar expectativas sobre os relacionamentos. >
Quando o cuidado é disponível e consistente, a tendência é desenvolver uma percepção de que outras pessoas são confiáveis. Já experiências marcadas por imprevisibilidade ou distância emocional podem levar ao desenvolvimento de estratégias para evitar decepções e sofrimento.>
1. Apego ansioso>
Costuma estar associado ao medo de rejeição e abandono. A pessoa pode buscar reafirmação frequente, apresentar insegurança e ficar muito atenta a mudanças no comportamento de quem está próximo.>
2. Apego evitativo>
Pessoas com esse padrão tendem a valorizar bastante a independência. Podem ter dificuldade para confiar e se abrir emocionalmente e enxergar a intimidade como uma ameaça à própria autonomia.>
3. Apego evitativo-assustado>
Reúne duas necessidades que parecem opostas. Existe o desejo de construir uma relação próxima, mas também o medo de se sentir vulnerável. Assim, a pessoa pode buscar conexão e, pouco depois, se afastar.>
4. Apego seguro>
Está relacionado a uma maior facilidade para lidar tanto com a proximidade quanto com a independência. Essas pessoas tendem a confiar nos outros, comunicar suas necessidades e buscar apoio quando necessário. >
Algumas pesquisas indicam que pessoas com apego seguro tendem a apresentar melhores resultados não apenas nos relacionamentos amorosos. >
Elas também costumam lidar de maneira mais eficiente com o estresse e com situações como rejeição e perda. No ambiente profissional, podem apresentar relações mais positivas com colegas e chefes. >
A popularização do conceito fez com que a teoria do apego ultrapassasse os consultórios e os estudos acadêmicos. Nas redes sociais, os estilos passaram a ser usados para interpretar amizades, conflitos familiares e até para decidir se vale a pena continuar ou não com um possível parceiro. >
Também surgiram conteúdos que prometem identificar sinais de indisponibilidade emocional ou ensinar como superar o apego ansioso. >
O professor de psicologia Pascal Vritcka, da Universidade de Essex, no Reino Unido, estuda o tema há cerca de duas décadas. Para ele, a teoria oferece uma das melhores explicações para compreender as diferentes maneiras pelas quais as pessoas procuram apoio e conexão. >
Porém, os especialistas alertam para o risco de interpretações desatualizadas, mal informadas e, em alguns casos, prejudiciais. >
Um dos principais equívocos sobre a teoria é acreditar que cada pessoa nasce ou permanece para sempre presa a um único estilo. Os padrões podem apresentar estabilidade ao longo do tempo, mas não são necessariamente fixos. Mudanças podem acontecer principalmente durante períodos de transição. >
Alguns momentos podem ter influência especial, como:>
Essas transformações, entretanto, costumam acontecer de maneira gradual. Pessoas com padrões mais enraizados podem precisar de apoio profissional para promover mudanças. >
A possibilidade de transformação também foi importante para Lizzy, que se identificou com o estilo evitativo-assustado depois de perceber um padrão recorrente em seus relacionamentos.>
Ela conta que costumava encontrar defeitos nos parceiros após os primeiros encontros. Quando a conexão começava a ficar mais séria, o vínculo que desejava passava a parecer desconfortável e ameaçador.>
Para ela, conhecer a teoria foi como encontrar uma peça que faltava para entender a própria história.>
Ao mesmo tempo, Lizzy afirma que reconhecer um padrão não significa usá-lo como desculpa. A autoconsciência, nesse caso, pode ser o primeiro passo para buscar uma mudança.>
O psiquiatra Amir Levine, autor do livro Apegados, passou anos ajudando pessoas a identificar seus estilos de apego. Em seu trabalho mais recente, porém, ele mudou a perspectiva.>
Em vez de apenas perguntar "qual é o meu estilo?", a proposta passa a ser: como posso me tornar mais seguro?>
Levine chama atenção para o que define como pequenas interações aparentemente insignificantes, conhecidas pela sigla SIMIs.>
Uma mensagem de um amigo perguntando sobre seu fim de semana ou até o sorriso de um desconhecido podem ser exemplos dessas experiências cotidianas.>
Segundo o especialista, o cérebro monitora constantemente essas pequenas interações em busca de sinais de segurança. Experiências positivas podem, aos poucos, reforçar a percepção de que é possível confiar nas pessoas.>
O contrário também pode acontecer. Uma resposta que demora ou um compromisso que não é cumprido pode gerar pequenas reações de estresse no sistema nervoso.>
Para Levine, porém, existe um ponto importante: uma mesma pessoa pode apresentar diferentes estilos de apego dependendo do relacionamento.>
Por isso, em vez de olhar apenas para os vínculos que geram insegurança, ele recomenda observar aqueles em que você já se sente compreendido e protegido.>
Essas relações podem funcionar como uma espécie de referência para construir mais segurança emocional.>
Outra reflexão apresentada pelos especialistas é que os estilos de apego não devem ser classificados simplesmente como bons ou ruins.>
Levine, por exemplo, afirma que pessoas ansiosas podem ser muito atentas aos relacionamentos. Elas podem perceber pequenas mudanças de humor, tom de voz e comportamento que passam despercebidas por outras pessoas.>
Já indivíduos com tendências evitativas podem desenvolver grande independência e apresentar facilidade para lidar com situações de pressão.>
Isso não significa que os padrões não tragam dificuldades. Vrticka ressalta que cada estilo envolve determinados riscos e desafios que não devem ser ignorados.>
A questão, portanto, é evitar transformar uma característica em uma identidade permanente.>