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Teoria do apego vira febre nas redes: especialistas alertam contra rótulos, explicam como mudar padrões e trazem luz para se livrar do passado

Viral nas redes sociais, a teoria do apego ajuda a compreender padrões afetivos, mas especialistas alertam que eles não são imutáveis

  • Foto do(a) author(a) Bianca Hirakawa
  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Bianca Hirakawa

  • Agência Correio

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 20:22

Entenda os quatro estilos de apego e por que relações atuais também podem influenciar a forma como construímos vínculos
Entenda os quatro estilos de apego e por que relações atuais também podem influenciar a forma como construímos vínculos Crédito: Pexels

Você já percebeu que costuma agir da mesma maneira quando um relacionamento começa a ficar sério? Talvez você procure cada vez mais confirmação do outro. Ou, ao contrário, sinta vontade de se afastar justamente quando a conexão parece mais profunda.

Foi esse tipo de comportamento que fez a teoria do apego conquistar milhões de pessoas nas redes sociais. A ideia de que experiências anteriores podem influenciar a maneira como nos relacionamos hoje virou assunto recorrente nas redes sociais e também aparece em músicas, séries e livros.

A 'fase colega de quarto' pode antecipar o fim do relacionamento, dizem especialistas por Freepik

Mas existe uma diferença importante entre entender um padrão de comportamento e transformar esse padrão em um rótulo definitivo.

De acordo com especialistas, a teoria pode ser uma ferramenta útil para compreender a forma como buscamos proximidade e segurança. Ao mesmo tempo, seus conceitos podem ser simplificados ou aplicados de maneira equivocada quando retirados do contexto científico.

Como funciona a teoria do apego?

Desenvolvida pelo psiquiatra britânico John Bowlby na década de 1950, a teoria propõe que os vínculos estabelecidos com nossos primeiros cuidadores ajudam a formar expectativas sobre os relacionamentos.

Quando o cuidado é disponível e consistente, a tendência é desenvolver uma percepção de que outras pessoas são confiáveis. Já experiências marcadas por imprevisibilidade ou distância emocional podem levar ao desenvolvimento de estratégias para evitar decepções e sofrimento.

Os 4 estilos de apego

1. Apego ansioso

Costuma estar associado ao medo de rejeição e abandono. A pessoa pode buscar reafirmação frequente, apresentar insegurança e ficar muito atenta a mudanças no comportamento de quem está próximo.

2. Apego evitativo

Pessoas com esse padrão tendem a valorizar bastante a independência. Podem ter dificuldade para confiar e se abrir emocionalmente e enxergar a intimidade como uma ameaça à própria autonomia.

3. Apego evitativo-assustado

Reúne duas necessidades que parecem opostas. Existe o desejo de construir uma relação próxima, mas também o medo de se sentir vulnerável. Assim, a pessoa pode buscar conexão e, pouco depois, se afastar.

4. Apego seguro

Está relacionado a uma maior facilidade para lidar tanto com a proximidade quanto com a independência. Essas pessoas tendem a confiar nos outros, comunicar suas necessidades e buscar apoio quando necessário.

Algumas pesquisas indicam que pessoas com apego seguro tendem a apresentar melhores resultados não apenas nos relacionamentos amorosos.

Elas também costumam lidar de maneira mais eficiente com o estresse e com situações como rejeição e perda. No ambiente profissional, podem apresentar relações mais positivas com colegas e chefes.

Por que a teoria viralizou?

A popularização do conceito fez com que a teoria do apego ultrapassasse os consultórios e os estudos acadêmicos. Nas redes sociais, os estilos passaram a ser usados para interpretar amizades, conflitos familiares e até para decidir se vale a pena continuar ou não com um possível parceiro.

Também surgiram conteúdos que prometem identificar sinais de indisponibilidade emocional ou ensinar como superar o apego ansioso.

O professor de psicologia Pascal Vritcka, da Universidade de Essex, no Reino Unido, estuda o tema há cerca de duas décadas. Para ele, a teoria oferece uma das melhores explicações para compreender as diferentes maneiras pelas quais as pessoas procuram apoio e conexão.

Porém, os especialistas alertam para o risco de interpretações desatualizadas, mal informadas e, em alguns casos, prejudiciais.

Seu estilo de apego pode mudar

Um dos principais equívocos sobre a teoria é acreditar que cada pessoa nasce ou permanece para sempre presa a um único estilo. Os padrões podem apresentar estabilidade ao longo do tempo, mas não são necessariamente fixos. Mudanças podem acontecer principalmente durante períodos de transição.

Alguns momentos podem ter influência especial, como:

  • A adolescência, quando começam a surgir relacionamentos próximos fora da família
  • O início de um novo relacionamento
  • Um término
  • Experiências de luto

Essas transformações, entretanto, costumam acontecer de maneira gradual. Pessoas com padrões mais enraizados podem precisar de apoio profissional para promover mudanças.

A possibilidade de transformação também foi importante para Lizzy, que se identificou com o estilo evitativo-assustado depois de perceber um padrão recorrente em seus relacionamentos.

Ela conta que costumava encontrar defeitos nos parceiros após os primeiros encontros. Quando a conexão começava a ficar mais séria, o vínculo que desejava passava a parecer desconfortável e ameaçador.

Para ela, conhecer a teoria foi como encontrar uma peça que faltava para entender a própria história.

Ao mesmo tempo, Lizzy afirma que reconhecer um padrão não significa usá-lo como desculpa. A autoconsciência, nesse caso, pode ser o primeiro passo para buscar uma mudança.

Como construir um apego mais seguro?

O psiquiatra Amir Levine, autor do livro Apegados, passou anos ajudando pessoas a identificar seus estilos de apego. Em seu trabalho mais recente, porém, ele mudou a perspectiva.

Em vez de apenas perguntar "qual é o meu estilo?", a proposta passa a ser: como posso me tornar mais seguro?

Levine chama atenção para o que define como pequenas interações aparentemente insignificantes, conhecidas pela sigla SIMIs.

Uma mensagem de um amigo perguntando sobre seu fim de semana ou até o sorriso de um desconhecido podem ser exemplos dessas experiências cotidianas.

Segundo o especialista, o cérebro monitora constantemente essas pequenas interações em busca de sinais de segurança. Experiências positivas podem, aos poucos, reforçar a percepção de que é possível confiar nas pessoas.

O contrário também pode acontecer. Uma resposta que demora ou um compromisso que não é cumprido pode gerar pequenas reações de estresse no sistema nervoso.

Para Levine, porém, existe um ponto importante: uma mesma pessoa pode apresentar diferentes estilos de apego dependendo do relacionamento.

Por isso, em vez de olhar apenas para os vínculos que geram insegurança, ele recomenda observar aqueles em que você já se sente compreendido e protegido.

Essas relações podem funcionar como uma espécie de referência para construir mais segurança emocional.

Nem todo padrão inseguro é apenas uma fraqueza

Outra reflexão apresentada pelos especialistas é que os estilos de apego não devem ser classificados simplesmente como bons ou ruins.

Levine, por exemplo, afirma que pessoas ansiosas podem ser muito atentas aos relacionamentos. Elas podem perceber pequenas mudanças de humor, tom de voz e comportamento que passam despercebidas por outras pessoas.

Já indivíduos com tendências evitativas podem desenvolver grande independência e apresentar facilidade para lidar com situações de pressão.

Isso não significa que os padrões não tragam dificuldades. Vrticka ressalta que cada estilo envolve determinados riscos e desafios que não devem ser ignorados.

A questão, portanto, é evitar transformar uma característica em uma identidade permanente.

Tags:

Relacionamentos Comportamento Curiosidades