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Heider Sacramento
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 18:53
Interpretar um homem que perdeu completamente a memória fez Vinicius Neri mergulhar em uma experiência pouco convencional como ator. Em “Fúria”, série brasileira da Netflix, ele vive Marcelo, um homem resgatado à beira da morte que recebe uma nova identidade, mas começa a perceber que seu corpo ainda guarda marcas de uma vida que a mente apagou. >
Criada por Igor Verde e dirigida por José Henrique Fonseca, a produção acompanha o personagem enquanto ele tenta reconstruir a própria história e se reinserir na sociedade. O problema é que, por trás da oportunidade de recomeçar, existe um passado atravessado por violência. A série chegou ao catálogo da Netflix em julho.>
Para Vinicius, o primeiro desafio foi justamente não deixar que a ausência de memória transformasse Marcelo em alguém sem reação. “Acho que o maior desafio de interpretar um personagem sem memória é construir um personagem que não seja apático, essa é uma grande armadilha”, explica.>
A solução encontrada pelo ator foi trabalhar com aquilo que permanecia no corpo. Marcelo não conseguia acessar conscientemente suas lembranças, mas havia experiências intensas que continuavam presentes fisicamente. “É uma memória que tá no corpo, e ela se apresenta logo no início da história”, afirma.>
Vinicius Neri
Vinicius conta que precisou manter essa tensão durante toda a construção do personagem. “Pra mim, o exercício, era sempre de conter uma coisa, e pra conter a coisa precisa existir, precisa tá lá. Ficar contido sem preenchimento seria um tiro no pé”, diz.>
O ator descreve o processo como a necessidade de “manter aceso um fogo”, algo que Marcelo precisasse negociar o tempo inteiro para não deixar escapar. Ao mesmo tempo, o personagem tinha diante de si uma possibilidade inédita: começar novamente com a ajuda das pessoas que o acolheram. “Ele precisava tentar ser um bom menino, mas falhava nisso”, resume.>
Outro cuidado esteve na maneira como Marcelo se comunica. Sem referências sobre a própria vida, ele também precisava reaprender códigos que parecem básicos para quem vive em sociedade. “Se ele era um cara que perdeu a noção com a linguagem, com os códigos sociais… e como que ele ia aos poucos reaprendendo isso, qual era a medida… isso me mantinha num trilho que exigia muita atenção”, conta.>
Violência sem justificativa>
A construção ficou ainda mais complexa quando Vinicius precisou acessar o passado de Marcelo. Antes da amnésia, o personagem foi submetido a experiências traumáticas e se tornou responsável por atos de extrema violência. “Ah, foi denso, né. O Marcelo foi sujeito a coisas muito pesadas, experiências muito traumáticas”, afirma o ator.>
Para chegar a esse lugar, Vinicius precisou “habitar esses lugares de ausência absoluta de humanidade” e acessar o lado mais instintivo do personagem. “Por um lado é gostoso acessar um estado em que não existe as convenções sociais e virar bicho mesmo, o Carcará. Tem um prazer, um expurgo nisso, mas ao mesmo tempo um horror. Uma relação de encanto e desespero”, descreve.>
A intenção, segundo ele, era também mostrar que a violência fazia parte de Marcelo de uma maneira mais complexa. “Eu queria trazer essa camada também, de que parte desse cara que se identificava com isso, que de alguma forma sentia prazer em realizar essa violência toda. Que de alguma forma também era devolver ao mundo essa violência que ele vivia.”>
Durante a preparação, Vinicius chegou a conversar com Igor Verde sobre as possíveis motivações psicológicas do personagem. O ator conta que tentou interpretar a violência como uma espécie de devolução das agressões que Marcelo havia sofrido.>
A resposta do criador da série mudou sua perspectiva. “Ele falou: ‘cara, o ser humano não precisa de razão pra ser violento, está na condição humana’”, relembra.>
A ideia ajudou a construir um personagem que não precisava ser explicado o tempo todo. “Como o interesse era de se fazer um personagem que fosse amoral, ou seja, está em suspensão com os códigos sociais, existir esse prazer pela violência era bem-vindo”, explica.>
Um novo momento na carreira>
Além dos desafios do personagem, “Fúria” chegou em um momento de reflexão para Vinicius sobre a própria carreira. O ator define a produção como “a colheita dessa trajetória” que percorreu até aqui. “Ela chegou num momento muito oportuno, porque eu tava há um tempo negociando com a minha carreira, entendendo que talvez eu precisasse tomar decisões mais pautadas num crescimento comercial pra me inserir no mercado, deixando em segundo plano o meu desejo artístico”, conta.>
Vinicius Neri
A série, segundo ele, acabou mostrando que não precisava escolher entre uma coisa e outra. “Fúria chegou pra mim dizendo pra eu confiar em quem eu sou e no que eu tenho pra oferecer ao mundo como artista”, afirma.>
Para Vinicius, o projeto conseguiu unir uma grande projeção comercial a uma história com profundidade. “Foi um trabalho que uniu uma projeção comercial muito grande com um trabalho cheio de propósito, profundidade, e que eu me reconheço muito nos assuntos e na história.”>
O desafio de atuar para a câmera>
As experiências recentes no audiovisual também fizeram o ator repensar a própria atuação. Acostumado ao teatro, Vinicius explica que o set exige um tipo diferente de concentração. “Os atores estamos sozinhos buscando preservar nossa vulnerabilidade pra na hora do ação a gente entregar vida na câmera, enquanto a equipe tá numa pegada mais operacional, lidando com a cena com sensibilidade mas usando bastante a razão pra construir a cena”, explica.>
A principal diferença, para ele, está no fluxo. No teatro, depois de toda a preparação, a história acontece sem interrupções. No audiovisual, mesmo no momento da gravação, tudo pode parar por uma questão técnica. “No audiovisual mesmo na hora do valendo a gente precisa negociar porque às vezes a cena para no meio porque a luz falhou, ou a câmera, ou mesmo um outro ator. É uma sensação de ‘ensaio técnico’ constante”, define.>
É justamente esse exercício que mais tem despertado sua curiosidade profissional. “O que mais tem me interessado nesse momento é aprender a ser o ator que eu sou e acessar as minhas potências nessa circunstância do set.”>
Quando a responsabilidade vira prazer>
A experiência também mudou a maneira como Vinicius encara a pressão de trabalhar no audiovisual. Nos primeiros projetos, ele conta que sentia mais intensamente o peso de saber que aquela atuação ficaria registrada. “A pressão que existe em fazer uma coisa que vai ficar registrada pro resto da história, era muito mais presente pra mim nos primeiros trabalhos, o quanto essa responsabilidade virava pressão”, lembra.>
Hoje, a relação é diferente. “Acho que agora eu tô mais amadurecido pela experiência mesmo, e entendo que é muito mais gostoso de assistir e de viver uma coisa que tem prazer.”>
Para o ator, a responsabilidade pelo trabalho já não precisa ser conquistada a cada novo projeto. “Então, a responsabilidade com o trabalho já é algo que eu tenho conquistado, não preciso fazer nada pra tê-la”, afirma. O aprendizado agora é outro: “Tô aprendendo a fazer com que ela vire prazer e não pressão.”>