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Profissionais querem mais do que ticket refeição e vale transporte

Empresas estão repensando programas de benefícios para reter talentos

  • Foto do(a) author(a) Priscila Natividade
  • Priscila Natividade

Publicado em 4 de dezembro de 2022 às 11:00

. Crédito: Ilustração: Quintino Andrade

Assistência médica e odontológica, convênio com empresas parceiras, vale-transporte e alimentação. Auxílio-creche, talvez. Até aí, essa costuma ser a política de benefícios que as empresas oferecem na hora de contratar um profissional. Mas se a gente disser, que o mundo do trabalho mudou tanto na pandemia que esses programas estão indo além do ticket? Afinal, quem imaginaria que uma companhia iria ajudar a financiar um tratamento de reprodução assistida? 

Bom, já existe um movimento de empresas que estão inovando na sua cesta de benefícios, criando alternativas interessantes para reter os seus talentos. Até porque segundo o levantamento mais recente feito pela plataforma de benefícios Betterfly, sete entre cada dez profissionais (77%) gostariam que a empresa onde trabalham melhorasse o seu pacote de benefícios.  

O relatório de bem-estar 2022 da Betterfly divulgado no final do último mês, ouviu mais de 4 mil trabalhadores em países onde atua entre eles o Brasil, Chile, Argentina, Colômbia, Espanha, Equador, México e Peru. A pesquisa foi realizada entre 27 de setembro e 06 de outubro, com homens e mulheres entre 18 e 65 anos. “À medida em que for oferecido ao colaborador uma experiência de bem-estar alinhada com o que se busca, eles se sentirão mais engajados e comprometidos”, destaca a head de Pessoas e Cultura da Betterfly no Brasil, Virgínia Vairo.  

Ainda conforme os dados, 48% dos trabalhadores afirmaram que os benefícios podem servir como fator de motivação. Sobre as questões de bem-estar consideradas essenciais dentro do ambiente de trabalho, os colaboradores listaram a saúde financeira (65,5%), apoio mental e emocional (56,7%) e apoio pessoal (56,7%) – três pontos praticamente empatados em importância - como suas principais demandas.“Para que as organizações cresçam e se mantenham interessantes para as pessoas, é necessário sempre revisitar os benefícios oferecidos, pensando nas especificidades regionais e nas demandas e atualizações de mercado”, complementa a head. Somente o básico e garantido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já não basta mais, se a empresa quiser reter seus melhores profissionais. Lançado a cerca de três meses, o Programa Minha Hora implementado pela PepsiCo é um desses exemplos. Na Bahia, a unidade fabril do Toddy e Toddynho fica em Feira de Santana e emprega 230 colaboradores. A iniciativa oferece um reembolso anual de até R$ 25 mil, inicialmente, para tratamentos de reprodução assistida, entre eles o de fertilização in vitro, inseminação artificial, além de congelamento de óvulos. O benefício é válido para todos os funcionários, sem restrição de gênero ou identificação. 

“O programa surgiu como sugestão do grupo de afinidade interno que discute a pauta de gênero, o EmpoderA. Estamos sempre revisando nossos benefícios, e considerando as necessidades das nossas pessoas para podermos oferecer algo que realmente as auxiliem pessoal e profissionalmente. Nossa taxa de engajamento cresceu 8p.p nos últimos anos. Reflete na produtividade, engajamento e outros aspectos positivos que nos impulsionam como negócio”, ressalta a diretora de Benefícios da PepsiCo Brasil, Leticia Dias. 

O outro benefício fruto dessa revisão na PepsiCo é o de Retificação de Nome e Gênero em documentos. Na companhia, todas as pessoas trans já têm seu nome social nos e-mails e crachás. Além de terem os custos pagos pela PepsiCo, as pessoas contam com suporte jurídico da Bicha da Justiça, uma empresa especialista e atuante na luta pelos direitos da comunidade LGBTI+, que oferece assessoria jurídica livre de LGBTfobia. “A empresa também disponibiliza suporte psicológico por meio de programas internos de apoio à saúde mental e terapia junto ao plano de saúde, sem limite de sessões”,  complementa. 

Na operação nacional da marca, somando as duas iniciativas, são 26 inscrições de colaboradores até o momento. Aqui no estado, atualmente, a  PepsiCo tem duas vagas abertas para a área de Vendas. Os interessados podem se candidatar por meio do site www.PepsiCoJobs.com. 

Revolução  Para o psicólogo organizacional especialista em liderança e autor do livro Playfulness! Trilhas para uma vida resiliente e criativa (DVS Editora, 2021), Lucas Freire, nos últimos anos o mundo do trabalho vem assistindo a uma revolução na direção de novos modelos de gestão e experiência dos funcionários. “Esta revolução é fruto de cobranças sociais por relações de trabalho mais saudáveis e positivas.  Assim, temas como bem-estar, qualidade de vida e saúde integral tomaram caráter de urgência nas agendas corporativas remodelando ambientes, relações e pacotes remuneração e benefícios”, opina.  As pessoas passaram a evitar ambientes tóxicos e a investir mais em si mesmas. “Num caldeirão de grandes mudanças, a coerção, gestão por medo e cargas de stress desnecessárias ficarão de fora deste processo das organizações de sucesso. Ambientes que promovam autonomia, leveza e bem-estar, tornam-se necessários às demandas de alta performance e autocuidado que marcam a pós-pandemia e isso passa por ouvir e direcionar incentivos e benefícios, às necessidades individuais”. 

A consultora da LHH Brasil especializada em recrutamento e transição de carreira, Mariangela Schoenacker concorda que o cenário de talentos mudou. “Mais concorrência por recursos, mudança nas percepções em relação às empresas e expectativas de trabalho. Ou seja, a pandemia afetou a colaboração, o senso de pertencimento e bem-estar. Muitos fatores contribuem para a mudança de emprego, no entanto, os profissionais estão mais atentos depois de refletirem sobre sua carreira e vida pessoal”. 

Atenção a individualidade, a diversidade, personalização dos benefícios e desenvolvimento dos colaboradores se tornam cada vez mais determinantes para aumentar a produtividade.“Estas mudanças foram aceleradas pela pandemia, quando se passou a ter um olhar mais amplo para o cuidado da saúde e bem-estar do colaborador.  Essa visão tem sido fundamental para a diminuição de custos e aumento da produtividade, além da redução das taxas de turnover (rotatividade de pessoal) entre os trabalhadores”, analisa.No caso do Grupo Boticário, antes de adotar a Licença Parental Universal (LPU), a companhia ouviu 816 pais e mães colaboradores. Dos entrevistados, 72% afirmaram apoiar a licença parental universal, já 75% dos pais entrevistados reforçaram que gostariam de ter a oportunidade de uma licença parental estendida. O benefício 100% remunerado e obrigatório completou um ano de implementação em julho de 2022 e é válido, portanto, para homens, casais homoafetivos e pais de filhos não consanguíneos, além das mulheres, que já tinham direito a licença de até 180 dias. 

“Sabemos que ainda há muito o que ser feito. Há um ano, demos mais um grande passo quando implantamos a licença parental universal de forma pioneira em nosso setor e no país, contribuindo, ainda, com a construção de um cenário social e profissional mais equânime”, afirma a gerente de Diversidade e Cultura do Grupo Boticário, Viviane Pavanelli. 

No estado, além da fábrica em Camaçari, a marca tem também Centro de Distribuição no município de São Gonçalo dos Campos, chegando a cerca de 14 mil colaboradores. Para consultar as vagas abertas para os modelos de trabalho remoto, híbrido e presencial é necessário acessar a página www.grupoboticario.com.br/vagas/.  No Brasil, entre julho de 2021 a novembro de 2022, foram concedidas 1.007 Licenças Parentais Universais pelo Grupo  Boticário. 

“O futuro do trabalho aponta que os benefícios são uma das ferramentas importantes no processo de engajamento, satisfação, entrega e desenvolvimento do colaborador. Aqui menciono benefícios não somente financeiros, mas os que permitem o aprendizado e desenvolvimento de novas habilidades, que proporcionem um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, que sejam extensivos a familiares”, acrescenta. 

Um dos beneficiados pelo programa foi assistente de logística na Fábrica de Camaçari, Emerson da Silva, 44 anos. Elisa nasceu em junho e os 120 dias de licença fortaleceram ainda mais a família. “Já tínhamos uma rede de apoio, mas a gente viu que realmente precisávamos desse tempo. Foi muito aprendizado mesmo. Minha esposa teve dificuldades de amamentar, eu pude estar ali dando força para ela não desanimar. Elisa é uma criança saudável graças a Deus, já fez cinco meses. Foi muito importante passar esse momento juntos”. 

Emerson é pai também de Isac, de 10 anos, que tem Diabetes tipo 1. “Meu primeiro filho, eu só tive cinco dias como a lei estabelece. Voltei ao trabalho agora em outubro e com todo gás, como se estivesse enchido o litro. E aí é  arregaçar as mangas depois de todo esse suporte”. 

Humanizado e inclusivo  Já na Kimberly-Clark, o Programa de Acompanhamento Materno - serviço que conta com uma enfermeira dedicada à gestante -  presta apoio do início ao fim da gestação até o seu retorno ao trabalho. É oferecida ainda a isenção da coparticipação sobre consultas e exames durante o pré-natal e o puerpério. Inclusive, para bebês prematuros, a licença maternidade de seis meses pode ser estendida. No caso de bebês nascidos até 28 semanas, a prorrogação é de dois meses. Para nascidos entre 28 e 37 semanas, a prorrogação é de um mês. 

“Essa enfermeira se comunica com a colaboradora por meio de ligações telefônicas frequentes, acompanhando exames, tirando dúvidas e oferecendo todo o suporte emocional que seja necessário nesse momento. Além disso, existe a possibilidade de colaboradoras com filhos de até um ano levarem o bebê e um acompanhante – com todas as despesas pagas - para viagens a trabalho. Pensamos no bem-estar de nossos colaboradores e em como apoiar as mães nessa jornada tão transformadora, a fim de criar um ambiente verdadeiramente inclusivo para elas”, comenta o diretor de Recursos Humanos da Kimberly-Clark, Felipe Balbin. 

São mais de 460 colaboradores na unidade de Camaçari, onde a marca fabrica absorventes Intimus, fraldas Huggies e papéis higiênicos Neve. O programa de acompanhamento materno está com 65 mães ativas atualmente. Vagas disponíveis podem ser consultadas no site: www.vagas.com.br/empregos/kimberly-clark. “Olhar com atenção para as competências comportamentais é fundamental para que a gente possa continuar promovendo uma cultura corporativa flexível e empática e, ao mesmo tempo, guiada pelo desempenho”. 

Mãe de primeira viagem, foi nesse acompanhamento que a supervisora de manutenção Lara Castro, 33 anos, encontrou o apoio que precisava durante a gestação  de Helena. “Sempre desejei Helena, mas também tinha uma preocupação muito grande com a minha carreira.  No programa, encontrei espaço para tirar algumas dúvidas sobre a gestação, sintomas, prazos que exames e vacinas, cuidado para o parto e maternidades e também para falar de mim e como estava passando por todos esses momentos”, conta. 

No retorno ao trabalho, Lara foi promovida. “Os primeiros meses não foram fáceis, a dupla jornada consome muito de nós. Mas, aos poucos, minha bebê foi crescendo e fomos adaptando nossas rotinas. Hoje Helena é uma bebê linda e que recentemente completou um aninho”. 

Para a consultora de Recursos Humanos, Thaisa Fakhouri, os melhores talentos vão buscar as melhores condições de trabalho e as empresas visionárias. “No pós-pandemia, o valor agregado está no equilíbrio entre vida pessoal e profissional.  Para a inclusão acontecer, é necessário se adaptar as mudanças e ter flexibilidade, entendendo as particularidades dos colaboradores”. 

Valores que se encontram em um ambiente de trabalho mais inclusivo e humanizado. “A pandemia transformou tudo. Os benefícios fazem grande diferença no equilíbrio de qualidade de vida dos colaboradores. O mais importante, sem dúvidas, é investir esforços em inovação, capacitação técnica, valorizando a diversidade, saúde e bem-estar”, acrescenta a especialista.