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A cidade que parecia não ter sotaque enfim encontra sua própria voz, pesquisa da UnB identifica marcas da fala brasiliense

Estudo com 30 moradores revela características próprias na pronúncia de R e S e ajuda a explicar por que o jeito de falar da capital parece tão diferente

  • Foto do(a) author(a) Amanda Cristina de Souza
  • Amanda Cristina de Souza

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 07:23

Testes em laboratório analisam ondas sonoras de nativos e mapeiam o sotaque candango nas ruas da capital.
Testes em laboratório analisam ondas sonoras de nativos e mapeiam o sotaque candango nas ruas da capital Crédito: Reprodução

O som que ecoa pelas tesourinhas e eixões ganhou uma investigação científica no Laboratório de Fonética e Fonologia do Instituto de Letras (Laffon/IL). Sob a coordenação do professor Ronaldo Mangueira Lima Júnior, a pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) investiga o sotaque brasiliense e utiliza o software PRAAT para analisar as características acústicas da fala de 30 voluntários de segunda geração. Os resultados iniciais indicam que a fala da capital não é neutra nem representa ausência de sotaque, mas apresenta características próprias que ajudam a diferenciá-la de outras variedades do português brasileiro.

A cidade sem semáforos: entenda o "truque" de Brasília que confunde qualquer motorista por Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O que chama atenção na fala do quadradinho está principalmente no comportamento de dois sons

O /S/ alveolar: emitido sem o chiado característico de algumas variedades do português brasileiro, como a pronúncia encontrada no Rio de Janeiro e em algumas regiões do Nordeste e do Norte.

O /R/ fricativo glotal: caracterizado por uma leve passagem de ar, sem a marcação mais forte encontrada em outras variedades, como o chamado “R caipira”, o /R/ carioca ou a pronúncia com vibração da ponta da língua.

Essas características contribuem para a percepção de uma fala menos marcada por traços regionais muito fortes. É justamente essa característica que, durante muito tempo, alimentou a percepção de que Brasília não teria sotaque. O estudo mostra que a ideia de neutralidade não significa ausência de sotaque.

““O que encontramos, até o momento, é que o /S/ do brasiliense é o que tecnicamente chamamos de ‘alveolar’, ou seja, é um /S/ que não chia. Diferente do que tem no Rio de Janeiro e em alguns outros estados do Nordeste e do Norte com diferentes maneiras de chiar, e que tecnicamente é chamado como ‘palatalizado’”, explica Ronaldo Lima.”

Ronaldo Lima Júnior

Coordenador do projeto e professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas da UnB

A pesquisa da UnB sobre o sotaque brasiliense

O trabalho concentra-se especialmente na fala do brasiliense de segunda geração, grupo formado por pessoas nascidas no Distrito Federal, entre 18 e 40 anos, cujos pais ou cuidadores também nasceram na capital.

O resultado inicial aponta para a formação de uma identidade linguística própria da capital. Em vez de simplesmente reproduzir características trazidas por famílias de outras partes do país, a fala brasiliense apresenta padrões que vêm sendo investigados pela pesquisa.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores não dependeram apenas da percepção auditiva. A equipe utilizou técnicas de acústica experimental para transformar a fala dos participantes em dados mensuráveis.

Os 30 voluntários gravaram materiais previamente definidos, entre eles 63 frases utilizadas como guia e a fábula “O Vento Norte e o Sol”. Também participaram de tarefas destinadas a captar uma fala mais espontânea, como a descrição de um vídeo e uma simulação de entrevista.

Os registros foram analisados com o PRAAT, software utilizado em pesquisas de fonética para estudar propriedades físicas da fala. O programa permite observar, entre outros aspectos, frequências, duração dos sons, características das vogais, nasalidade e acentuação.

A partir dessas informações, os pesquisadores conseguiram comparar padrões e identificar regularidades na fala dos participantes. A pesquisa da UnB sobre o sotaque de Brasília, portanto, não se limita à percepção de quem escuta um brasiliense falar. Ela procura demonstrar, por meio de medidas acústicas, quais características podem diferenciar a fala da capital.

Décadas de mistura cultural

A história da capital ajuda a entender por que esse resultado chama atenção. Brasília nasceu da migração de brasileiros de diferentes regiões. Mineiros, nordestinos, goianos, paulistas, cariocas e moradores de várias outras partes do país chegaram ao Distrito Federal carregando seus próprios modos de falar.

Os primeiros moradores trouxeram essas marcas linguísticas para a nova capital. As gerações seguintes, porém, cresceram em um ambiente diferente. É justamente nesse ponto que entra o brasiliense de segunda geração escolhido pela pesquisa. São pessoas que nasceram no DF e cresceram convivendo no ambiente urbano da capital, com pais ou cuidadores que também nasceram na região.

Ao longo do tempo, a convivência entre diferentes formas de falar favoreceu um processo de nivelamento. Traços muito marcados de sotaques regionais podem perder força, enquanto determinadas características passam a se repetir entre os moradores.

O resultado é uma fala que não precisa soar como a de outra região brasileira para ser reconhecida. O sotaque brasiliense surge justamente dessa combinação entre diversidade de origem e formação de padrões locais.

Novos estudos da UnB acompanharão as vozes da capital

Os dados reunidos pelo Instituto de Letras da UnB formam um acervo que poderá ser utilizado em novos trabalhos acadêmicos. A expectativa é que essa primeira fase do projeto abra caminhos para pesquisas de graduação e pós-graduação capazes de acompanhar a transformação da fala da capital ao longo do tempo.

Isso permitirá observar se as características identificadas agora vão permanecer estáveis ou se novos elementos serão incorporados à fala dos moradores de Brasília. A conclusão mais imediata, porém, já muda uma velha impressão sobre a cidade. Brasília não fala sem sotaque. Ela fala com características próprias, construídas em meio à história de uma capital formada pelo encontro de brasileiros de diferentes regiões.

E, 66 anos depois da inauguração da capital, a ciência começa a colocar essa voz no papel.

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Língua Brasília Língua Portuguesa Linguagem