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Benin-Bahia sob as lentes de Arlete Soares

Exposição Lapso Temporal celebra os 35 anos da Casa do Benin e o intercâmbio entre baianos e beninenses

  • Foto do(a) author(a) Mari Leal
  • Mari Leal

Publicado em 31 de julho de 2023 às 06:00

Feira ao ar livre no Benin
Feira ao ar livre no Benin Crédito: Arlete Soares

Entre 1986 e 1987, a fotógrafa baiana Arlete Soares esteve três vezes no continente africano, precisamente no Benin, junto a delegações baianas que incluíram artistas, ativistas e políticos. A proposta, à época, era estreitar os laços entre beninenses e baianos, além de promover trocas socioculturais e artísticas. Um ano depois, nasceu a Casa do Benin, no Pelourinho, fruto de um projeto da prefeitura de Salvador, por meio da então récem-criada Fundação Gregório de Mattos (FGM).

Na inauguração da sede, os registros fotográficos feitos por Arlete ao longo das viagens, assim como os captados na estadia de delegações beninenses na Bahia, transformados em exposição, celebraram a irmandade além Atlântico. Passados 35 anos, as imagens captadas pelas lentes da baiana retornarão à Casa do Benin, em uma nova instalação denominada Lapso Temporal – Casa do Benin 35 anos, que abre para visitação nesta terça (1º).

Arlete Soares, Lia Krucken e
A fotógrafa Arlete Soares e as curadoras Lia Krucken e Goli Guerreiro Crédito: Marina Silva

A curadoria geral da exposição é assinada pela antropóloga Goli Guerreiro, que se juntou à Lia Krucken, artista e professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), e reuniu cinco artistas de diferentes linguagens - teatro, filosofia, curadoria, dramaturgia, artes visuais – para a materialização da proposta. O resultado surpreendeu até a própria Arlete.

“Eu estou muito impressionada. A própria montagem, a disposição das imagens. Tem fotos que descem do teto em tecido, fotos em tamanho real. Eles estão quase que dialogando com as fotos. Eu estou muito impressionada. São pessoas jovens, são pessoas pretas, em sua maioria. É uma geração bem bonita”, conta Arlete.

Equipe de curadoria da esposição
Equipe de curadoria da exposição Crédito: melissa morena/divulgação

A escolha de artistas jovens para trabalhar na montagem, pessoas que nem mesmo tinham nascido à época da primeira exposição, foi proposital, como explica Goli Guerreiro.

“Eu convidei Lia Krucken para a gente pensar o projeto. A gente queria que essas imagens, que ficaram guardadas por 35 anos, viessem a ser apresentadas através de um mirada jovem, de artistas contemporâneos, de outros corpos diferentes daqueles que montaram a primeira exposição. Acho que o grande charme da nossa exposição é esse núcleo curatorial”. Integram a equipe Álex Ígbò, JeisiEkê de Lundu, Diego Araúja, Laís Machado, Rogério Felix e a própria Lia Krucken.

“A exposição ganhou vitalidade. A gente olha para o passado, aprende com essas pessoas, mas a gente propõe uma coisa século XXI”, completa Goli.

Memória

As viagens ao Benin ficaram intensamente marcadas na memória de Arlete. Estando lá, reconhecia Salvador, com destaque para a região da Feira de São Joaquim e de Água de Meninos, locais em da capital baiana que fizeram parte de seu crescer devido ao ofício dos pais, que tinham uma barraca na região. “Lá [no Benin] eu olhava para as pessoas e tinha a sensação de que conhecia, que parecia com alguém. O jeito de falar, o gestual, a feira. Lá achava que eu estava aqui e aqui que eu estava lá”, conta Arlete.

À época das imersões, além de editora do ilustre fotógrafo Pierre Verger, Arlete também era uma das diretoras da FGM. Nas viagens também cumpria a missão de intérprete. “Quando eu vejo as fotos hoje eu até me emociono. Muitas daquelas imagens que estão na exposição eu nem me lembrava que tinha feito. Quando eu olho me toca muito”. O acervo de registros fotográficos tem mais de 2 mil fotos. A nova instalação é formada por 130 imagens.

Carregada de emoção, Arlete também relembra as personalidades com quem teve a oportunidade de compartilhar os momentos no Atlântico Sul, entre elas Mãe Stella de Oxóssi, Arany Santana, Gilberto Gil, João Jorge, Vovô do Ilê, Carybé, além do companheiro de profissão e amigo, Pierre Verger, e a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi.

Exposição Lapso Temporal, de Arlete Soares
Exposição Lapso Temporal, de Arlete Soares Crédito: Arlete Soares

Lapso Temporal permanecerá aberta ao público até o dia 16 de dezembro, podendo ser visitada de terça a sexta, das 10h às 17h, e aos sábado, das 9h às 16h. A entrada é gratuita. Ao longo do período também ocorrerão ações diversas, como colagem de lambe, oficinas de escrita com imagens e Creollage, rodas de conversas com Arlete Soares e convidados.

A exposição uma realização da Fundação Gregório de Mattos, Goli Guerreiro e Acervo Arlete Soares, com financiamento da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e prefeitura de Salvador.

Arlete Soares

A fotógrafa baiana Arlete Soares (1940) é natural da cidade de Valença. Chegou em Salvador ainda criança. É formada em pedagogia. Durante o regime militar no Brasil, migrou para Paris, na França, onde começou a fotografar. Fundou e comandou por mais de 40 anos a Editora Corrupio.

Casa do Benin

A Casa do Benin, espaço cultural dedicado à valorização das relações culturais afro-brasileiras, foi inaugurado em 1988, 100 anos após a abolição oficial do regime escravocrata no Brasil. O espaço possui um vasto e importante acervo artístico e cultural afro-brasileiro, a exemplo de cerca de 200 peças originárias do Golfo do Benin. É mantido pela Fundação Gregório de Mattos.