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Dupla de Vitória da Conquista, cajupitanga lança 'Ubá (2019-2024)', disco sobre memória e retorno para casa

Projeto reuniu canções dos últimos seis anos; primeira apresentação ao vivo acontece nesta quinta-feira (11)

  • Foto do(a) author(a) Maria Raquel Brito
  • Maria Raquel Brito

Publicado em 11 de junho de 2026 às 15:57

cajupitanga em
cajupitanga em "Ubá (2019-2024)" Crédito: Divulgação

“Ubá”. Em tupi-guarani, é uma canoa de uma só peça escavada em tronco de árvore. É também um município de Minas Gerais, e ainda a Manga Ubá, que vem dessa mesma região. Agora, ganha mais uma correspondência: o novo disco da dupla conquistense cajupitanga, lançado no último dia 2.

Com 18 faixas, “Ubá (2019-2024)” é construído por composições registradas ao longo dos primeiros seis anos do projeto, marcadas por gravações de campo, registros caseiros e proposta lo-fi, com o violão como eixo central – o que sempre permeou os trabalhos do duo formado por Candioco e Gabriel Tupy.

Projeto é formado por Gabriel Tupy e Candioco
Projeto é formado por Gabriel Tupy e Candioco Crédito: Divulgação

O disco é descrito por eles como um álbum de memórias. São canções trabalhadas desde o início do projeto e que foram sendo guardadas em meio a outros lançamentos. Foi assim que, da ideia de um EP em 2021, Ubá foi tomando forma e virou algo a mais, um recipiente da história da cajupitanga.

“Quando a gente concebeu Ubá ele tinha uma estrutura, mas falamos: ‘pô, vamos segurar’. Outros discos foram vindo, outras ideias foram vindo e ele ficou ali guardadinho, esperando o momento dele. Ao longo de todo esse processo de composição das outras coisas, a gente ia pegando as ‘sobras’ e colocando no Ubá, justamente como essa coleção de memórias, não porque sobraram”, diz Candioco.

No fim das contas, o tempo acabou se tornando para os dois uma ferramenta de composição. Enquanto outros discos, como Sonhei Que Estava em Takamatsu (2025), foram compostos em apenas alguns meses, Ubá precisou dessa maturação para vir ao mundo.

“Ubá depende exclusivamente do tempo, não só dentro dele como o formato do disco em si, para a composição das músicas, para essa ambiência. É como se a gente tivesse escrito um poema lá atrás, deixado na gaveta e o tempo que ele passou na gaveta foi dando significado ao texto, ao conceito e as formas, até que a gente o tira da gaveta e fala: ‘olha, acho que toda essa poeira que está em cima faz parte do poema’”, afirma Tupy.

Eles não tinham ideia que, daquele trabalho inicial, surgiria um projeto tão ambicioso. Isso porque Ubá é só o começo: o disco é o primeiro capítulo da série “TORNADA”, que será concebida em quatro partes. O projeto reflete sobre memória e espaço – casa, estrada e as percepções sobre lugares por onde passaram.

Retorno para casa

A força não só da memória, mas do espaço fez de Ubá o ponto inicial ideal para TORNADA. Naturais de Vitória da Conquista, Candioco e Gabriel Tupy vivem hoje em Salvador e Belo Horizonte, respectivamente. Nas canções, a cidade do sudoeste baiano se faz presente dos títulos aos contextos em que foram gravadas. É uma espécie de volta para casa, mas uma casa formada pelas lembranças.

“A ideia da ‘tornada’ está aí. É esse lugar que a gente sente saudade, porque não está mais lá, mas que de alguma forma nunca existiu. Essa Conquista que eu tenho na minha memória é uma Conquista que eu inventei e não é a mesma conquista de Tupy. Por mais que a gente morasse no mesmo bairro, fosse vizinho, estudasse na mesma escola e fosse nos mesmos lugares, não é a mesma. Tampouco é a Conquista eh de verdade”, reflete Candioco.

A existência do município de Ubá, por sua vez, foi apenas uma feliz coincidência. É, para eles, como se ampliasse as possibilidades de espaço trabalhadas no disco. Claro, estão refletidas ali as memórias dos dois, mas as perspectivas possíveis são muitas para os ouvintes. O título veio da canoa, que carrega as lembranças e as músicas que ficaram guardadas.

“Se a gente volta para casa, que casa é essa? Eu acho que por isso a gente entendeu que o nome desse projeto deveria ser Tornada e que, justamente, essa casa que a gente volta é uma segunda, não é a nossa. Essa nossa mesmo foi embora, o tempo levou e não tem como mais acessar. É de alguma forma uma visão um pouco melancólica, mas tem uma certa liberdade nisso, porque a gente também se entende em movimento”, completa Candioco.

À distância

Desde sua concepção, a cajupitanga nunca ficou parada por muito tempo. Em 2020, seu primeiro ano de lançamentos, publicou três EPs e um single. Em 2025, foram dois álbuns e um EP de outtakes.

Tudo isso com mais de mil quilômetros de distância entre os dois e se vendo, às vezes, apenas uma vez por ano. Precisaram se adaptar. “Eu gravava alguma coisa, mandava para ele, ele produzia, mandava de volta, escutava, criticava e a gente ia trabalhando junto, meio que palpitando a produção um do outro e lapidando aos poucos. A gente quase que compõe por correspondência, sabe?”, diz Tupy, lembrando dos processos de gravação do último ano.

Antes, aproveitavam cada encontro em Conquista para compor e produzir. Agora, fazendo isso “por correspondência” e em outras cidades, tiram os momentos em que estão na terra natal para descansar.

“É de alguma forma o nosso centro criativo vivo ali. Eu sinto que nos últimos tempos a gente está se encontrando em conquista para relaxar um pouco, para tipo ser amigo de novo. Porque eu só converso com ele para a gente resolver coisa e tudo mais, e às vezes a gente se fala mais pela cajupitanga do que pela livre e boa amizade”, brinca Candioco.

Nos shows e em alguns trabalhos, a dupla tende a tomar forma de coletivo. Colabora com artistas como Ramon Gonçalves (Aurata) e Pedro Oliveira (Bagum). Atualmente, João Antônio Dourado (Tangolo Mangos) é oficialmente o baterista da banda, e Paulo Pitta o saxofonista.

“Quando a gente se apresenta em banda, apesar do centro da cajupitanga sermos nós dois, todo mundo ali faz parte do projeto. A gente vai fazer shows no sudeste junto com a Tangolo Mangos, mas todos nós ficamos como uma banda só. A gente como Tangolo Mangos, eles como cajupitanga. Um show só, as duas bandas ao mesmo tempo, como uma só. Eles estão também fazendo parte desse projeto e eu acho que a gente sempre teve essa ideia, porque sempre entendemos que essa colaboração é o que faz do projeto ser uma coisa maior e mais bonita”, diz Candioco.

Ubá em movimento

Depois do lançamento, o objetivo da cajupitanga é trabalhar o novo disco, assim como todo o universo de TORNADA, perto do público. Já começaram a planejar as apresentações Brasil afora e até em outros países. Ainda não podem contar muita coisa, mas, como adiantaram acima, os ouvintes do sudeste podem começar a se preparar para receber shows da dupla ainda em julho.

Quem estiver em Salvador e quiser experienciar Ubá em pessoa pela primeira vez, porém, tem uma oportunidade nesta quinta-feira (11), às 20h. Candioco sobe ao palco a convite de João Denovaro, baixista da Tangolo Mangos, para uma apresentação em duo no Teatro SESI Rio Vermelho.

A proposta é uma apresentação focada em violões e guitarras, intimista como se estivessem tocando dentro de um quarto. No repertório, além das canções do Ubá, estão composições ainda não lançadas de Denovaro, versões de outras músicas que os dois gostam de tocar juntos e faixas também do Casa Dois, segundo capítulo de TORNADA, ainda sem previsão de lançamento.

“É uma grande diversão para nós. É bem algo bem livre e eu acho que a gente quer levar essa brincadeira, essa troca para o palco do teatro. Porque no fim das contas é uma grande alegria estar tocando com um amigo, é algo que eu sinto muito tocando com Tupy. E é também uma grande emoção levar algumas das composições que a gente fez para o público nesse teatro”, diz Candioco.

Os ingressos custam a partir de R$ 25 e podem ser adquiridos no Shotgun.