Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Mariana Rios
Publicado em 12 de julho de 2026 às 03:33
Antes mesmo do café, muita gente abre o jornal ou o celular para conferir o horóscopo do dia. Uma frase sobre amor, trabalho ou dinheiro pode soar como um conselho oportuno, um alerta discreto ou até um incentivo para começar a manhã com mais confiança. >
Esse fascínio pelos signos e pelas previsões cotidianas foi objeto de estudo do filósofo alemão Theodor W. Adorno, um dos principais nomes da Escola de Frankfurt. Em As estrelas descem à Terra, ele analisou uma coluna de astrologia do Los Angeles Times para compreender por que esse tipo de conteúdo continua despertando tanto interesse.>
Confira 80 livros que serão lançados em julho de 2026
A obra volta a circular no Brasil em segunda edição da Editora Unesp, publicada em 2025, com tradução de Pedro Rocha de Oliveira e posfácio de Rodrigo Duarte. A nova edição recoloca em debate um estudo clássico sobre a presença da astrologia na cultura de massa.>
Um dos pontos mais curiosos da análise de Adorno é a forma como o leitor se relaciona com o horóscopo. Segundo o filósofo, quem lê a coluna astrológica não participa da construção do sistema nem conhece seus fundamentos: recebe apenas orientações apresentadas como se fossem informações confiáveis. Nesse mecanismo, o irracional aparece revestido de conselhos práticos, linguagem objetiva e promessas de adaptação à vida cotidiana.>
Adorno observa que essa combinação entre autoridade abstrata e orientação pessoal aproxima a astrologia de outros dispositivos modernos de influência social. A aparente banalidade dos horóscopos, portanto, torna-se um campo privilegiado para examinar como mensagens autoritárias podem circular em escala reduzida, antes de assumirem formas politicamente mais ameaçadoras. É nesse sentido que o estudo funciona como um “tubo de ensaio” para compreender engrenagens simbólicas presentes em fenômenos de massa.>
Para o filósofo, os horóscopos não devem ser vistos apenas como previsões sobre o futuro. Eles também funcionam como mensagens de orientação para questões práticas da vida diária, oferecendo ao leitor uma sensação de apoio, direção e segurança diante das incertezas do cotidiano.>
Em sua análise, Adorno chama esse fenômeno de “superstição secundária”, isto é, uma forma de crença institucionalizada e amplamente difundida por jornais, revistas e outros meios de comunicação. As colunas astrológicas combinam linguagem de aconselhamento, apelo emocional e uma autoridade atribuída às estrelas.>
As estrelas descem à Terra permanece como uma das análises mais originais de Adorno sobre os vínculos entre psicologia, cultura e sociedade. Ao tomar a astrologia como objeto de investigação, o filósofo revela como formas aparentemente inofensivas de entretenimento podem reproduzir mecanismos de conformismo, autoridade e alienação. Nesta segunda edição, a obra reafirma sua relevância ao oferecer instrumentos para compreender fenômenos que continuam presentes em uma sociedade marcada pela circulação massiva de informações e pela crescente busca de respostas simplificadas para problemas complexos.>
Título: As estrelas descem à Terra: a coluna de astrologia do Los Angeles Times – um estudo sobre superstição secundária >
Tradução: Pedro Rocha de Oliveira>
Número de páginas: 195>
Formato: 14 x 21 cm>
Preço: R$ 72>